quinta-feira, 28/08/2025
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Felca, adultização e regulamentação: por que indignação não basta

A historiadora e psicanalista Vanessa Guadagnini Prates defende a regulamentação e responsabilização das redes para evitar exposição de crianças e adolescentes
Foto: @felca0 / Instagram
Foto: @felca0 / Instagram

Por Vanessa Guadagnini Prates

Agosto de 2025 foi marcado pela publicação do vídeo “Adultização”, do youtuber Felipe Bressanim Pereira, o Felca. A produção rompeu bolhas digitais e reacendeu um debate urgente: a exposição de crianças e adolescentes a situações que antecipam a vida adulta.

Adultização não é só erotização precoce, que já assusta por si só, mas também acontece quando crianças são colocadas em papéis de adulto ou expostas a padrões de consumo, estética, linguagem e comportamento que não condizem com sua maturidade emocional. Essa imposição atrapalha o amadurecimento, confunde a identidade, mexe com a autoestima e distorce a infância. Reality shows, vídeos de mini-influenciadores, desafios e campanhas publicitárias transformam a infância em palco da vida adulta e sobrecarregam emocionalmente os menores, mesmo sem sexualização.

No vídeo, que dura quase uma hora, Felca mostra casos graves, explica como os algoritmos recomendam conteúdos impróprios e questiona a falta de ação efetiva das plataformas. A repercussão foi enorme: milhões de visualizações, debates no Congresso e comoção nacional.

O que o vídeo mostrou: cinco pontos principais

1. Algoritmo P: conteúdos nocivos chegam a públicos vulneráveis por meio de um afunilamento contínuo de buscas, acessos e recomendações automáticas. Ou seja, ao consumir determinados vídeos ou interagir com conteúdos populares entre crianças, o algoritmo passa a sugerir sequências similares, expondo os menores a conteúdos potencialmente prejudiciais e, em alguns casos, facilitando o contato com predadores.

2. Casos reais: influenciadores expõem menores para ganhar engajamento e dinheiro, sem bloqueios eficazes.

3. Tolerância das plataformas: políticas existem, mas só funcionam depois que há repercussão.

4. Impacto social: a denúncia mobiliza sociedade, Congresso e gera debate sobre CPI.

5. Responsabilização urgente: sem regras claras, o lucro incentiva conteúdos prejudiciais e crianças continuam vulneráveis.

Resposta das plataformas e lacunas

Diante desses episódios, a reação das plataformas digitais tornou-se alvo de atenção e críticas, revelando lacunas importantes em sua atuação. Meta e Google reforçam que proíbem exploração infantil e removem conteúdos ou contas que violem regras. No entanto, relatórios e estudos apresentados à Câmara dos Deputados mostram que essas ações ainda ocorrem de forma lenta e, muitas vezes, apenas após grande repercussão pública. O Instituto Alana, por exemplo, destacou a necessidade de atuação mais eficaz das plataformas para proteger crianças e adolescentes, reforçando que mecanismos legais são essenciais para tornar a resposta mais rápida e consistente.

Fica evidente: sem regras obrigando ação rápida e eficaz, a proteção das crianças fica à mercê da reação das próprias plataformas, que muitas vezes priorizam interesses econômicos em vez de segurança infantil.

Para tentar preencher essas lacunas, o Congresso apresentou diversas propostas legislativas voltadas à proteção infantil.

Propostas legislativas e CPI

O Congresso já registrou cerca de 32 projetos de lei sobre prevenção e punição da adultização online. Entre as ideias:

• Design seguro por padrão: mecanismos de proteção infantil desde a criação do serviço.

• Prazos curtos para remoção de conteúdo nocivo: resposta rápida para proteger a integridade emocional das crianças.

• Limites de monetização envolvendo crianças: reduzir ganhos de quem explora menores, desestimulando práticas nocivas.

• Transparência e auditoria de algoritmos: plataformas explicando como conteúdos são recomendados, com fiscalização de órgãos competentes.

• Sanções proporcionais às falhas: multas, suspensão de contas ou bloqueio de receitas quando regras não são cumpridas.

No Senado, um pedido de CPI com 70 assinaturas quer investigar exploração infantil nas redes, abrangendo criadores e plataformas.

PL 2628/2022 e ataques políticos

O PL 2628/2022 é um projeto de lei que estabelece medidas específicas para combater a exploração infantil e a exposição indevida de crianças e adolescentes na internet. Ele enfrenta resistência de setores da extrema-direita, que buscam afrouxar suas disposições em favor das Big Techs, o que poderia comprometer a eficácia das medidas de proteção previstas. Mesmo assim, foi aprovado no Senado e nesta semana pela Câmara dos Deputados. Como os deputados fizeram alteração no texto, agora ele volta ao Senado.

É importante diferenciar esse projeto da regulamentação da internet, que é mais ampla. O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabeleceu princípios gerais, mas não há uma legislação específica que regule de forma abrangente as atividades das plataformas digitais. A regulamentação busca criar regras claras para garantir liberdade de expressão, transparência das plataformas e responsabilidade sobre conteúdos prejudiciais, mas enfrenta oposição de setores que a associam à censura. Assim, PL 2628 e a regulamentação são caminhos distintos, embora relacionados: um é específico e já tramitando, o outro é mais amplo e ainda objeto de debate.

O impasse político e contrassenso ideológico

O vídeo uniu setores progressistas e conservadores na defesa das crianças. Mas parte da direita ainda se prende ao argumento de “censura” para rejeitar qualquer regulamentação, o que é incoerente diante da necessidade de proteger menores.

Regular não é silenciar opiniões ou limitar debates políticos. É criar regras claras, prazos para remoção de conteúdos nocivos, deveres de cuidado e exigência de transparência nos algoritmos. Sem isso, a proteção das crianças fica refém do lucro e da negligência das plataformas.

Se nada for feito, crianças continuam expostas, a exploração persiste, e interesses econômicos se sobrepõem à sociedade. Romper com o discurso de censura é essencial para transformar indignação em ação concreta.

Quando setores da direita superam esse obstáculo ideológico, é possível unir forças políticas em torno de uma causa objetiva e urgente: garantir que a infância não seja palco de exploração digital. Proteger menores não é questão de partido, é dever civil, moral e ético.

Apesar desses obstáculos, é possível conciliar a proteção das crianças com a preservação da liberdade de expressão, desde que existam mecanismos claros e auditáveis.

Liberdade com responsabilidade

Proteger menores sem cercear a liberdade de expressão é possível. A solução está em mecanismos claros, auditáveis e com controle externo. A defesa das crianças não pode ser só um discurso momentâneo; precisa virar política pública real, que reduza riscos e desestimule práticas nocivas.

Se nada mudar, passado o barulho, quem decide o que circula continua sendo o algoritmo, não o interesse público. Adultização infantil, seja erotização precoce ou imposição de papéis adultos, não se resolve com indignação. Exige regras claras, fiscalização e coragem para colocar responsabilidade nas mãos de quem lucra com a exposição da infância.

Proteger a infância online não é opcional: é um dever de todos, que exige regras, fiscalização e coragem para colocar a responsabilidade nas mãos de quem lucra com a exploração digital.

Vanessa Prates - Foto: Acervo pessoal
Foto: Acervo pessoal

Vanessa Guadagnini Prates é historiadora e psicanalista, atua no acolhimento de mulheres em situação de violência.


* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

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