
Por Rogério Bezerra da Silva
No dia 20 de fevereiro, a Secretária Municipal de Educação de Campinas concedeu entrevista ao G1 Campinas e Região para comentar os índices de alfabetização da rede, destacando que 41% dos estudantes do 2º ano estariam alfabetizados. A declaração provocou reação de educadores municipais, que afirmam que o debate foi apresentado de forma incompleta e desconsiderou aspectos estruturais da política educacional.
Em nota pública, o Coletivo de Educadores da Rede Pública Municipal de Campinas apresentou sua avaliação sobre os dados apresentados e o contexto em que foram divulgados.
Organização em ciclos e o debate sobre alfabetização
A rede municipal de Campinas é estruturada em ciclos de aprendizagem, nos quais as crianças têm até o 3º ano do Ensino Fundamental para consolidar o processo de alfabetização. Segundo o coletivo, a divulgação isolada de índices do 2º ano pode induzir a interpretações que não consideram a concepção pedagógica adotada pelo município.
De acordo com os educadores, a antecipação de metas e a centralidade em percentuais podem gerar pressão sobre estudantes e profissionais, deslocando o foco da formação integral para o cumprimento de indicadores.
Condições de trabalho e impactos na aprendizagem
Na nota pública, o Coletivo de Educadores reconhece os efeitos profundos da pandemia sobre o processo de alfabetização, mas ressalta que o esforço de recomposição da aprendizagem vem sendo realizado em um cenário de precarização das condições de trabalho.
Entre os principais problemas apontados estão:
- Salas com elevado número de estudantes, o que dificulta o acompanhamento individualizado, especialmente nos anos iniciais;
- Insuficiência de profissionais de apoio, incluindo a ausência de equipes multidisciplinares permanentes nas unidades escolares;
- Problemas estruturais nas escolas, como limitações de infraestrutura física e tecnológica;
- Sobrecarga docente, com acúmulo de funções pedagógicas, administrativas e socioemocionais.
O cenário se agrava quando se observam indicadores de saúde dos docentes. Levantamento divulgado por entidades sindicais com base em dados oficiais aponta que Campinas registrou 3.356 licenças médicas por transtornos mentais e comportamentais entre docentes apenas entre janeiro e setembro de 2025.
Estudos nacionais publicados na área de saúde do trabalhador indicam que entre 21% e 69% dos professores apresentam altos níveis de exaustão emocional, e que cerca de 60% relatam sintomas compatíveis com síndrome de burnout, quadro associado à sobrecarga, falta de apoio institucional e pressão por resultados.
Esses números demonstram que a discussão sobre desempenho escolar não pode ser dissociada das condições concretas em que o trabalho docente é realizado. Não há política de resultados que se sustente quando o profissional está adoecido ou trabalhando no limite.
Gestão democrática e participação
O Coletivo destaca que a rede municipal possui tradição de gestão democrática, com espaços como Conselhos de Escola, comissões internas e reuniões pedagógicas coletivas. A nota afirma que esses fóruns são os canais legítimos de debate sobre qualidade e diretrizes educacionais.
Segundo a nota, processos pontuais de escuta, que são o que a Secretaria vem fazendo, não substituem mecanismos institucionais consolidados de participação.
Diretrizes e papel do poder público
Outro ponto enfatizado é a defesa de que as diretrizes da rede municipal sejam construídas com ampla participação dos profissionais da educação. Para os educadores, a formulação das políticas públicas educacionais deve permanecer sob responsabilidade do poder público, em diálogo com a comunidade escolar.
Ao trazer a público sua posição, o Coletivo de Educadores da Rede Pública Municipal de Campinas afirma que o debate sobre alfabetização precisa considerar não apenas indicadores numéricos, mas também condições estruturais, concepção pedagógica e valorização profissional.
Para os educadores, fortalecer a educação pública passa, necessariamente, por escuta qualificada, gestão democrática e compromisso com a formação integral dos estudantes.
Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.
Clique aqui e receba o Radar no whatsapp.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.




