Há momentos em que a arte e a história se encontram com uma precisão que nenhum roteirista ousaria fabricar. O Brasil chega à 98ª cerimônia do Oscar, neste domingo, com um filme que não é apenas um thriller político de época — é um documento vivo sobre o que acontece quando um Estado decide que alguns de seus cidadãos não merecem existir. E que a memória deles pode ser assassinada duas vezes.
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco no Oscar 2026. São quatro indicações que representam o maior reconhecimento da Academia a uma obra brasileira em décadas. Mas reduzir esse feito a uma questão de prestígio seria perder o que há de mais urgente nele.
O arquivo que o regime queria fechar
O filme se passa no Recife de 1977 — anos de chumbo descritos nos próprios letreiros iniciais como uma era de “pirraça”. Telefonemas escondidos, identidades falsas, perseguições metódicas. O Estado como máquina de apagamento. Documentos reais trancados em cofres ou simplesmente feitos desaparecer por forças policiais corruptas e chefes de indústrias comprometidos com o regime.
Há um detalhe simbólico que diz muito sobre a inteligência do filme: o uso da lenda urbana da “Perna Cabeluda” como metáfora para a brutalidade policial contra comunidades marginalizadas — homossexuais, “cabeludos”, dissidentes de toda ordem — num período em que a própria imprensa era impedida de nomear os culpados. A censura não apenas silenciava: ela transformava o horror em folclore.
O protagonista Armando — pesquisador universitário que patenteou inovações em baterias de lítio e foi perseguido por isso, obrigado a circular sob o codinome Marcelo — não é um guerrilheiro nem um militante. É um cidadão comum, punido não por seus defeitos, mas por suas qualidades. Como Wagner Moura define com precisão cirúrgica:
“A morte dele é como a morte de muitos outros, que são mortos duas vezes. Eles morrem e, depois, a memória é assassinada.”
O espelho e o presente
Seria confortável tratar o filme como uma peça de museu — um retrato distante de um tempo superado. Kleber Mendonça Filho recusa esse conforto. Para o diretor, o filme situado em 1977 fala, com igual nitidez, sobre a lógica do Brasil entre 2019 e 2021, quando se tentou “reeditar a iconografia e a falta de ética de um regime militar”. O cinema, defende ele, é um arquivo que rompe silenciamentos e “atiça a curiosidade sobre um tempo histórico nada democrático”.
A crítica internacional captou essa dimensão com uma clareza que às vezes nos escapa de dentro. O The Hollywood Reporter define o longa como um thriller “oportuno” que toca no descontentamento coletivo com o autoritarismo rastejante e a vilanização do outro. O The Guardian o descreve como um lembrete necessário sobre os perigos de se ignorar a história. Na França, o Le Monde foi mais longe: aclamou o filme por construir uma “tipologia do fascismo tropical”, utilizando uma sensibilidade pop para discutir o uso do poder para esmagar pessoas.
Que um filme brasileiro sobre 1977 seja recebido assim pelo mundo em 2026 não é coincidência. É diagnóstico.
Wagner Moura: o artista cidadão
Há atores que interpretam personagens. E há atores para quem o personagem é uma extensão de uma consciência política construída ao longo de décadas. Wagner Moura pertence à segunda categoria.
Embaixador da ONU no combate ao trabalho escravo, diretor de Marighella — obra sobre um dos maiores resistentes à ditadura —, Moura retornou ao cinema nacional falando português para entregar o que a crítica descreve como a atuação de sua vida. Não por acaso. “Quando trabalho em inglês ou espanhol, as palavras não saem da minha boca preenchidas com memórias como em português”, revelou o ator.
Sua posição sobre o filme é política e filosoficamente articulada. Ele critica a Lei de Anistia como algo “muito nocivo” e defende que o cinema deve ajudar o país a entender que a ditadura ainda é uma “ferida aberta”. A sociedade, diz ele, tem a “obrigação de preservar a nossa memória para que nos entendamos”.
Que esse homem seja o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator na história da Academia não é apenas um feito individual. É a expressão de uma trajetória em que arte e compromisso civil nunca foram separados.
Soberania cultural não é luxo: é política de Estado
O Agente Secreto não existiria sem R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), via Ancine, além de coproduções internacionais que só se tornaram possíveis pela reputação construída com suporte institucional ao longo de anos. O próprio Mendonça Filho incluiu nos créditos do filme mensagens educativas sobre os 1.300 empregos gerados pela produção — um gesto deliberado de combate à narrativa de que investimento público em cultura é desperdício.
A reconexão institucional que permitiu esse filme chegar ao Oscar não é abstrata. Ela tem data: a retomada do Ministério da Cultura após um período em que, nas palavras do diretor, a cultura foi “praticamente extinta” como política de Estado. “Países inteligentes investem na sua própria cultura”, afirma Mendonça Filho. É uma frase simples. É também um programa político.
Nesse contexto, a trajetória do paulistano Adolpho Veloso — primeiro diretor de fotografia brasileiro indicado ao Oscar, pelo trabalho em Sonhos de Trem — não é um caso isolado de talento individual que se impôs ao mundo. É evidência de que quando há investimento na cadeia produtiva do audiovisual, quando escolas de cinema funcionam, quando o setor tem continuidade e perspectiva, o talento brasileiro encontra o caminho. Veloso é o produto de um ecossistema — e ecossistemas dependem de política pública para sobreviver.
A memória como ato político
No fundo, O Agente Secreto levanta uma questão que transcende o cinema: quem tem o direito de narrar o passado? Quem decide o que é lembrado e o que é apagado?
A estrutura do próprio filme responde: a pesquisadora Flávia e seus estudantes, no tempo presente, garimpam fitas cassete grampeadas e jornais de época para reconstituir o que aconteceu com Armando/Marcelo. O filme funciona como um relatório — uma investigação coletiva sobre o apagamento. E ao fazer isso nas telas de Los Angeles, em inglês legendado, disputando o prêmio mais visto do mundo, ele transforma a memória brasileira em patrimônio universal.
“O cinema brasileiro nasce tentando entender que país é esse”, diz Wagner Moura.
Essa frase, dita em 2026, soa como uma declaração de princípios — e como um alerta.
Neste domingo, quando o envelope for aberto no Dolby Theatre, o Brasil estará presente com um filme que não pede licença para lembrar. Que insiste, com toda a sofisticação da arte e toda a urgência da política, que o esquecimento não é neutro. Que apagar a memória é também uma forma de poder.
E que resistir a esse apagamento é, sempre foi, um ato democrático.
A cerimônia do Oscar 2026 acontece neste domingo, 15 de março, a partir das 22h (horário de Brasília), com transmissão pela Rede Globo, TNT e Max.


