Por Rogério Bezerra da Silva
A reportagem do Radar Democrático revelou que o Governo do Estado de São Paulo extinguiu 67.722 cargos públicos. Entre eles, 1.370 cargos vinculados à Secretaria da Administração Penitenciária (SAP).
À primeira vista, o número pode parecer pequeno diante do total anunciado. Mas, quando se olha para a realidade do sistema prisional paulista — o maior do país — o impacto deixa de ser estatístico e passa a ser humano, concreto e profundamente preocupante.
Um sistema já no limite
São Paulo vive uma grave crise de segurança pública. A SAP administra dezenas de unidades prisionais espalhadas pelo Estado, muitas delas historicamente marcadas por superlotação, déficit de servidores e condições de trabalho extremamente tensionadas. São profissionais que atuam sob pressão constante, lidando diariamente com riscos reais, responsabilidade elevada e desgaste emocional acumulado.
Extinguir cargos significa limitar a possibilidade de recomposição futura. Em um sistema que já opera no limite da capacidade, congelar quadros é transformar a insuficiência em política permanente.
Sobrecarga que ultrapassa os muros
Quando faltam servidores, a conta não desaparece. Ela recai sobre quem permanece.
Mais plantões, menos descanso, acúmulo de funções, tensão permanente. A sobrecarga não afeta apenas o ambiente de trabalho. Ela atravessa os portões das unidades prisionais e chega às casas desses profissionais.
Sem reposição de quadros, o risco é evidente:
- Aumento da pressão operacional;
- Redução do acompanhamento técnico e psicossocial;
- Fragilização de programas de reintegração;
- Maior exposição a conflitos internos.
Mais do que números, vidas
Modernizar é investir em estrutura, qualificação e planejamento. Reduzir sem reposição, em um cenário de crise, pode representar enfraquecimento institucional. O que está em jogo não é apenas a organização administrativa da Secretaria da Administração Penitenciária. Está em jogo a segurança da população, as condições de trabalho dos servidores e a estabilidade das famílias que dependem desses profissionais.
Em um momento em que o Estado enfrenta desafios crescentes na área de segurança, qualquer decisão que limite a capacidade estrutural do sistema prisional precisa ser debatida com transparência, responsabilidade e sensibilidade social.
Porque, por trás de cada cargo extinto, existem funções essenciais. E por trás de cada servidor sobrecarregado, existe uma família que também sente os efeitos dessa decisão.
Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.
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* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.




