A histórica condenação da multinacional Robert Bosch a pagar uma indenização de R$ 12 milhões por danos morais coletivos e individuais a 86 trabalhadores, no âmbito da Operação Hipócritas, é um marco fundamental na defesa da dignidade da classe trabalhadora. A decisão, proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, expõe um esquema de corrupção que alterava laudos médicos periciais para negar doenças ocupacionais e indenizações.
Em entrevista ao Radar Democrático, Jair dos Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, e também pastor da igreja evangélica ADAP, detalhou a atuação do sindicato na denúncia do esquema e as implicações mais amplas da Operação Hipócritas, que revelou um cenário de adoecimento e perseguição no ambiente de trabalho, exacerbado por reformas trabalhistas e pela instrumentalização política da fé.
Veja a entrevista de Jair dos Santos na íntegra
A Operação Hipócritas e a Luta Sindical
Jair dos Santos explicou que a Operação Hipócritas surgiu de denúncias do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região ao Ministério Público, motivadas por uma verdadeira “epidemia de trabalhadores adoecidos” em diversas empresas. A investigação revelou um esquema que envolvia médicos, peritos, advogados e gerentes de recursos humanos de empresas, que produziam laudos fraudulentos para negar a relação entre doenças e o ambiente de trabalho.
“É uma decisão histórica para a classe trabalhadora”, afirmou Jair dos Santos. Ele detalhou que o processo teve início por volta de 2010 e se desdobrou na deflagração da Operação Hipócritas em 30 de maio de 2016, com a Polícia Federal e o Ministério Público realizando mais de 200 ações em 20 cidades do estado de São Paulo.
O presidente do sindicato revelou que a Bosch é apenas a “pontinha do iceberg”, e que outras multinacionais da região estão envolvidas, embora seus nomes ainda corram em segredo de justiça. O esquema era tão sofisticado que incluía a espionagem de trabalhadores: “A Eaton, empresa de autopeças, instalada em Valinhos, manteve um contrato com a empresa Kroll Associates, considerada uma das maiores do mundo em espionagem e investigação privada, para invadir a privacidade de diversos trabalhadores e seus familiares”, citou Jair, referindo-se a um período entre “3 de 9 de 2020 a 2 de 9 de 2003” para a ação da ITAM, segundo o relato.
Em alguns casos, investigadores contratados chegavam a forjar situações, como colocar sacos de areia ou pedra em frente às garagens dos trabalhadores para fotografá-los fazendo esforço, na tentativa de provar que não estavam doentes. “Era uma coisa, assim, quase que inacreditável”, ressaltou Santos.
Ambiente de Trabalho e Adoecimento Silencioso
O sindicalista desmistificou a ideia de que grandes multinacionais oferecem sempre as melhores condições de trabalho. Segundo ele, apesar de as fábricas parecerem limpas e organizadas, o ambiente de trabalho é, na realidade, “um ambiente de trabalho que mutila, que adoece e que, em algumas situações, até mata”.
A natureza do adoecimento mudou. Antes, era mais visível o contato com graxa e óleo. Hoje, o maior problema é o adoecimento mental e emocional, decorrente do ritmo acelerado, da pressão psicológica e do assédio moral coletivo, que muitas vezes é implícito, mas devastador. O processo começa com lesões osteomusculares, evolui para discriminação e perseguição, e pode levar à depressão e até ao suicídio. Jair dos Santos destacou a luta do sindicato para garantir que trabalhadores adoecidos sejam realocados em funções compatíveis e tratados com dignidade, sem serem segregados em “setores dos lesionados”.
Reforma Trabalhista e Precarização
Jair dos Santos não hesitou em apontar a reforma trabalhista de 2017 como um fator crucial para a precarização do ambiente de trabalho. “Eu não tenho dúvida de que a reforma trabalhista, ela contribui de maneira significativa para esse assédio coletivo, para essa pressão psicológica que a classe trabalhadora vem sofrendo”, declarou. A reforma, com suas mais de 90 mudanças na CLT, especialmente em segurança e medicina do trabalho, dificultou a atuação sindical e a fiscalização, deixando os trabalhadores em “um ambiente extremamente lesivo”.
Ele citou que, em decorrência da reforma, o sindicato não conseguiu renovar acordos coletivos com grandes empresas como a própria Bosch, Eaton, Filtrosman e KSPG (hoje kolben-Schmidt), o que as beneficia ao facilitar as práticas que levam ao adoecimento dos trabalhadores.
Eleições 2026: A Urgência de uma Bancada Progressista
Analisando a conjuntura política, Jair dos Santos observou que, embora o Brasil viva um cenário de baixo desemprego e inflação controlada, as reformas trabalhista e da Previdência continuam a castigar os trabalhadores. Para 2026, as eleições são determinantes.
“Os trabalhadores não podem dar um passo atrás, seja no aspecto da luta por direitos, seja no aspecto de manter a democracia, a soberania do Brasil”, alertou. Ele enfatizou que reeleger o presidente Lula não será suficiente se não houver uma mudança na composição do Congresso Nacional.
A “quantidade de empresários no Congresso Nacional hoje é absurda”, e é preciso eleger uma bancada de senadores e deputados federais que apoie projetos de interesse da classe trabalhadora. Um dos pontos prioritários é o fim da escala 6 por 1, com redução de jornada, uma medida que, segundo estudos da OIT, não prejudica a produtividade e cria ambientes de trabalho mais saudáveis. A “pejotização”, embora mais presente no setor administrativo, também é combatida pelo sindicato, por ser “extremamente lesiva”.
Fé e Política: Um Diálogo Necessário
Como pastor evangélico, Jair dos Santos abordou o avanço da extrema direita em parte do campo religioso. Ele diferencia os grandes ministérios, que se aproximam do conservadorismo, de uma parcela significativa de trabalhadores evangélicos que não compartilham dessa visão. Sua abordagem é de não discutir a religião, mas sim os direitos.
Ele propõe questionar líderes religiosos quando estes se posicionam contra os direitos dos trabalhadores, como ao afirmar que “os trabalhadores não sabem o que fazer com o tempo livre no final de semana”. Segundo ele, essa é uma forma de utilizar a fé “para um objetivo político, para que esses lideres se deem bem”, desvirtuando o propósito cristão.
São Paulo e as Consequências das Privatizações
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos também criticou a política de privatizações do governo Tarcísio de Freitas em São Paulo, citando a tragédia do rompimento de um reservatório da Sabesp em Mairiporã, que resultou na morte de um trabalhador terceirizado. “Nós somos radicalmente contra a terceirização, a quarteirização, a privatização”, reforçou.
Para Jair, a ideia de que o Estado é ineficiente e a iniciativa privada é a solução não se sustenta. Privatizações resultam na perda de direitos dos trabalhadores e na piora dos serviços públicos, como a falta de água. A aposta para o futuro de São Paulo é um governo progressista, alinhado com as políticas federais, com Haddad sendo um nome cogitado para essa mudança.
Chamado à Unidade e à Paz Global
Em sua mensagem final, Jair dos Santos convocou à unidade do campo progressista, ao engajamento dos trabalhadores na luta cotidiana e nas redes sociais, e à defesa da democracia e da soberania nacional.
Ele ainda repudiou as interferências externas e as guerras pelo mundo, como as ações dos Estados Unidos em relação à Venezuela e o boicote a Cuba, e os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio. “Nós somos defensores da paz, de que tem que haver paz entre os países e o respeito à soberania de cada país”, concluiu.


