Por Vanessa Guadagnini Prates
A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados ocupa um lugar importante na estrutura política do país. Não se trata apenas de um espaço simbólico de debate. A comissão participa diretamente da análise de projetos de lei que tratam de temas como violência contra a mulher, saúde, trabalho, participação política e igualdade de direitos.
Grande parte das propostas legislativas relacionadas a essas áreas passa por esse colegiado antes de seguir para outras instâncias do Congresso. Por isso, a presidência da comissão tem um papel estratégico: cabe a ela organizar a pauta de votações, conduzir debates e definir prioridades dentro de um conjunto amplo de projetos.
A comissão também exerce uma função de fiscalização. Por meio de audiências públicas e convocações de autoridades, pode acompanhar a implementação de políticas públicas e questionar como os recursos destinados às mulheres estão sendo utilizados. Além disso, o espaço frequentemente funciona como ponto de encontro entre parlamentares, movimentos sociais e diferentes setores da sociedade civil.
É nesse contexto que se insere a eleição de Erika Hilton para a presidência da comissão. A escolha mobilizou reações diversas e reacendeu discussões sobre representação política, teoria feminista e os limites do debate público.
Parte das críticas foi rapidamente enquadrada como expressão de transfobia ou como ataque vindo da extrema direita. Ataques dessa natureza existem e devem ser repudiados. No entanto, reduzir todo questionamento a esse enquadramento acaba apagando algo essencial: a existência de divergências reais dentro do próprio campo feminista.
O feminismo nunca foi um bloco único. Ao longo de sua história, diferentes correntes analisaram a opressão das mulheres a partir de perspectivas distintas. Há tradições liberais, radicais, interseccionais e materialistas, entre outras. Essas diferenças não são apenas discussões acadêmicas: elas refletem formas diversas de entender as bases da desigualdade e, portanto, de pensar políticas públicas.
O feminismo materialista, por exemplo, analisa a opressão das mulheres a partir de bases concretas, como a divisão sexual do trabalho e da reprodução. Essa abordagem não afirma que a biologia deve organizar a sociedade. Ela apenas observa que, historicamente, a sociedade foi organizada dessa maneira. Descrever uma estrutura social não significa defendê-la, mas torná-la visível para que possa ser questionada.
Ao mesmo tempo, correntes influenciadas pelo pós-estruturalismo e pela teoria queer enfatizam as dimensões discursivas e performativas do gênero. A tensão que vemos hoje no debate público reflete, em grande parte, o encontro, nem sempre tranquilo, entre essas diferentes formas de interpretar a realidade.
O problema é que parte dessa discussão deixou o campo das ideias e passou a aparecer no tom do debate. Em redes sociais, Erika Hilton utilizou o termo “imbeCIS”, um trocadilho com a palavra “cis”, para se referir a críticas recebidas. Independentemente da posição de cada pessoa sobre o tema, o episódio levanta uma pergunta importante: como deve agir a presidência de uma comissão dedicada aos direitos das mulheres diante de mulheres que pensam diferente?
Em um espaço de representação, especialmente em uma comissão parlamentar voltada às mulheres, seria razoável esperar que divergências fossem enfrentadas com argumentos e não com desqualificações.
A reação de parte do campo político também contribuiu para simplificar o debate. Em manifestações de solidariedade a Erika Hilton, figuras como Guilherme Boulos enquadraram as críticas principalmente como ataques bolsonaristas ou transfóbicos. Ainda que ataques desse tipo existam e devam ser combatidos, esse enquadramento acaba produzindo um efeito colateral: ele invisibiliza a existência de discordâncias legítimas entre mulheres e entre diferentes correntes do feminismo.
O resultado é um debate cada vez mais reduzido a uma lógica de “nós contra eles”, em que qualquer divergência passa a ser vista como hostilidade ideológica. Para um tema tão complexo quanto as relações entre sexo, gênero, direitos e representação política, esse tipo de simplificação empobrece a discussão.
A democracia não se fortalece quando as diferenças desaparecem. Pelo contrário: ela depende da possibilidade de que perspectivas distintas possam coexistir, se confrontar e dialogar.
Reconhecer a pluralidade do pensamento feminista não significa negar a existência de discriminação ou violência, que devem sempre ser combatidas. Significa apenas lembrar algo fundamental: mulheres não pensam todas da mesma forma, e isso, longe de ser um problema, é parte da própria vitalidade do debate democrático.

Vanessa Guadagnini Prates é historiadora e psicanalista, atua no acolhimento de mulheres em situação de violência.
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