A seca histórica no Sistema Cantareira expõe não apenas os limites climáticos, mas as escolhas políticas que fragilizam a gestão da água, aprofundam desigualdades e colocam em risco o direito ao abastecimento em São Paulo.
Por Radar Democrático
A crise hídrica paulistana não é um fenômeno isolado do clima, mas o ponto de interseção entre emergências ambientais, decisões institucionais de gestão e disputas políticas sobre quem decide o futuro da água em São Paulo.
A seca histórica que ameaça o abastecimento da maior metrópole do país expõe fragilidades não apenas físicas dos mananciais, mas a maneira como políticas públicas e agendas corporativas moldam a vida e os direitos das populações urbanas e rurais.
A crise: seca extrema no Cantareira e risco de desabastecimento
O Sistema Cantareira, responsável por abastecer mais da metade da população da Região Metropolitana de São Paulo, vem enfrentando um cenário de seca hidrológica de intensidade excepcional e extrema, com níveis de armazenamento que caíram para cerca de 20% do volume útil — o pior patamar desde a crise de 2014–2015. Mesmo com chuvas na estação considerada chuvosa, os aportes são insuficientes para repor o déficit hídrico profundo registrado nos últimos meses. No fim de dezembro de 2025, o volume ficou na faixa de “restrição”, e projeções indicam que, caso as chuvas continuem abaixo da média, a situação poderá persistir ao longo do início de 2026.
Esse cenário climática adverso, causado por vento, chuva irregular e fatores como o fenômeno La Niña, tornou a recuperação dos reservatórios lenta e incerta, mesmo em um período historicamente mais favorável à recarga dos sistemas.
Os protocolos de gestão do Cantareira — como a redução do volume autorizado de retirada e operação ainda na faixa restritiva — são tentativas de adiamento do colapso, não soluções estruturais.
Não apenas clima: política urbana e crise hídrica
Enquanto o debate público se concentra na “falta de chuva”, a análise a partir de uma perspectiva institucional revela que a crise é também de políticas públicas e prioridades de Estado.
Em Campinas, por exemplo, a vereadora Mariana Conti (PSOL) propõe CPI da Água para apurar impactos da expansão urbana sobre a água de Campinas. A vereadora tem articulado junto a movimentos sociais uma resposta política à crise hídrica que vai além do gerenciamento técnico dos mananciais: ela aponta que a expansão urbana desenfreada, flexibilização de normas ambientais e a especulação imobiliária agravam a pressão sobre as bacias e rios que abastecem a população.
Essa iniciativa articula duas linhas de crítica importantes:
A fragilização institucional do direito à água com a priorização de interesses imobiliários e econômicos sobre a proteção dos mananciais e das áreas de recarga hídrica.
A invisibilidade das populações mais vulneráveis na gestão dos recursos hídricos, agravando desigualdades no acesso e disponibilidade de água potável em situações de crise.
Na visão desses movimentos e mandatos políticos, a água não deve ser tratada apenas como recurso natural a ser “administrado”, mas como bem comum cuja proteção deve integrar políticas urbanas, ambientais e sociais de longo prazo.
A disputa pela agenda da água: técnica vs. democrática
A narrativa dominante em muitos grandes veículos tem sido focada em “sinais de alerta climáticos” e projeções hidrológicas. Isso é certamente parte da equação — chuvas abaixo da média e vazões reduzidas são realidades científicas concretas.
No entanto, essa mesma narrativa corre o risco de abstrair o debate político mais amplo sobre:
quem decide as prioridades de uso da água e em benefício de quem;
como a expansão urbana — muitas vezes feita sem planejamento ecológico — pressiona ainda mais os sistemas hídricos;
como uma crise climática se torna uma crise de direitos quando políticas públicas não antecipam, mitigam e adaptam o uso dos recursos hídricos às realidades climáticas e sociais.
A proposta de uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Água, como a que vem sendo defendida por Mariana Conti e aliados, parte da premissa de que a crise hídrica não pode ser tratada apenas como problema técnico, mas como questão política de interesse público, sujeita ao escrutínio democrático e à responsabilização de quem tomou decisões que contribuíram para esse quadro.
A crise hídrica no Cantareira, ao ligar sensores técnicos a decisões políticas e sociais, mostra que a água deixa de ser apenas um recurso técnico para se tornar um terreno de disputa democrática sobre prioridades de Estado, justiça ambiental e direito humano fundamental.
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