quinta-feira, 12/03/2026
Notícias que São Paulo precisa

Assédio em alta: app Trabalho Sem Assédio chega para proteger quem mais sofre

Ferramenta gratuita desenvolvida pelo Ministério Público do Trabalho em parceria com a Unicamp surge em meio ao avanço da violência, discriminação e assédio em ambientes laborais — problema que explode no Brasil e tem forte incidência no estado de São Paulo.

Por Rogério Bezerra da Silva

Receba nossas notícias

O Brasil vive um boom de queixas sobre violência, discriminação e assédio no ambiente de trabalho. Procuradorias regionais do Ministério Público do Trabalho (MPT) registram aumento constante de denúncias; a Justiça do Trabalho recebeu, apenas entre 2020 e 2024, 458 mil novas ações envolvendo assédio moral. No estado de São Paulo, especialmente na Região Metropolitana, Baixada Santista e Campinas, a pressão no sistema é ainda maior: o TRT-2 (Tribunal Regional do Trabalho – Região de São Paulo), que abrange a capital e cidades do entorno, concentra a maior parte das ações de assédio moral do país.

É nesse cenário que o MPT e a Unicamp lançam o aplicativo Trabalho Sem Assédio, iniciativa gratuita e de alcance nacional. A ferramenta permitirá que trabalhadores reconheçam situações de violência organizacional, saibam como denunciar e recebam orientação segura, sigilosa e acessível.

A cerimônia de lançamento do app ocorrerá nesta quarta-feira (10/12), às 10h, na Unicamp, no auditório “Zeferino Vaz”, da Faculdade de Educação.

“Para quem não tem voz ou escudo”

O app foi desenvolvido pela cooperação entre MPT e Unicamp e contou com a coordenação do professor José Roberto Heloani, referência nacional em saúde do trabalhador e assédio moral.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp durante a assinatura do acordo de cooperação, Heloani resumiu o sentido da ferramenta:

“O aplicativo será uma ferramenta para pessoas que não têm voz ou escudo, que não sabem que estão sendo vítimas de assédio ou discriminação”.

Para o pesquisador, o app é uma resposta necessária a transformações profundas no trabalho contemporâneo.

Ele afirma, em entrevista para a Revista Laborativa. que a precarização, o individualismo competitivo e a intensificação das metas criam ambientes onde a violência se naturaliza:

“O assédio não é um episódio isolado; ele é estrutural em certas organizações. Exige intencionalidade, repetição e sistematicidade”.

Heloani também lembra que, apesar do aumento das denúncias, a subnotificação ainda é enorme — especialmente entre trabalhadores mais vulneráveis, com menor capital social ou receio de retaliação.

Por isso, diz ele, à Laborativa, tecnologias públicas podem democratizar o acesso à informação:

“Precisamos de instrumentos de proteção que ajudem o trabalhador a reconhecer e nomear o que está vivendo, para que ele não adoeça em silêncio”.

Um país que silencia o adoecimento

As estatísticas oficiais mostram o tamanho do problema:

  • O Tribunal Superior do Trabalho (TST) registrou aumento em novas ações de assédio moral entre 2023 e 2024: foram ajuizadas 458.164 novas ações por dano moral decorrente de assédio moral.
  • O TRT-2 concentrou a maior demanda de ações no país, o que sugere que o estado de São Paulo registra um volume relativo elevado de processos de assédio moral.
  • A Ouvidoria‑Geral da União, em 2023, registrou 3.580 denúncias de assédio moral e 795 de assédio sexual.
  • O MPT, em publicação recente, mostrou que entre janeiro e julho de 2025 foram recebidas cerca de 10 mil denúncias de assédio moral em âmbito nacional.

Como enfatizado por Heloani, a violência organizacional tem impacto direto na saúde dos trabalhadores, com casos frequentes de depressão, ansiedade, síndrome de burnout, conflitos interpessoais e rupturas familiares.

O que o app oferece

O Trabalho Sem Assédio foi desenhado para:

  • Orientar trabalhadores sobre o que é e o que não é assédio;
  • Ajudar a identificar violência psicológica, discriminação, abuso de poder e coerção;
  • Facilitar o envio de denúncias ao MPT, de forma segura e guiada;
  • Disponibilizar materiais educativos sobre direitos trabalhistas;
  • Conectar vítimas a canais institucionais de proteção.

A expectativa do MPT é que o app reduza barreiras de acesso e amplie a capacidade do órgão de mapear práticas abusivas em setores e regiões específicas.

Uma virada institucional

O lançamento do aplicativo marca um movimento institucional mais amplo.

Para Heloani, não se trata apenas de combater casos individuais, mas de transformar a cultura organizacional brasileira:

“Sem instrumentos de conscientização e denúncia, as empresas continuam reproduzindo práticas perversas que adoeçam seus trabalhadores”, diz o professor à Loborativa.

Ele defende que o enfrentamento à violência no trabalho depende de políticas públicas, educação corporativa e envolvimento da sociedade — e não apenas do judiciário.

Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro.

Receba o  Radar pelo whatsapp! Clique aqui.


* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

Rogério Bezerra
Rogério Bezerrahttps://gravatar.com/creatorloudly177c571905
Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor, escreva seu comentário!
Por favor, escreva seu nome

Últimas notícias

Entenda as fraudes, a condenação da Bosch e a Operação Hipócritas

A histórica condenação da multinacional Robert Bosch a pagar...

Rompimento de reservatório da Sabesp em Mairiporã causa uma morte

Um reservatório de água da Sabesp (Companhia de Saneamento...

Pesquisa Quaest traz Lula e Flávio Bolsonaro empatados em segundo turno

A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (11),...

“Feminicídio é machismo, misoginia e extrema direta”, diz Fernanda Henrique, vereadora do PT

A crescente e alarmante onda de feminicídios no Brasil...

Fim da lista tríplice para reitores de universidades federais

Por Rogério Bezerra da SilvaO Senado Federal aprovou nesta...

Topics

Entenda as fraudes, a condenação da Bosch e a Operação Hipócritas

A histórica condenação da multinacional Robert Bosch a pagar...

Rompimento de reservatório da Sabesp em Mairiporã causa uma morte

Um reservatório de água da Sabesp (Companhia de Saneamento...

Pesquisa Quaest traz Lula e Flávio Bolsonaro empatados em segundo turno

A mais recente pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira (11),...

Fim da lista tríplice para reitores de universidades federais

Por Rogério Bezerra da SilvaO Senado Federal aprovou nesta...

Governo Lula pede investigação do Cade sobre alta nos preços dos combustíveis

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério...

A resposta de Haddad à provocação de Flávio Bolsonaro sobre o Banco Master

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), respondeu às...
spot_img

Related Articles