Enquanto o tíquete-alimentação do funcionalismo público paulista segue congelado em R$ 12,00, as entranhas de um esquema bilionário de corrupção começam a vir à tona dentro da própria Secretaria da Fazenda de São Paulo. A Operação Fisco Paralelo, deflagrada nesta quinta-feira (26) pelo Ministério Público de São Paulo, mira uma estrutura criminosa que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em propinas para a liberação indevida de créditos de ICMS.
O escândalo ressoa com o que o “Dossiê Tarcísio” já denunciava: a chamada “Bolsa Empresário”, retratada no documento como uma política de transferência de renda para a elite econômica. O dossiê aponta que o governo projeta uma renúncia fiscal de R$ 85,6 bilhões para 2026, concentrada em apenas 2,5% dos beneficiados.
Agora, a investigação do MP-SP coloca sob suspeita a participação de grandes corporações nesse ecossistema de privilégios. Empresas como Carrefour, Kalunga, Casas Bahia, CAOA e Center Castilho foram citadas na apuração sobre supostos esquemas de ressarcimento de ICMS-ST e créditos acumulados. No caso do Carrefour, os promotores afirmam que houve contato frequente entre o auditor e uma executiva da área tributária da empresa entre 2021 e 2025 — conversas que, segundo o MP-SP, sugerem orientação sobre documentação, aceleração de processos e até concessão de créditos em desacordo com a legislação.
Vale ressaltar: até o momento, todas as empresas são tratadas como suspeitas. O Grupo Casas Bahia, única a se pronunciar, negou irregularidades e afirmou estar à disposição das autoridades.
Decreto de Tarcísio facilitou fraudes
No centro do esquema está o auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, apontado como operador de uma “consultoria tributária paralela” que utilizava a empresa de fachada Smart Tax para lavar dinheiro e movimentar recursos em paraísos fiscais. Segundo o dossiê, o patrimônio do auditor teria saltado de R$ 46 milhões para R$ 1 bilhão em apenas um ano — período que coincide com a implementação do Decreto nº 67.853/2023. Assinado pelo governador Tarcísio de Freitas, o decreto criou um regime diferenciado que reduziu controles sobre empresas consideradas “nos conformes”, abrindo, segundo os investigadores, as brechas exploradas pelo esquema.
A operação, conduzida pelo Gedec — Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos —, nesta quinta-feira, 26, resultou no cumprimento de 22 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Vinhedo e São José dos Campos. Em uma das diligências, foram apreendidos dinheiro em espécie, moeda estrangeira e equipamentos eletrônicos, que serão submetidos à perícia.
O abandono do interior
Para a bancada do PT, o caso não é apenas sobre corrupção — é sobre para quem o Estado trabalha. Enquanto o suposto “Fisco Paralelo” operava com criptoativos e tecnologia de ponta para ocultar propinas, os efeitos da gestão se fazem sentir nas cidades do interior. O dossiê revela que as Estâncias e Municípios de Interesse Turístico (MITs) receberam 0% de repasse em 2024 e 2025 — enquanto o discurso oficial prega responsabilidade fiscal e austeridade.
A digital do governo
A Operação Fisco Paralelo não surgiu do nada: é o desdobramento da Operação Ícaro, iniciada em 2025, que já investigava fraudes bilionárias dentro da Fazenda estadual. O dossiê petista é direto ao afirmar que nenhum auditor, por mais graduado que seja, movimentaria cifras dessa magnitude sem a anuência ou a omissão deliberada da cúpula do governo.
Para operar sem deixar rastros, o grupo recorria a aplicativos de criptografia avançada — Wickr e Session —, além de estratégias detalhadas para armazenar ativos em carteiras digitais de autocustódia e movimentar recursos no exterior. Os investigadores identificaram ainda indícios de que o esquema se ramificou por diferentes delegacias regionais tributárias, com atuação coordenada para favorecer empresas por meio da liberação irregular de créditos, redução de multas e manipulação de processos fiscais.
A Secretaria da FAzenda informou que atua em conjunto com o Ministério Público por meio de sua corregedoria, mantendo dezenas de procedimentos administrativos em andamento para apurar a conduta de servidores, o que pode resultar em sanções e demissões.
O que resta, diante das apreensões e das mensagens interceptadas, é um retrato que contradiz a imagem do “bom gestor”. O Dossiê Tarcísio aponta um estado que prioriza a elite econômica em detrimento dos serviços públicos — enquanto municípios ficam sem repasse e o funcionalismo tem benefícios congelados, o esquema investigado pelo MP-SP movimentava R$ 1 bilhão em favor de poucos.
Esta é a segunda reportagem da série investigativa sobre o Dossiê Tarcísio.



