“Pênis voador era do meu marido”, perdão pelo modo inusitado, essa manchete é verdadeira e a história também. Foi publicada no jornal Notícias Populares. Veja aqui a reprodução da edição que estampou essa manchete sobre um fato, o aparecimento de um pênis pendurado por um barbante nos fios da rede elétrica na zona sul da cidade de São Paulo. Teria sido execução, adultério, o que a polícia disse. Assim o jornal prendeu o leitor na história até chegar à declaração da mulher, de que o pênis era do marido.
A história do bebê diabo gerou comoção, quase pânico como a história do palhaço que roubava crianças, ou de um bicho que atacava animais domésticos na zona rural e foi logo tachado de chupa cabra e virou alcunha e gozação na população, mas nada superou a história verdadeira do Pelezão. Um plantonista do jornal liga no distrito policial da Liberdade para buscar história de sangue e descobre a detenção de um casal que fazia sexo num carro estacionado na rua Otto de Alencar, defronte a um albergue. Para o policial uma historinha de nada, para o jornalista um furo sensacional, de uma psicóloga de classe média que assediou um morador de rua, o Pelezão, que estava na fila da sopa. O assunto rendeu 22 manchetes.
Assim era o dia a dia, tudo isso misturado com fotos de mulheres em trajes íntimos, de acidentes e mortes. Falava-se que o Notícias Populares era o jornal que, se torcer, sai sangue. Tratava também de impotência sexual, traição e adultério, novela, muita tiração de sarro de times de futebol e notícia sérias sobre direitos do trabalhador, empregos, inquilinato, consumidor, sempre de forma popularesca e sensacionalista. Ajudou a difundir um grande preconceito com manchete “peste gay” para se referir à AIDS.
Chegou a vender 120 mil exemplares e era afixado em bancas de jornais onde pequenas multidões se aglomeravam para espiar os assuntos.
O livro faz uma análise da evolução do jornalismo sensacionalista, desde o século passado até os tabloides ingleses e estadunidenses, mostra o que é imprensa amarela, discute com esmero as atuais fake news. Lançado em 10 de outubro de 1963, NP foi comprado pela empresa Folha da Manhã em 1965 e seguiu por 22 anos no Grupo Folha até 28 de novembro de 1981, quando circulou pela última vez.
O trabalho tem como base a pesquisa de mestrado do autor e para comprar por 60 reais, acesse o Instagram: noticiaspopulares.60
RD – Qual a importância do NP na história do Brasil?
Osni Dias – Teve uma importância muito grande porque ele faz parte da história, na época em que foi lançado na década de 60, em outubro de 1963, – antevéspera do golpe civil militar de 1964 – havia uma ebulição muito grande na política, uma disputa muito ferrenha. Haviam donos de jornais que queriam ocupar espaço na mídia. Tenório Cavalcante foi um dos atores, teve o Carlos Lacerda, havia uma rixa muito grande com o jornal Última Hora, que era um jornal bastante popular e de esquerda, fazia bastante sucesso entre as classes menos favorecidas e entre os trabalhadores também. Foi aí que eles buscaram um grupo para se contrapor ao Última Hora, lançando notícias populares, graficamente eram bem parecidos, era uma fórmula muito parecida, com notícias sensacionalistas, falava também de futebol e assuntos recorrentes das classes trabalhadoras, depois o NP acabou povoando imaginário popular principalmente em São Paulo, mas é um veículo que ficou conhecido nacionalmente e o sensacionalismo dele faz parte da história.
Radar Democrático – O que era verdade e o que era mentira no NP?
Osni Tadeu Silvia – A maior parte das notícias e das histórias do NP eram reais o que difere das do noticiário mais convencional, como os outros jornais como Folha e Estadão, é que era colocado uma lente de aumento sobre um fato, um exemplo que eu trago no livro é a morte do jogador Dener, chamado de futebol-moleque, num acidente de carro. Ele estava no ápice da carreira e os jornais publicaram uma foto com certo distanciamento, que era o carro batido com o corpo dentro, já o NP trouxe o enfoque do cinto de segurança, onde ele acabou sendo sufocado.
Então a maior parte das histórias eram reais e os próprios leitores levavam fatos novos na redação do jornal então trabalhávamos com aqueles fatos novos e numa linguagem que era muito fácil, a gente traduzia aquele fato para o público do jornal. Outro exemplo foi a história do bebê diabo. Chegou até a redação que havia nascido um bebê que tinha chifres e rabo, aí o jornal obviamente foi trabalhando com a notícia, repercutindo, como a gente costuma usar no jargão, dando, suíte todos os dias
Osni acrescenta que houve uma tentativa de se fazer um jornal para os trabalhadores com entidades sindicais que falasse a linguagem do povão, na mesma linha do NP. E que com o advento da comunicação digital e das redes sociais da internet, haveria espaço para uma grande comunicação sensacionalista, mas que seria preciso uma boa equipe. Afinal, o jornal era rude, mas a construção exigia muita criatividade e capacidade de comunicação.


