quinta-feira, 8/01/2026
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Notas sobre a defesa venezuelana na “captura” do Presidente Maduro

A narrativa da traição desloca responsabilidades e encobre o colapso operacional da defesa e da segurança presidencial venezuelana.

 

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Por José García

 

Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, proliferou nas redes uma narrativa que atribui o ocorrido a uma suposta traição interna. Essa explicação, amplamente difundida por setores hostis ao processo bolivariano, cumpre uma função política clara: deslocar o debate do terreno estrutural para o terreno moral, produzindo desconfiança, fragmentação e desgaste interno. Ainda assim, mesmo sem qualquer grau de traição, a estrutura defensiva venezuelana demonstrou incapacidade de reagir de forma coordenada e eficaz.

A primeira falha evidente foi a da Defesa Antiaérea. Não se trata de minimizar a superioridade tecnológica do invasor, mas de reconhecer que ela se tornou decisiva diante da ausência de resposta operacional. Nos céus venezuelanos não se viu o lançamento de um único míssil de defesa, nem o acionamento de baterias antiaéreas. Assim, meios excessivamente concentrados, protocolos rígidos e baixa prontidão transformaram a defesa aérea em um dispositivo inútil.

Esse quadro se agravou com o colapso do mando e controle. A neutralização inicial das comunicações foi suficiente para paralisar decisões em cadeia, revelando uma dependência excessiva de poucos canais centrais. Não havia sistemas alternativos nem redundâncias operacionais capazes de sustentar o comando sob ataque. Somou-se a isso a ausência de regras de enfrentamento claras e efetivas, o que bloqueou a iniciativa dos escalões inferiores e impediu qualquer atuação autônoma.

Outro elemento central foi a fetichização da tecnologia. A crença de que a simples posse de equipamentos modernos garantiria a defesa do território revelou-se um equívoco fatal. Sem treinamento e integração, a tecnologia transforma-se em vulnerabilidade. É como crianças que acreditam conquistar uma carreira apenas por usarem sapatos de marca. A esse quadro somou-se a ausência de redundâncias e a dependência excessiva das radiocomunicações, sem canais alternativos.

O quadro se completa com a previsibilidade das rotinas. Poucos dias antes, o presidente havia sido visto dirigindo pelas ruas de Caracas enquanto concedia entrevista a Ignacio Ramonet. Gestos politicamente compreensíveis, mas que indicam relaxamento de protocolos. Em cenários de cerco prolongado, a rotina não é sinal de normalidade, mas um ativo oferecido ao adversário.

Por fim, o fracasso da segurança presidencial foi grave. Os Delta Force alcançaram praticamente sem resistência o primeiro anel de proteção do presidente e de sua esposa. Só houve combate por parte da “Guardia de Honor”, mas sem apoio, sofreu pesadas baixas.

O acontecido expôs uma estrutura de segurança despreparada para uma agressão anunciada havia pelo menos seis anos. É possível que tenha havido traição, sim, mas igualmente evidenciou-se a paralisia de um exército de paz, em tempos de guerra.

Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, bota as tuas de molho.

 

José García é venezuelano. Foi gerente de projetos no Fundo Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, pesquisador-líder no CENDITEL e diretor no Ministério do Planejamento da Venezuela. É doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp.

 

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* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

Rogério Bezerra
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Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

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