domingo, 15/03/2026
Notícias que São Paulo precisa

Memória como resistência: o que a presença de “O Agente Secreto” no Oscar diz sobre o Brasil

Filme de Kleber Mendonça Filho fala do passado, mas denuncia o presente com a tentativa recente de resgatar o autoritarismo dos anos de chumbo

Há momentos em que a arte e a história se encontram com uma precisão que nenhum roteirista ousaria fabricar. O Brasil chega à 98ª cerimônia do Oscar, neste domingo, com um filme que não é apenas um thriller político de época — é um documento vivo sobre o que acontece quando um Estado decide que alguns de seus cidadãos não merecem existir. E que a memória deles pode ser assassinada duas vezes.

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, concorre a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco no Oscar 2026. São quatro indicações que representam o maior reconhecimento da Academia a uma obra brasileira em décadas. Mas reduzir esse feito a uma questão de prestígio seria perder o que há de mais urgente nele.

Receba nossas notícias

O arquivo que o regime queria fechar

O filme se passa no Recife de 1977 — anos de chumbo descritos nos próprios letreiros iniciais como uma era de “pirraça”. Telefonemas escondidos, identidades falsas, perseguições metódicas. O Estado como máquina de apagamento. Documentos reais trancados em cofres ou simplesmente feitos desaparecer por forças policiais corruptas e chefes de indústrias comprometidos com o regime.

Há um detalhe simbólico que diz muito sobre a inteligência do filme: o uso da lenda urbana da “Perna Cabeluda” como metáfora para a brutalidade policial contra comunidades marginalizadas — homossexuais, “cabeludos”, dissidentes de toda ordem — num período em que a própria imprensa era impedida de nomear os culpados. A censura não apenas silenciava: ela transformava o horror em folclore.

O protagonista Armando — pesquisador universitário que patenteou inovações em baterias de lítio e foi perseguido por isso, obrigado a circular sob o codinome Marcelo — não é um guerrilheiro nem um militante. É um cidadão comum, punido não por seus defeitos, mas por suas qualidades. Como Wagner Moura define com precisão cirúrgica:

“A morte dele é como a morte de muitos outros, que são mortos duas vezes. Eles morrem e, depois, a memória é assassinada.”

O espelho e o presente

Seria confortável tratar o filme como uma peça de museu — um retrato distante de um tempo superado. Kleber Mendonça Filho recusa esse conforto. Para o diretor, o filme situado em 1977 fala, com igual nitidez, sobre a lógica do Brasil entre 2019 e 2021, quando se tentou “reeditar a iconografia e a falta de ética de um regime militar”. O cinema, defende ele, é um arquivo que rompe silenciamentos e “atiça a curiosidade sobre um tempo histórico nada democrático”.

A crítica internacional captou essa dimensão com uma clareza que às vezes nos escapa de dentro. O The Hollywood Reporter define o longa como um thriller “oportuno” que toca no descontentamento coletivo com o autoritarismo rastejante e a vilanização do outro. O The Guardian o descreve como um lembrete necessário sobre os perigos de se ignorar a história. Na França, o Le Monde foi mais longe: aclamou o filme por construir uma “tipologia do fascismo tropical”, utilizando uma sensibilidade pop para discutir o uso do poder para esmagar pessoas.

Que um filme brasileiro sobre 1977 seja recebido assim pelo mundo em 2026 não é coincidência. É diagnóstico.

Wagner Moura: o artista cidadão

Há atores que interpretam personagens. E há atores para quem o personagem é uma extensão de uma consciência política construída ao longo de décadas. Wagner Moura pertence à segunda categoria.

Embaixador da ONU no combate ao trabalho escravo, diretor de Marighella — obra sobre um dos maiores resistentes à ditadura —, Moura retornou ao cinema nacional falando português para entregar o que a crítica descreve como a atuação de sua vida. Não por acaso. “Quando trabalho em inglês ou espanhol, as palavras não saem da minha boca preenchidas com memórias como em português”, revelou o ator.

Sua posição sobre o filme é política e filosoficamente articulada. Ele critica a Lei de Anistia como algo “muito nocivo” e defende que o cinema deve ajudar o país a entender que a ditadura ainda é uma “ferida aberta”. A sociedade, diz ele, tem a “obrigação de preservar a nossa memória para que nos entendamos”.

Que esse homem seja o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator na história da Academia não é apenas um feito individual. É a expressão de uma trajetória em que arte e compromisso civil nunca foram separados.

Soberania cultural não é luxo: é política de Estado

O Agente Secreto não existiria sem R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), via Ancine, além de coproduções internacionais que só se tornaram possíveis pela reputação construída com suporte institucional ao longo de anos. O próprio Mendonça Filho incluiu nos créditos do filme mensagens educativas sobre os 1.300 empregos gerados pela produção — um gesto deliberado de combate à narrativa de que investimento público em cultura é desperdício.

A reconexão institucional que permitiu esse filme chegar ao Oscar não é abstrata. Ela tem data: a retomada do Ministério da Cultura após um período em que, nas palavras do diretor, a cultura foi “praticamente extinta” como política de Estado. “Países inteligentes investem na sua própria cultura”, afirma Mendonça Filho. É uma frase simples. É também um programa político.

Nesse contexto, a trajetória do paulistano Adolpho Veloso — primeiro diretor de fotografia brasileiro indicado ao Oscar, pelo trabalho em Sonhos de Trem — não é um caso isolado de talento individual que se impôs ao mundo. É evidência de que quando há investimento na cadeia produtiva do audiovisual, quando escolas de cinema funcionam, quando o setor tem continuidade e perspectiva, o talento brasileiro encontra o caminho. Veloso é o produto de um ecossistema — e ecossistemas dependem de política pública para sobreviver.

A memória como ato político

No fundo, O Agente Secreto levanta uma questão que transcende o cinema: quem tem o direito de narrar o passado? Quem decide o que é lembrado e o que é apagado?

A estrutura do próprio filme responde: a pesquisadora Flávia e seus estudantes, no tempo presente, garimpam fitas cassete grampeadas e jornais de época para reconstituir o que aconteceu com Armando/Marcelo. O filme funciona como um relatório — uma investigação coletiva sobre o apagamento. E ao fazer isso nas telas de Los Angeles, em inglês legendado, disputando o prêmio mais visto do mundo, ele transforma a memória brasileira em patrimônio universal.

“O cinema brasileiro nasce tentando entender que país é esse”, diz Wagner Moura.

Essa frase, dita em 2026, soa como uma declaração de princípios — e como um alerta.

Neste domingo, quando o envelope for aberto no Dolby Theatre, o Brasil estará presente com um filme que não pede licença para lembrar. Que insiste, com toda a sofisticação da arte e toda a urgência da política, que o esquecimento não é neutro. Que apagar a memória é também uma forma de poder.

E que resistir a esse apagamento é, sempre foi, um ato democrático.

A cerimônia do Oscar 2026 acontece neste domingo, 15 de março, a partir das 22h (horário de Brasília), com transmissão pela Rede Globo, TNT e Max.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor, escreva seu comentário!
Por favor, escreva seu nome

Últimas notícias

Entenda as fraudes, a condenação da Bosch e a Operação Hipócritas

A histórica condenação da multinacional Robert Bosch a pagar...

Rompimento de reservatório da Sabesp em Mairiporã causa uma morte

Um reservatório de água da Sabesp (Companhia de Saneamento...

Pesquisa Quaest traz Lula e Flávio Bolsonaro empatados em segundo turno

A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (11),...

“Feminicídio é machismo, misoginia e extrema direta”, diz Fernanda Henrique, vereadora do PT

A crescente e alarmante onda de feminicídios no Brasil...

Fim da lista tríplice para reitores de universidades federais

Por Rogério Bezerra da SilvaO Senado Federal aprovou nesta...

Topics

Entenda as fraudes, a condenação da Bosch e a Operação Hipócritas

A histórica condenação da multinacional Robert Bosch a pagar...

Rompimento de reservatório da Sabesp em Mairiporã causa uma morte

Um reservatório de água da Sabesp (Companhia de Saneamento...

Pesquisa Quaest traz Lula e Flávio Bolsonaro empatados em segundo turno

A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (11),...

Fim da lista tríplice para reitores de universidades federais

Por Rogério Bezerra da SilvaO Senado Federal aprovou nesta...

Governo Lula pede investigação do Cade sobre alta nos preços dos combustíveis

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério...

A resposta de Haddad à provocação de Flávio Bolsonaro sobre o Banco Master

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), respondeu às...
spot_img

Related Articles