Por trás de anúncios e articulações superficiais, o jogo político em São Paulo e nas grandes lideranças hoje não se reduz à simples disputa eleitoral por votos — é um duelo de forças e recalibração de alianças que pode reconfigurar o poder partidário e institucional no Brasil.
Por Radar Democrático
Nos bastidores da política nacional, três movimentos recentes — o conselho do Centrão a Tarcísio de Freitas sobre o apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, a possível mudança de rota da ministra Simone Tebet e a articulação do PT em torno da reeleição de Lula — estão mais conectados do que parecem à primeira vista.
1. O Centrão em xeque: Tarcísio pondera
Lideranças do Centrão, bloco parlamentar com grande peso na definição de governabilidade no Congresso, orientaram o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a não firmar um apoio explícito e prematuro à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. A recomendação é que ele aguarde o máximo possível antes de declarar apoio formal, justamente porque o PL ainda não consolidou unanimidade interna sobre o nome de Flávio para 2026.
A estratégia do Centrão não é simplesmente reticência: é tática. O bloco vê em Tarcísio uma figura mais palatável à base ampla de partidos e ao “mercado”, além de menos polarizadora do que o candidato ligado à família Bolsonaro — algo que até setores bolsonaristas já criticam como um apoio “envergonhado”.
Do ponto de vista do grupo que articula maior influência no Congresso, o temor é que um endosso à candidatura de Flávio Bolsonaro antes do tempo possa enfraquecer o Centrão frente às negociações sobre fundos eleitorais, negociações legislativas e espaço de poder após 2026.
Assim, a recomendação oficial — “esperar o máximo que puder” — traduz uma dúvida estratégica sobre qual candidato realmente poderá representar melhor não só a direita, mas sobretudo os interesses de coalizão e a governabilidade futura.
2. Simone Tebet: do centro em xeque à aproximação com PT?
Paralelamente a esse movimento no núcleo de direita e centro-direita, circulam nos bastidores relatos de que Simone Tebet (MDB), ministra do Planejamento e Orçamento no governo Lula, estaria avaliando um novo posicionamento político que pode superar o rótulo de “centrista independente” e aproximar-se mais formalmente da base petista — incluindo uma sugestão de filiação ao PT.
Essas articulações não são feitas no vácuo. Elas acontecem num momento em que o Partido dos Trabalhadores (PT) e sua base aliada buscam ampliar e estabilizar apoios para a reeleição de Lula, reforçando sua estratégia em estados decisivos e tentando consolidar uma frente sólida que minimize surpresas eleitorais e fraturas internas.
A aproximação de Tebet com Lula, se confirmada, não seria apenas uma junção de forças tática contra o bolsonarismo: seria um reposicionamento do MDB em relação ao centro político tradicional, deslocando a narrativa para a ideia de um bloco mais amplo, capaz de enfrentar tanto a polarização extrema quanto fragilidades de terceiros candidatos de centro — cenário que historicamente não se sustenta nas urnas.
3. Disputa em duas frentes: o centro que se fragmenta
O que une essas movimentações aparentemente desconexas é um pano de fundo comum: a crise de representatividade do chamado “centro”.
O Centrão, longe de ser um bloco ideológico coerente, tem agido como grupo de pressão tática no Congresso. Suas decisões não passam pelo crivo programático, mas pela captação de vantagem política — seja em cargos, fundos ou simetria de poder após as eleições. A hesitação em endossar Flávio Bolsonaro e a preferência por manter Tarcísio como um nome viável refletem essa lógica.
Por sua vez, figuras como Simone Tebet, que em 2022 se colocaram como uma alternativa. Isso indica que o “centro” enfrenta uma pressão para se realinhar em blocos maiores, muitas vezes migrando para as frentes dominantes de disputa.
4. O que isso revela sobre a disputa de 2026
Longe de ser uma “pré-campanha normal”, o movimento político atual — envolvendo Centrão, Republicanos, PL, MDB e PT — sugere que a eleição de 2026 poderá ser definida nos bastidores tanto quanto nas urnas:
Coalizões pragmáticas estão se formando ou se recalibrando, em vez de discursos ideológicos rígidos.
O Centrão atua como um árbitro de oportunidades, não um parceiro fiel de qualquer candidato.
Líderes políticos tradicionalmente associados ao meio-termo como Tebet podem redefinir seu papel para ganhar relevância dentro de uma coligação dominante, mais do que atuar isoladamente.
Se esses vetores persistirem, o pleito pode cristalizar dois blocos estratégicos sólidos: um movimento que gira em torno de Lula e suas alianças ampliadas (incluindo possíveis adesões como a de Tebet), e outro que testa estruturas de apoio alternativas ao bolsonarismo tradicional, com foco tático no eleitorado centrista.
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