sexta-feira, 16/01/2026
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Quando a submissão externa encontra o desmonte interno: o projeto político por trás do governo Tarcísio

Apoio a intervenções estrangeiras, concessões bilionárias a empresas e um discurso sustentado por meias verdades não são episódios isolados — formam um mesmo padrão de poder.

Por Radar Democrático

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Em janeiro de 2026, enquanto estava em férias nos Estados Unidos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, manifestou apoio público à ofensiva militar norte-americana contra a Venezuela, celebrando o que chamou de “possibilidade de vencer o terror, reencontrar a liberdade e reconstruir o futuro”. A declaração ocorre em meio a denúncias internacionais de invasões territoriais, sequestro do chefe de Estado venezuelano, controle externo das reservas de petróleo e imposição de regras comerciais favoráveis aos EUA.

Mais do que uma posição diplomática controversa, o gesto revela algo mais profundo: a coerência entre a política externa simbólica que Tarcísio defende e o modo como governa São Paulo.

Defesa da democracia — ou legitimação de crimes internacionais?

Ainda que o regime venezuelano seja alvo legítimo de críticas por seu caráter controverso, a defesa de uma intervenção militar estrangeira, com perda de soberania política e econômica, contraria qualquer noção consistente de democracia. O governo federal brasileiro tem mantido posição clara de repúdio tanto à invasão da Ucrânia pela Rússia quanto ao ataque dos EUA à Venezuela, reafirmando o princípio da autodeterminação dos povos. O governador paulista, por sua vez, escolheu outro lado: o do alinhamento automático à potência estrangeira, mesmo quando isso implica prejuízos diretos ao Brasil, como o apoio à taxação de produtos brasileiros pelo governo americano.

Um Governo a serviço de quem?

No plano estadual, o governo Tarcísio tem operado de forma sistemática para subordinar a ação pública aos interesses do grande capital em detrimento da população.

Apenas no final de 2025, foram concedidos:

  • R$ 2 bilhões a concessionárias de rodovias, sob a justificativa de prejuízos da pandemia;

  • R$ 3,7 bilhões à concessionária da Linha 6 do metrô, para garantir uma entrega apenas parcial em 2026.

Ao longo de três anos de governo, acumulam-se cifras ainda mais expressivas:

  • R$ 3 bilhões perdidos com a venda das ações da Sabesp abaixo do valor de mercado;

  • R$ 18,5 bilhões com a regularização de terras griladas no Pontal do Paranapanema por apenas 10% do valor estimado;

  • R$ 85 bilhões em subsídios a empresas, concedidos sem transparência adequada, segundo relatórios do Tribunal de Contas do Estado;

  • além de bilhões ainda não plenamente apurados em fraudes de ICMS, que já renderam cerca de R$ 2 bilhões em propinas em apenas três anos.

Privatização como fetiche, resultados como problema

A principal “entrega” apresentada pelo governo é a privatização da Sabesp. Vendida como solução para ampliar investimentos, reduzir tarifas e melhorar serviços, a realidade relatada é oposta: aumento real das tarifas, recorrentes episódios de falta de água, turbidez e mau cheiro, tudo isso em meio ao agravamento da crise hídrica. Ainda assim, não houve a implementação de medidas básicas, como campanhas massivas de economia de água ou planos de contingência para hospitais, escolas e bairros periféricos.

A privatização aparece, assim, menos como política pública e mais como  benefício para o mercado, blindada contra avaliações de resultado.

O uso político das “entregas”

Projetos de infraestrutura são frequentemente apresentados como conquistas exclusivas da atual gestão, embora muitos tenham sido herdados de governos anteriores ou dependam majoritariamente de recursos federais. É o caso do túnel Santos–Guarujá, cujo financiamento é dividido com a União, do Rodoanel Norte — com 80% das obras já executadas antes — e da Linha 17-Ouro do metrô, que teve seu traçado reduzido, excluindo regiões populares como Paraisópolis.

Na habitação, o programa Casa Paulista afirma ter “entregue” mais de 76 mil moradias, quando 68% desse número corresponde apenas a cartas de crédito de até R$ 16 mil, usadas como entrada em financiamentos privados ou no Minha Casa, Minha Vida. Em casos emblemáticos, como a Favela do Moinho, a solução só foi possível graças ao aporte majoritário de recursos federais.

Segurança e saúde: o que fica fora do discurso

Na segurança pública, o governo destaca a queda de homicídios e roubos, mas silencia sobre:

  • o aumento dos feminicídios, de 181 para 207 vítimas em um ano;

  • a explosão de furtos e roubos de celulares;

  • o avanço dos golpes cibernéticos;

  • a persistência da letalidade policial.

O programa Muralha Paulista é anunciado como presente em “quase 600 municípios”, embora dados indiquem que apenas 12% das cidades estejam efetivamente integradas, muitas sem recursos para operar o sistema.

Na saúde, a afirmação de que teriam sido criados 8.000 leitos não se sustenta nos dados enviados pelo próprio governo ao Ministério da Saúde: entre dezembro de 2022 e setembro de 2025, houve redução líquida de 214 leitos públicos no estado.

Mais do que erros: um projeto

A narrativa do “fim da Cracolândia”, por exemplo, não corresponde a uma política estruturada, mas a uma dispersão territorial do problema, espalhando usuários por bairros do centro e da periferia, sem solução efetiva.

Quando observados em conjunto, esses elementos revelam um padrão claro:
submissão externa, subordinação interna ao grande capital e um discurso sustentado por falsidades e meias verdades.

Mais do que avaliar um governo por suas peças publicitárias, é preciso perguntar: a quem serve o Governo quando suas decisões enfraquecem a soberania, sacrificam políticas públicas e naturalizam a transferência de recursos coletivos para poucos interesses privados?

É essa pergunta — e não os slogans — que ajuda a compreender o sentido profundo do atual projeto político em São Paulo.

Todas essas informações estão em Boletim Conexão PT – Boletim nº 30, produzido pela Bancada do Partido dos Trabalhadores na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), publicado em janeiro de 2026.

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Rogério Bezerra
Rogério Bezerrahttps://gravatar.com/creatorloudly177c571905
Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

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