A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) aprovou recentemente um aditivo contratual que ultrapassa a marca de R$ 3,6 bilhões em favor da concessionária Linha Universidade (Acciona). O valor é destinado ao reequilíbrio econômico-financeiro da parceria público-privada (PPP) responsável pela construção e operação da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo.
A justificativa do montante bilionário é uma resposta a uma série de imprevistos e custos adicionais alegados pela empresa, incluindo impactos econômicos da pandemia de Covid-19, custos extras com desapropriações e remanejamento de redes de utilidade pública e atrasos na liberação de licenças ambientais e áreas de canteiro.
A aprovação de um aditivo, somada a um atraso que ultrapassa os mil dias, coloca a gestão de Tarcísio de Freitas e a parceria com Ricardo Nunes sob forte questionamento.
A principal crítica ao governador Tarcísio de Freitas reside na contradição entre seu discurso de “eficiência técnica” e a realidade dos canteiros de obras. Embora tenha herdado o projeto, sua gestão optou por validar um aditivo bilionário que, na prática, premia a Acciona por falhas que incluem erros de segurança e geológicos.
O aditivo de R$ 3,6 bilhões aprovado pela Artesp transfere o risco do negócio para o contribuinte. Críticos apontam que problemas geológicos e acidentes (como o rompimento da adutora na Marginal Tietê) deveriam ser riscos assumidos pela concessionária em uma PPP, e não compensados com dinheiro público.
Segundo o deputado estadual Donato (PT), “ao invés de punir a empreiteira pelo atraso, dá um presente para ela R$ 3 bilhões e 600 milhões para essa empreiteira espanhola Acciona, que é amiguinha do Tarsísio e do Ricardo Nunes”.
O deputado ainda afirma que há “uma licitação grande de mais de R$ 2 bilhões para fazer a extensão da Avenida Roberto Marinho com túnel até Imigrantes. A Acciona ficou em terceiro lugar com uma proposta R$ 300 milhões mais cara que o primeiro colocado. E a gestão de Ricardo Nunes desabilitou os dois primeiros e transformou a Acciona com a proposta muito mais cara em vencedora dessa licitação”.
Donato termina revelando que em seu País de origem, a Espanha, a Acciona está sendo processado por corrupção. O deputado já fez representação junto ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e ao Tribunal de Contas do município de São Paulo para apurar esses casos.
Uso eleitoral do cronograma
Existe uma percepção de que o governo está “comprando” a aceleração da obra com esse aditivo para garantir uma inauguração parcial em 2026, ano eleitoral. A pressa para entregar o trecho Brasilândia-Perdizes antes do pleito levanta dúvidas sobre a prioridade: o bem-estar do passageiro ou a vitrine política.
Omissão de Ricardo Nunes
Embora o Metrô seja uma responsabilidade estadual, a omissão do prefeito Ricardo Nunes é um ponto central de crítica. Como gestor da maior cidade do país, Nunes tem sido acusado de ser um “espectador passivo” enquanto a cidade trava.
Nunes é criticado por não utilizar seu peso político para exigir prazos mais rigorosos, aceitando passivamente os atrasos que impactam diretamente o trânsito e o transporte municipal (ônibus e calçadas) na Zona Norte e no Centro.
Obras emergenciais sob suspeita
Enquanto o metrô atrasa, a gestão municipal é investigada pelo Ministério Público por irregularidades em mais de 300 obras emergenciais sem licitação. A crítica aqui é de que o foco da prefeitura está em “asfalto e obras rápidas” de visibilidade imediata, em vez de cobrar soluções para os grandes eixos estruturantes de mobilidade.
O histórico da obra é marcado por interrupções significativas. O projeto, que deveria conectar a Brasilândia (Zona Norte) à estação São Joaquim (Centro), enfrenta um atraso acumulado de mais de 1.000 dias.
Originalmente, a previsão de entrega da linha era para o final da década passada, mas o projeto ficou paralisado por quatro anos — entre 2016 e 2020 — após o consórcio anterior (formado por Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC) não conseguir financiamento. A Acciona assumiu o projeto em 2020, mas o cronograma segue sofrendo pressões.
O Governo do Estado trabalha com a entrega parcial para 2026 e a conclusão total para 2027. Justamente em ano eleitoral. No entanto, incidentes graves durante o percurso — como o rompimento de uma adutora de esgoto que inundou o túnel e abriu uma cratera na Marginal Tietê em 2022 — contribuíram para a manutenção do ceticismo sobre os prazos.
Quando concluída, a Linha 6-Laranja terá 15 km de extensão e deve transportar cerca de 630 mil passageiros por dia, reduzindo o trajeto entre a Brasilândia e o Centro de 90 para apenas 23 minutos. Enquanto a obra não fica pronta, a população continua sofrendo para se deslocar.


