domingo, 4/01/2026
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Pesquisas eleitorais em São Paulo: o que os números escodem

Levantamentos divulgados ao longo de 2025 mostram como as pesquisas eleitorais deixaram de apenas medir preferências e passaram a atuar como instrumentos de visibilidade, coordenação política e produção antecipada do cenário eleitoral paulista.

Por Radar Democrático

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Ao longo de 2025, as pesquisas de intenção de voto para o Governo do Estado de São Paulo passaram a ocupar um lugar que vai muito além da simples aferição da intenção do eleitorado. Longe de serem instrumentos neutros de medição, esses levantamentos se consolidaram como atores centrais do processo político, operando como dispositivos de visibilidade eleitoral que projetam candidaturas, organizam expectativas e delimitam, de forma antecipada, quem passa a ser percebido como competitivo — e quem é progressivamente deslocado para a invisibilidade.

A ciência política brasileira tem mostrado que pesquisas amplamente divulgadas não apenas refletem a disputa, mas intervêm diretamente nela. Ao serem reiteradamente difundidos por grandes veículos de comunicação, amplificados nas redes sociais e incorporados ao discurso de partidos, analistas e lideranças políticas, os números passam a estruturar narrativas públicas, orientar alianças, influenciar estratégias de campanha e moldar o comportamento do eleitor. Nesse sentido, as pesquisas ajudam a produzir a própria realidade política que dizem medir.

Nesta retrospectiva, o Radar Democrático recompõe os principais dados divulgados ao longo de 2025, apresenta a evolução das intenções de voto em gráfico de linha e analisa seus sentidos à luz da produção de pesquisadores brasileiros especializados em comportamento eleitoral, mídia e metodologia de pesquisas.

A dinâmica das pesquisas em 2025: visibilidade cumulativa e redução do pluralismo

A partir de levantamentos realizados por institutos como Datafolha, Ipec, Quaest, Paraná Pesquisas e AtlasIntel, observa-se um padrão recorrente ao longo do ano: a concentração progressiva de visibilidade política em torno de alguns nomes, à medida que o calendário eleitoral avança.

Esse movimento não pode ser interpretado apenas como resultado espontâneo da “preferência do eleitorado”. Conforme destaca Jairo Nicolau em seus estudo científicos, pesquisas realizadas com grande antecedência captam sobretudo níveis de conhecimento público, exposição midiática e reconhecimento simbólico, e não decisões eleitorais consolidadas. Assim, candidatos que já ocupam posições institucionais relevantes ou que dispõem de maior presença nos meios de comunicação tendem a aparecer melhor posicionados, reforçando sua centralidade rodada após rodada.

Fonte: Elaboração do Radar Democrático a partir da média de pesquisas divulgadas por Datafolha, Ipec, Quaest, Paraná Pesquisas e AtlasIntel ao longo de 2025.
Nota metodológica: No mês de dezembro de 2025, parte dos institutos não divulgou de forma consolidada o percentual agregado de “outros candidatos”, razão pela qual a linha aparece interrompida nesse período.

O gráfico de evolução das intenções de voto evidencia três processos interligados:

  1. O campo governista e da direita paulista em evidência, sustentada por forte exposição midiática, especialmente no último trimestre;

  2. A reorganização do campo progressista e democrático, com a ampliação da visibilidade de Fernando Haddad e Geraldo Alkimin;

  3. O esvaziamento da categoria “outros candidatos”, indicando não apenas diminuição da fragmentação eleitoral, mas um processo de coordenação simbólica do eleitorado, no qual alternativas com menor exposição deixam de ser percebidas como viáveis.

Pesquisas como instrumentos de coordenação e produção de expectativas

Estudos de Bernardo Sorj destacam que pesquisas eleitorais amplamente divulgadas intervêm no próprio processo político, influenciando decisões de partidos, financiadores e eleitores. Nesse sentido, ao sinalizarem quem está “na frente”, elas produzem efeitos cumulativos: candidaturas bem posicionadas tendem a receber mais atenção da mídia, mais apoios políticos e mais recursos, reforçando sua posição nas pesquisas seguintes.

Essa dinâmica dialoga diretamente com as análises de Cesar Zucco Jr. sobre o voto estratégico. Segundo o autor, eleitores ajustam seu comportamento à medida que percebem quais candidaturas têm chances reais de vitória. As pesquisas, assim, funcionam como mecanismos de coordenação, reduzindo a dispersão do voto e acelerando a concentração em torno de nomes considerados competitivos.

Mídia, performatividade e assimetrias estruturais

A centralidade das pesquisas no debate público também precisa ser compreendida a partir da mediação exercida pelos meios de comunicação. Venício Lima argumenta em seus estudos que a divulgação reiterada de rankings eleitorais, sem a devida contextualização metodológica, produz um efeito performativo: ao apresentar determinados candidatos como líderes, a mídia contribui para naturalizar hierarquias políticas e antecipar simbolicamente os resultados da disputa.

Estudos de Rachel Meneguello complementam essa leitura ao enfatizarem que a competição eleitoral no Brasil é marcada por profundas assimetrias estruturais. Acesso a máquinas partidárias, ocupação institucional e tempo de exposição pública são fatores decisivos. As pesquisas, longe de neutralizar essas desigualdades, tendem a reforçá-las, ao amplificar a visibilidade de candidaturas já consolidadas e restringir o espaço público de alternativas menos estruturadas.

Decisão tardia do voto e construção antecipada do cenário

Os estudos de Yan Carreirão mostram que parcela expressiva do eleitorado brasileiro decide o voto apenas nos meses finais da campanha. Isso reforça a necessidade de cautela na leitura de pesquisas realizadas com grande antecedência. Em vez de previsões, elas devem ser entendidas como instrumentos de construção do cenário político, que moldam expectativas, orientam estratégias e delimitam os termos do debate antes mesmo da decisão efetiva do eleitor.

Mais do que perguntar quem lidera as pesquisas, o desafio democrático colocado para 2026 é compreender como as pesquisas produzem visibilidade, coordenam comportamentos e influenciam a própria arquitetura da disputa eleitoral. Nesse processo, informar não é apenas medir — é também disputar sentidos, expectativas e futuros possíveis.

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Rogério Bezerra
Rogério Bezerrahttps://gravatar.com/creatorloudly177c571905
Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

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