domingo, 8/02/2026
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Acadêmicos do Tatuapé leva reforma agrária e MST ao Carnaval de SP

Escola de samba aborda luta pela terra e produção de alimentos saudáveis no Sambódromo do Anhembi.

O Bem Viver, programa do Brasil de Fato, está de volta com episódios inéditos e iniciou a temporada com o Carnaval de 2026. Na edição deste sábado, dia 7, você confere os detalhes de como a reforma agrária vai entrar no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, no desfile das escolas do grupo especial. E quem abre alas para esse tema tão urgente é a escola Acadêmicos do Tatuapé, com o samba-enredo “Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente e muita gente sem terra”, inspirado na luta e nas conquistas do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST).

“Nosso enredo vai falar de reforma agrária, retratando a luta de milhares de brasileiros, pessoas que lutam pela defesa da terra, que lutam pelo cultivo da terra, que lutam para ter um pedacinho de terra para poder plantar e levar alimentos à mesa de milhares de brasileiros”, conta o carnavalesco Wagner Santos.

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Esta história volta no tempo para falar da criação da agricultura. Tudo começa pelas mãos de Tupã, a divindade da mitologia Tupi Guarani, representada no carro abre-alas. Do passado mítico ao presente — ainda marcado pela falta de justiça no campo —, o desfile termina com uma  homenagem a quem produz alimentos saudáveis.

“Nosso último carro é o momento de todo pequeno agricultor, aquele que trabalha com pequenas plantações… É um momento para todos eles, é a grande festa da agricultura, quando o caminhão para na porta do sítio deles, para colher todos aqueles alimentos e levar para a família brasileira, que aguarda um alimento saudável e sem agrotóxico”, destaca Santos.

E se o tema é a divisão justa de terras e a produção saudável de alimentos, não deixam de estar presentes as ameaças que avançam contra o homem do campo, como os agrotóxicos, o desmatamento e os incêndios criminosos, representados em um dos carros alegóricos. Cada vez mais devastadores, esses elementos evidenciam a urgência de se discutir a reforma agrária em todos os espaços possíveis.

“O Carnaval colocar esse tema na avenida é uma forma de convocar a população a pensar e refletir sobre isso”, diz Carla Loop, da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST.

Ela ressalta que a reforma agrária tem o papel de apontar caminhos para uma nova relação com a terra e por “uma produção sem veneno, um campo onde os camponeses sejam sujeitos e não
mercadorias”.

“É um dos melhores enredos que nós vamos levar na avenida”, garante Marlene Santana, integrante da Velha Guarda da escola. “Eu acredito que a cultura traz essa força e a gente precisa falar da terra. A importância que a terra tem para o ser. Sem a terra, nada feito”, diz. ‘Muita terra sem gente e muita gente sem terra’

Instrumento de trabalho no campo, a enxada integra as fantasias do desfile | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato
Instrumento de trabalho no campo, a enxada integra as fantasias do desfile | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Com a criação de um samba-enredo, vem a imersão em um tema e, assim, muitos aprendizados. Para Felipe Higino, um dos responsáveis pela harmonia da Acadêmicos do Tatuapé, fica a lição destacada no título do enredo deste ano.

“Por que tem tanta terra vazia? Tanta terra que, às vezes, estão improdutivas, sendo que a gente ainda tem pessoas passando fome? (…) E tem muita gente querendo trabalhar nelas, muita gente querendo plantar, querendo, de fato, colher”, questiona.

A escola contou com a parceria do MST na composição do samba. “Foram alguns momentos de diálogo, de debate junto a toda a organização da escola e quando a gente chegou a esse consenso não tinha coisa melhor para fazer do que carnavalizar esse tema”, diz Loop.

E o povo do campo também vai pôr os pés na avenida no dia 13 de fevereiro. Moradores de um acampamento e um assentamento, ambos no estado de São Paulo, irão compor uma ala do desfile.

Militantes do MST no lançamento do samba-enredo, em agosto de 2025 | Crédito: Priscila Ramos/MST
Militantes do MST no lançamento do samba-enredo, em agosto de 2025 | Crédito: Priscila Ramos/MST

“A ala do cacau, que vem no último destaque, junto ao carro alegórico, celebra a agricultura, faz a festa da colheita, e a gente tem 60 pessoas do MST que vieram do acampamento Marielle Vive, que vieram do assentamento Lagoinha, outros militantes que estão aqui em São Paulo e atuam nos nossos espaços nacionais, ensaiando aí toda semana na quadra”, conta Loop.

A grande surpresa da noite fica por conta do carro que encerra o desfile, onde estarão 30 homenageados do MST. “São aqueles que a gente diz que é a velha guarda da reforma agrária, pessoas que atuam na questão jurídica, na defesa ambiental, na relação com o tema da fome, a alimentação saudável”, conta a coordenadora. Os nomes das pessoas homenageadas, no entanto, são mantidos em segredo.

Na Fábrica de Alegorias, em São Paulo, mesmo com os carros ainda desmontados, já é possível ter uma dimensão do desfile. Cada detalhe carrega elementos que celebram a produção e a vida no campo – os instrumentos de trabalho, os frutos da colheita – mas também evoca uma dívida pendente: a reforma agrária no Brasil ainda tem um longo caminho pela frente.

Segundo dados do MST, hoje existem 140 mil famílias acampadas no Brasil, aguardando um pedaço de terra para cultivar. Com a Acadêmicos do Tatuapé, essa pauta urgente ganha o ritmo da festa – algo que só o Carnaval consegue fazer, entrelaçando a denúncia social à celebração para fazer brotar a esperança.

“Eu acredito que quando nós pisarmos no dia 13 no Anhembi a terra vai tremer. Quem puder despertar [para esse tema] vai saber também a sociedade que quer e como vai trazer pra esse novo amanhã”, finaliza Marlene Santana.

Confira a letra do samba-enredo da Acadêmicos do Tatuapé:

Tupã! Num sopro de ternura
Concebeu a Agricultura para os filhos desse chão
Trovejou, lá no alto da palhoça
Quando o orvalho molha a roça e perfeita a comunhão
Mas veio o invasor e a terra então sangrou
Negro plantou resistência
Canudos semeou a rebeldia
Cada enxada levantada liberdade florescia

Mas a ganância por terra sem gente
Faz muita gente sem terra chorar!
Quem planta o mal, espalha ambição
Me dá! me dá, um “pedacim” de chão

Lavoura ê! Lavoura!
Mãos calejadas no cultivo da semente
Lavoura ê! Lavoura!
Floresce da terra a fé dessa gente
Alimentar e plantar o amor,
Proteger é cuidar desse chão
Abraçar o nosso irmão contra a desigualdade
Para colher dignidade
Em cada gota de suor eu vi
Brotar, crescer e acreditar
Que a esperança está no amanhã, e assim será…
Viver é partilhar e nada em troca esperar!

Tem festa na roça, até o amanhecer
Divide esse chão, pro nosso povo colher!
Tatuapé, me chama que eu vou!
Puxe o fole sanfoneiro, no toque do agogô!

E tem mais!

Nesta edição o Bem Viver vai também ao Maranhão para conhecer o projeto
“Caminhos da Boiada”, que registra e fortalece a tradição do Bumba Meu Boi,
um dos maiores patrimônios culturais do Brasil.

Ao Paraná para a Jornada da Agroecologia, onde o saber tradicional e a produção de alimentos saudáveis se encontram para construir um futuro mais justo.

Para a cozinha com a querida Gema Soto, que ensina uma receita deliciosa, afetiva e sem desperdício com arroz – esse queridinho nacional!

 

Fonte:
Brasil de Fato
https://www.brasildefato.com.br/2026/02/07/muita-terra-sem-gente-muita-gente-sem-terra-academicos-do-tatuape-leva-reforma-agraria-e-mst-para-a-avenida-no-carnaval-de-sp/
Radar Democrático
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