
A crescente e alarmante onda de feminicídios no Brasil força a pauta da vida das mulheres a se tornar a prioridade máxima no debate público e político, uma realidade dolorosa que a vereadora Fernanda Henrique (PT) de Ribeirão Pires, no ABC Paulista, destaca com veemência. Em entrevista ao Radar Democrático, a parlamentar, que também é militante e presidenta do PT em sua cidade, ressaltou as adversidades enfrentadas por mulheres no cenário político e social, especialmente em um ambiente de escassez de investimentos e desrespeito à democracia.
Feminicídio: barbárie exige ação urgente
Fernanda Henrique expressa a tristeza de ver o direito à vida de mulheres como pauta central, em detrimento de discussões sobre desenvolvimento econômico e orçamento. “É muito triste isso ter que ser a nossa principal pauta. A nossa principal pauta deveria ser entender o desenvolvimento econômico da cidade, você pauta o orçamento, pauta a moradia. Agora, o direito à vida não deveria ser a principal pauta de uma parlamentar,” afirmou.
A vereadora atribui a escalada da violência à influência do machismo, da misoginia e da extrema direita, citando casos trágicos como o assassinato de uma mulher em um shopping no ABC Paulista e a alta subnotificação de ocorrências. Ela critica figuras públicas que, segundo ela, utilizam a agressividade para se promover politicamente. “É inadmissível, porque além da gente fazer a luta pela sobrevivência, a gente tem que lutar para garantir que os espaços democráticos, que esses espaços de poder não sejam ocupados por pessoas agressivas, por criminosos.”
Veja a entrevista de Fernanda Henrique, Vereadora de Ribeirão Pires, na íntegra:
Em Ribeirão Pires, o combate à violência contra a mulher enfrenta um “orçamento baixíssimo”. A Coordenadoria de Mulheres conta com apenas uma funcionária, um quadro considerado insuficiente. Apesar de iniciativas como a Patrulha Maria da Penha e o botão ANA (aplicativo da Guarda Municipal para agilizar chamada de socorro), a falta de investimento compromete a efetividade dessas políticas. “O enfrentamento à violência contra a mulher precisa de investimento,” enfatiza Fernanda, que, em parceria com a Frente Parlamentar de Vereadoras Negras do ABC e o deputado estadual Barba (PT), busca implementar um projeto de lei municipal que se some ao Pacto Nacional pelo Fim do Feminicídio.
A vereadora também criticou a postura do governo do estado de São Paulo, liderado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que, segundo ela, “é inimigo das mulheres” pela falta de sensibilização e investimento em políticas de proteção e moradia. “O Tarcísio faz parte dessa bancada machista, misógina, que não se preocupa em como defender as nossas mulheres, como garantir os direitos das nossas mulheres.”
Privatização da Sabesp: Contas Altas e Serviço Precário
Outra preocupação central para a vereadora é a privatização da Sabesp, vista como um “grande estelionato” do governador Tarcísio. Em Ribeirão Pires e na região do ABC, a situação da água tem se deteriorado. A transposição de Rio Grande da Serra, área de proteção de mananciais, preocupa pela priorização do lucro em detrimento da sustentabilidade.
O atendimento da Sabesp na cidade é criticado por sua precariedade: “a agência da Sabesp aqui atende das 10 da manhã a 1h da tarde, não é no centro da cidade, pouquíssimos funcionários, sequer a gente tem uma coordenação aqui.” Além disso, a agência virtual não funciona e as contas têm vindo cada vez mais caras. Fernanda relata aumentos exorbitantes nas faturas, incluindo a sua própria: “na minha casa o mês passado a conta de 120 reais veio 700 reais, hoje tinha uma pessoa que uma conta de 100 reais foi para 1.200 reais, uma entidade que a conta veio 7 mil reais.”
“A privatização do Tarcísio prejudicou o povo trabalhador, essa é a real. A tarifa está mais cara, a água está com a qualidade inferior e além disso o serviço totalmente sucateado,” denuncia a vereadora.
Transparência e Governança em Ribeirão Pires
Fernanda Henrique, única vereadora de oposição em uma Câmara de 17 membros em Ribeirão Pires, governada pelo PL, descreve um cenário de falta de transparência na gestão municipal. Ela critica o governo como estando “à disposição do conservadorismo, dos interesses pessoais,” exemplificando com a ocupação de secretarias por membros da mesma família do prefeito. “A gente costuma dizer aqui que eles resolvem o que vão deixar de fazer na cidade no almoço de domingo.”
A vereadora denunciou a falta de transparência ao apresentar o Projeto de Lei Dona Iraci, que visava garantir acesso transparente às filas de exames, consultas, cirurgias e habitação social. O projeto, aprovado pela Câmara, foi vetado pelo prefeito. “Um prefeito que veta um projeto de transparência, no mínimo, tem aí a sua lisura comprometida,” comentou.
O nome do projeto homenageia Dona Iraci, uma moradora que faleceu após esperar um ano por uma cirurgia de retirada de útero, descobrindo tardiamente que seu nome nunca esteve na fila devido a um erro. “Infelizmente, a Dona Iraci, ela, depois de muita pressão, denúncia, ouvidoria, a gente conseguiu que ela iniciasse o tratamento, mas daí ela já estava com câncer avançado, a cirurgia de retirada do útero não era mais possível, ela fez o tratamento paliativo e, infelizmente, ela veio a óbito, ela faleceu, logo em seguida, por uma negligência, pela falta de transparência.”
Além disso, Fernanda Henrique denunciou ao CREA a existência de obras no município sem placas de identificação de valor e prazos, reforçando a falta de compromisso da atual gestão com a publicidade.
Tarifa Zero e a mobilidade urbana precarizada
A luta pelo Tarifa Zero na mobilidade urbana também é uma pauta forte para a vereadora. Em Ribeirão Pires, um avanço foi a destinação de R$ 200 mil para estudos de implementação do modelo. Contudo, o sistema de transporte público é descrito como sucateado e excludente, utilizando o método “BusPay” (reconhecimento facial ou QR Code) em uma cidade com acesso limitado à internet.
Esse sistema dificulta a vida de idosos com direito à gratuidade, pessoas com deficiência (como autistas que não conseguem fazer o reconhecimento facial) e as mais de 11 mil pessoas em situação de extrema pobreza que não possuem smartphones ou internet. A vereadora também acusa o prefeito de endividar a cidade ao não pagar a empresa de ônibus pela tarifa zero oferecida aos domingos, precarizando a política.
Política, militância e eleições 2028
Fernanda Henrique se descreve como “mulher, jovem, preta, mãe” e militante do Partido dos Trabalhadores, hoje vereadora em seu segundo mandato como presidenta do PT em Ribeirão Pires. Com uma equipe de “mulheres fortes” em seu gabinete, seu lema é “eu quero é ser feliz”, buscando inspirar outras mulheres a ocupar espaços de decisão e a fazer política com leveza e propósito. “Eu quero encantar outras mulheres para ocupar esses espaços e serem felizes, tomando as decisões e ajudando a nossa sociedade ser melhor.”
Sobre as próximas eleições, a vereadora confirma sua candidatura à reeleição em 2028 e defende a união do campo progressista para enfrentar a extrema direita. Ela enfatiza a necessidade de fortalecer a bancada feminina e negra no legislativo. “O PT precisa fazer essa discussão, tanto quem será o nosso candidato, quem será o nosso candidato suplente, para que a gente possa emplacar nome de mulheres, mulheres negras, para que a gente possa colocar, tanto na Câmara Legislativa, como no Congresso Nacional, os nossos corpos, corpos pretos de mulheres, para poder fazer a disputa.”
Fernanda Henrique celebra um “fato histórico”: a aprovação unânime do título de cidadão ribeirão-pirense para o presidente Lula na Câmara Municipal. Ela finaliza com uma mensagem de força e encorajamento às mulheres, reiterando a importância de denunciar qualquer forma de violência e de sonhar com um mundo onde as mulheres sejam respeitadas e donas de suas próprias trajetórias.


