Por Cidinha Santos
Do ponto de vista da mulher negra e feminista, a comoção nacional pela morte violenta do cachorro Orelha, embora legítima em sua humanidade, escancara a ferida colonial purulenta: a hierarquia do luto. Enquanto a sociedade se mobiliza em vigílias por animais, a morte de mulheres e o extermínio da juventude negra periférica são recebidos com um dar de ombros coletivo, naturalizada pela barbárie que Elza Soares já denunciava ao dizer que a carne negra é a mais barata do mercado. Essa empatia seletiva é o que Lélia Gonzalez descrevia como o racismo e o sexismo por omissão, onde a dor de certos corpos é invisibilizada para manter o conforto da branquitude que chora pelo pet, mas silencia diante do feminicídio.
A impunidade que permite que um homem com 12 denúncias permaneça livre para assassinar mulheres sob medida protetiva não é falha do sistema, mas o seu funcionamento regular. No caso das mulheres, o Estado é frequentemente o braço que aperta o gatilho ou a mão que negligencia o socorro. O caso da Amanda, morta pelo companheiro (policial militar) numa clínica em Santos é um exemplo disso. A Polícia Militar (PM) foi acionada, atenderam ao chamado, “revistou” o agressor, disse que não estava armado. Amanda foi morta com cinco tiros e 51 facadas. A filha também foi atingida.
O sistema jurídico opera sob a lógica da necropolítica, decidindo quem pode viver e quem deve morrer. Isso fica nítido ao contrastarmos o caso do índio Galdino, queimado vivo há mais de 20 anos por jovens brancos de classe alta que hoje circulam livremente em cargos públicos, com a realidade dos jovens negros assassinados diariamente pela polícia sob a justificativa da “suspeição”. Essa impunidade branca é um salvo-conduto para a perversidade, enquanto a juventude periférica enfrenta uma condenação prévia por sua existência.
Essa mesma lógica de dominação alimenta a violência nas escolas, onde jovens imersos na masculinidade tóxica e na subcultura incel projetam seu ódio em massacres. É alarmante notar que ser contra o feminismo ou ridicularizar pautas de gênero mobiliza mais engajamento digital do que a luta contra o feminicídio. Existe um contramovimento organizado que tenta deslegitimar a dor feminina, tratando o assassinato de mulheres como questão passional e não como um crime de ódio estrutural. A mobilização pela vida animal é “segura” e não questiona privilégios – no caso do Estado de Santa Catarina, a denúncia e mobilização pelas redes sociais foram fundamentais para não houvesse omissão da justiça (é o que espero que aconteça nos próximos dias) – enquanto a luta pela vida das mulheres exige ruptura com o patriarcado que muitos homens, e até algumas mulheres, não estão dispostos a fazer.
Engajar a juventude e a sociedade nesse debate exige uma interseccionalidade radical. Precisamos mostrar aos jovens que a luta contra o feminicídio e o racismo não é um ataque aos homens, mas significa lutar pela sobrevivência coletiva e pela sanidade mental de todos. O engajamento deve passar pela desconstrução dessa indiferença programada conectando as lutas: não é necessário deixar de se indignar com a crueldade contra animais, mas é imperativo entender que a sociedade que se cala diante do assassinato de mulheres é uma sociedade em colapso moral. Precisamos da educação que humaniza os corpos negros e femininos com a mesma intensidade com que ensina a amar os animais, rompendo o ciclo de que a morte de cada mulher é apenas estatística, enquanto a de um pet é tragédia nacional.
Cidinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.
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idinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular e membra da Frente pela Legalização do Aborto, Baixada Santista e cantante do Grupo Vozes.
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