O campus da USP viveu um dia de intensos contrastes nesta terça-feira (31/03). Enquanto o Conselho Universitário aprovava a criação de um bônus milionários a uma parcela de docentes, com a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE), funcionários técnicos e administrativos realizavam a maior paralisação dos últimos 10 anos, fechando serviços essenciais como o Bandejão Central e a prefeitura do campus.
A medida aprovada pelo Conselho, órgão máximo deliberativo da universidade, institui um pagamento mensal de R$ 4.500 por até 24 meses para professores em regime de dedicação integral (RDIDP) que assumirem projetos considerados “estratégicos”, como aulas em inglês. No total, cada docente contemplado receberá R$ 108 mil, um montante que deve custar aos cofres públicos cerca de R$ 238,44 milhões por ano. Para o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), esse valor representa um “verdadeiro escárnio” e uma profunda quebra de isonomia, equivalendo a 66 salários de uma trabalhadora terceirizada.
A revolta na base: paralisação e indicativo de greve
Em resposta ao que chamam de “projeto elitista e precarizante”, cerca de 2 mil pessoas, entre trabalhadores e estudantes, marcharam em direção à Reitoria. A categoria reivindica um reajuste fixo de R$ 1.200 no salário, a reposição de 14,5% de perdas inflacionárias desde 2012 e o direito ao BUSP (ônibus circular) para trabalhadores terceirizados, que hoje são excluídos do benefício. “Não podemos aceitar 4.500 para eles e nada para nós e para o restante da comunidade universitária!”, declarou o Sintusp em comunicado.
Análise: O DNA neoliberal de Tarcísio na USP
A manutenção dos chamados “Parâmetros de Sustentabilidade Econômico-financeira” é denunciada pelo sindicato como um mecanismo de ajuste fiscal que impõe arrocho salarial e sobrecarga de trabalho, enquanto é convenientemente “flexibilizada” para beneficiar o alto escalão da burocracia acadêmica. O ex-reitor Vahan Agopyan, atual Secretário de Ciência e Tecnologia de Tarcísio, é apontado como um dos idealizadores desses parâmetros que priorizam o lucro de empresas parceiras em detrimento das condições de vida de quem faz a universidade funcionar.
Caso as demandas por isonomia e valorização salarial não avancem, os trabalhadores já aprovaram um indicativo de greve para o próximo dia 9 de abril.



