segunda-feira, 19/01/2026
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Ataque à soberania da Venezuela e direitos das mulheres: por que o feminismo é anti-imperialista

Em um cenário de ofensiva imperialista e avanço autoritário, o ataque à soberania da Venezuela revela como a violação da autodeterminação dos povos afeta diretamente os direitos das mulheres e reforça a urgência de um feminismo anti-imperialista na América Latina.

Por Cidinha Santos

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1.
A soberania de uma nação não é um conceito abstrato restrito a gabinetes diplomáticos ou tratados internacionais; ela é a pele que reveste a autonomia de um povo e, para nós, mulheres inseridas nos movimentos sociais da América Latina, é o território fundamental onde nossas lutas ganham corpo.

A urgência deste debate se acentua diante do cenário global atual. Já nos primeiros dias do novo governo Trump, em 2025, testemunhamos ataques frontais e sistemáticos às questões de gênero e aos direitos sexuais e reprodutivos. Não é coincidência: a história nos ensina que, em quaisquer circunstâncias, as mulheres são as primeiras a perder direitos sob regimes de face fascista. O autoritarismo necessita do controle sobre nossos corpos para se consolidar, utilizando a pauta moral como cortina de fumaça para o saque das soberanias nacionais.

Quando discutimos a hipótese do sequestro da autoridade máxima do Estado venezuelano — ou qualquer tentativa de destituição forçada de um mandatário eleito na região — não estamos falando apenas de um jogo de xadrez geopolítico entre potências. Estamos falando da iminência de uma fratura social que recai, com violência desproporcional, sobre os ombros das mulheres.

A história do nosso continente é marcada por cicatrizes de intervenções externas que, sob o pretexto de “restaurar a democracia”, invariavelmente instauraram o caos, a militarização e o retrocesso de direitos duramente conquistados pelas bases populares.

O risco de invasão na América Latina, alimentado pela retórica de confronto e pela demonização das identidades diversas, projeta uma sombra autoritária que atinge primeiro as casas e o corpo das mulheres. No movimento social, aprendemos que a guerra e a intervenção estrangeira são as expressões máximas do patriarcado colonial. A invasão não traz liberdade; ela traz o deslocamento forçado, o aumento da exploração sexual, a precarização extrema do trabalho e a destruição das redes de cuidado que sustentam a vida comunitária.

Precisamos ter nítido que somos todas vítimas desse ataque à soberania. A ameaça que hoje paira sobre uma fronteira vizinha é o laboratório de uma invasão que pode se estender por todo o continente, padronizando a retirada de direitos e o silenciamento das dissidências.

2.
Quando a soberania de um país é desrespeitada, o estado de exceção se torna a norma e, nesse cenário, as vozes femininas que lideram associações de moradores, cozinhas solidárias e sindicatos são as primeiras a serem silenciadas pela bota militar ou pela violência das milícias que florescem no vácuo do poder legítimo.

A implicação direta do desrespeito à soberania dos povos na vida das mulheres é a perda da autodeterminação sobre o próprio cotidiano. Sem um Estado soberano que possa gerir seus recursos e proteger suas fronteiras das investidas do capital transnacional e da ideologia conservadora importada, as políticas públicas de saúde reprodutiva, educação e combate à violência de gênero são as primeiras a serem sacrificadas no altar da “segurança nacional” ou do ajuste fiscal imposto por forças externas.

Este é um chamado à resistência. Não podemos recuar enquanto o fascismo tenta redesenhar o mapa da nossa autonomia. O desrespeito à soberania é um ataque frontal à nossa capacidade de organizar a esperança. Por isso, a luta feminista na América Latina é intrinsecamente anti-imperialista. Entendemos que a defesa da autodeterminação de qualquer povo vizinho é a defesa da integridade de nossas próprias vidas.

Além disso, o clima de instabilidade política e a ameaça de conflito armado alimentam a masculinidade tóxica e agressiva, que se traduz em um aumento vertiginoso dos índices de feminicídio e violência doméstica. Onde impera o fuzil e o autoritarismo imposto de fora, a autonomia das mulheres é vista como ameaça à ordem estabelecida.

O desrespeito à soberania é, portanto, um ataque frontal à nossa capacidade de organizar a esperança. É a tentativa de nos devolver ao ambiente privado, ao silêncio e à submissão. Entendemos que a defesa da autodeterminação da Venezuela e de qualquer povo vizinho é, em última instância, a defesa da integridade de nossas próprias vidas e da possibilidade de construir um futuro em que o destino da nossa terra seja decidido por quem nela caminha e trabalha.

3.
Nossa resistência é feita de solidariedade internacionalista e da clareza de que a paz é fruto da justiça e do respeito às diferenças políticas internas, sem a interferência de botas estrangeiras (muito menos das internas). A defesa da autoridade máxima eleita, independentemente de alinhamentos ideológicos conjunturais, é a defesa do pacto democrático que impede que a barbárie se instale.

Para nós, mulheres do movimento social, a pátria é o chão onde plantamos nossa resistência, e a soberania é o ar que nos permite respirar e lutar por um mundo em que nem a terra, nem nossos corpos, sejam territórios de conquista.

Seguimos em marcha e convocamos todas as mulheres a permanecerem unidas contra a invasão de nossos territórios e contra o sequestro de nossos direitos, afirmando que a integração latino-americana deve ser o nosso escudo contra a prepotência daqueles que nunca souberam o que é cuidar de um povo.

 

 

 

Cidinha Santos é jornalista, assessora de imprensa, cantante do Grupo Vozes, membra do Coletivo Feminista Classista Antirracista Maria Vai com as Outras, da Frente pela Legalização do Aborto da Baixada Santista e da Coordenação das Promotoras Legais Populares.

 

 

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* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

Rogério Bezerra
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Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

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