São Paulo

Tarcísio tem até 6 de abril para evitar “apagão” e cumprir promessas com as polícias de SP

Sindicatos de policiais denunciam promessas não cumpridas ao longo de três anos da gestão Tarcísio

O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem poucos dias para redefinir sua relação com as forças de segurança pública paulista. A legislação eleitoral proíbe reajustes salariais acima da inflação nos 180 dias anteriores ao pleito — marcado para 6 de outubro —, o que impõe ao governador o prazo de 6 de abril, segunda-feira, para sancionar e publicar qualquer revisão nos vencimentos das categorias. Na prática, porém, o tempo é ainda mais curto: o projeto precisa ser aprovado na Alesp até 1º de abril (quarta-feira), já que obter quórum no plenário entre quinta e segunda é, na prática, inviável. Sem proposta concreta na mesa, entidades de classe já suspeitam de uma manobra deliberada para deixar o prazo expirar.

A urgência domina os corredores da Assembleia Legislativa. O deputado Reis (PT) alertou publicamente que o tempo para o trâmite legislativo está praticamente esgotado:
“Nós temos um prazo muito curto… Praticamente nós teremos que aprovar isso esta semana para mandar para o governo para ele sancionar, para que os policiais pudessem ter acesso a essa busca da valorização”, afirmou em suas redes sociais.

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A delegada Jacqueline Valadares, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia (Sindpesp), nomeia o risco com uma expressão precisa: “passa-moleque”. Na leitura da entidade, o Palácio dos Bandeirantes pode deixar o prazo vencer propositalmente e, em seguida, invocar a lei eleitoral como justificativa para a inércia. O temor ganhou substância em reunião recente na Alesp, quando representantes da Secretaria de Segurança Pública limitaram-se a dizer que o tema ainda está sob “estudos” — resposta que elevou a indignação dos parlamentares presentes.

As Promessas que Não Vieram

O desgaste vai além do calendário. A categoria fala abertamente em “traição”. Durante a campanha de 2022, Tarcísio comprometeu-se a colocar a polícia paulista entre as dez mais bem pagas do país. No quarto ano de mandato, a promessa segue sem cumprimento.

Ranking salarial: Delegados de São Paulo — o estado mais rico da federação — ocupam a 24ª posição no ranking nacional, segundo o próprio Sindpesp. Peritos criminais estão na 18ª posição.

A polêmica dos 45%: O governo tem divulgado que concedeu reajustes de 45,2% às polícias ao longo de sua gestão. O Sindpesp classifica a afirmação como “fake news”. O dado contestado refere-se aos 20% concedidos em 2022 pela gestão Doria/Rodrigo Garcia, incorporados retroativamente ao cálculo pelo governo atual.

“O governador está considerando na conta um percentual que foi concedido por gestor que o antecedeu. Trata-se de desinformação aos policiais e à população,” disse Valadares.

A presidente do Sindicato dos Policiais Civis da região de Sorocaba, Cidinha Queiroz, faz uma avaliação que vai além do técnico: “Ele prometeu, fez uma campanha em cima da segurança pública e nos enganou muito e muito bem. Tenho certeza que a polícia inteira votou no Tarcísio, mas ele não terá mais os votos dos policiais.”

O “Apagão” Estrutural

Os problemas não se limitam à folha de pagamento. Os dados revelam um desmonte operacional em curso. Segundo o Sindpesp, a Polícia Civil acumula um déficit de 14.377 policiais — cerca de 40% dos cargos vagos —, o que levou ao fechamento de unidades: das 93 delegacias da capital, apenas 27 funcionam 24 horas.

O orçamento de 2026 aprofunda o quadro. A verba para o combate ao crime organizado foi cortada em 51%, de R$ 666,4 milhões para R$ 325,8 milhões. O investimento em tecnologia e inteligência sofreu redução real de 67,57%, com os recursos sendo absorvidos por despesas de custeio e pessoal.

Para Edson Pinheiro, dirigente do Sindpesp, a mensagem é inequívoca: “quando você tem um valor reduzido, é passado um recado muito claro de que esse não é um fator importante para o governo”, disse ao PlatôBR.

A Polícia Técnico-Científica também sente o impacto. O presidente do Sindicato dos Peritos (SINPCRESP), Bruno Lazzari, criticou a exclusão da perícia dos grupos de trabalho responsáveis pela nova Lei Orgânica da Segurança Pública: “o Governo do Estado parece um circo e os principais palhaços são os policiais. Como pretendem legislar sobre a estrutura da Segurança Pública ignorando a perícia criminal?”

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