Início Manchete Privatização da Sabesp: conta sobe e periferia fica sem água

Privatização da Sabesp: conta sobe e periferia fica sem água

Ana Perugini perguntou quem é responsável pelo Sistema Cantareira: governo não respondeu. Foto: Rodrigo Costa / Alesp

Choveu em fevereiro e março. As represas encheram um pouco. Mas a torneira de milhões de paulistas continua seca — ou chega com água escura, fedorenta, cor de barro. Essa contradição, sintetizada pela deputada estadual Marina Helou (PSB) em abertura de seminário realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) no Dia Mundial da Água, é o retrato mais preciso do que significa entregar o monopólio natural da água a grupos financeiros cujo objetivo central é a geração de valor para acionistas.

A sanha privatista do governo Tarcísio de Freitas não é apenas uma escolha ideológica. É um ataque direto ao patrimônio do povo paulista, a conversão de um direito fundamental em mercadoria — e, em pelo menos um dos casos, uma transação que tramita sob a sombra do crime organizado.

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Sabesp: a conta que não fecha

Em julho de 2024, o grupo Equatorial assumiu o controle da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. Desde então, moradores da Zona Sul da capital, de Hortolândia, de Itapecerica da Serra e de dezenas de municípios do interior relatam o que nenhum press-release de investidor menciona: água escura chegando pela torneira, mau cheiro persistente, interrupções que se tornaram rotina.

Na reunião da Comissão de Assuntos Metropolitanos da Alesp, o deputado Luiz Fernando (PT) foi direto: “O serviço piorou, o preço que o governador dizia que ia cair depois de privatizado ele aumentou — houve um aumento de 6% em janeiro — e a qualidade da água servida caiu muito.”

Na mesma sessão, a Comissão aprovou por unanimidade requerimento do deputado Ricardo Madalena (PL) que convoca o presidente da Sabesp para explicar o abandono de obras de esgoto nos bairros Serrinha e Serra Velha, em Paranapanema. É a base do próprio governo, que aprovou a privatização, reconhecendo que a promessa falhou.

O coordenador do Observatório Nacional dos Direitos Humanos à Água e Saneamento (Ondas), Amauri Polaque, apresentou no seminário da Alesp o diagnóstico técnico do que está acontecendo: a empresa adotou o manejo de oferta — cortar a água à noite, disfarçado de “gestão de demanda noturna” — como estratégia central de operação. “Não sou eu como usuário que estou demandando menos água”, explicou Polaque.

“Quem deve atender o meu direito humano de ter água o tempo todo está cortando a água durante um período.”

Na prática, é racionamento. E racionamento seletivo: as áreas altas, as periferias, os bairros sem caixa d’água coletiva são os que mais sofrem. São as mulheres, como ressaltou o pesquisador Samuel Barreto do Observatório de Governanças das Águas, que carregam desproporcionalmente o peso cotidiano dessa falta.

A lógica do novo contrato explica o porquê de a empresa não ter adotado, como em 2014, a tarifa de contingência — que na crise hídrica anterior reduziu em até 10 metros cúbicos por segundo o consumo da região metropolitana, ao bonificar quem economizava e penalizar o desperdício. O texto do contrato de concessão, revelado por Polaque no seminário, é cristalino: na cláusula 37, os riscos decorrentes de “situação crítica de escassez de recursos hídricos” são alocados integralmente à URAI-1 — ou seja, ao Estado e aos 31 milhões de paulistas abastecidos pela Sabesp. A empresa não pode perder um centavo. O risco da seca é do povo; o lucro da bonança, dos acionistas.

A situação é grave o suficiente para ter gerado ação parlamentar formal. A deputada Ana Perugini (PT) apresentou requerimento aprovado pela Comissão de Assuntos Metropolitanos solicitando informações oficiais à Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) sobre “reiteradas denúncias de mau cheiro intenso, persistente e anormal” relatadas por moradores e usuários das áreas do entorno da represa Billings, em especial nos trechos do rio Jurubatuba e regiões adjacentes.

A Billings é um dos principais mananciais da Grande São Paulo — o fato de seus arredores concentrarem denúncias sistemáticas de odor anormal não é detalhe menor: é sinal de deterioração ambiental de uma área que abastece milhões de pessoas.

Há ainda uma bomba-relógio ignorada no processo de privatização: a renovação da outorga do Sistema Cantareira, que vence em 2027. A deputada Ana Perugini alertou na comissão que enviou requerimento à Secretaria de Governo e não obteve resposta sobre quem é responsável hoje pela administração do sistema.

“Quando demos a autorização para que a Sabesp passasse a ser uma empresa privada, nós ainda indagamos do Sistema Cantareira e isso passou batido”, afirmou a parlamentar, que foi contra a venda da empresa pública.

 

O alerta técnico que ninguém quer ouvir

Os dados são claros e preocupantes. Eduardo Caetano, do Instituto Água e Saneamento, apresentou no seminário um monitoramento inédito que mostra o que aconteceu com as retiradas de água dos mananciais desde a privatização: a partir de julho de 2024 — mês em que a Equatorial assumiu —, a captação no Sistema Cantareira escalou progressivamente até atingir o limite máximo permitido pela outorga, sem margem de segurança. Em agosto de 2025, a média de retirada bateu recorde histórico: 72 metros cúbicos por segundo no sistema integrado metropolitano.

O Cantareira, responsável por mais da metade da capacidade de armazenamento do sistema e por variável crucial no abastecimento de Campinas e da região metropolitana de São Paulo, está em 44% de sua capacidade máxima em março de 2026 — 30% abaixo da vazão natural histórica. E a transposição do Sistema Paraíba do Sul, que alimenta também Minas Gerais e o Rio de Janeiro, já consumiu 40% da outorga anual nos primeiros três meses do ano, operando no limite máximo permitido de 8,5 metros cúbicos por segundo.

O golpe no bolso do consumidor

Economicamente, a operação Sabesp tem números que expõem sua natureza. O valor de mercado da companhia era estimado em R$ 56,2 bilhões. O governo Tarcísio abriu mão do controle pela venda de 15% das ações por R$ 6,9 bilhões — um deságio que levanta questionamentos sérios sobre o interesse público da transação.

Para além desse deságio inicial, os impactos tarifários sobre o cidadão comum se acumulam. A Sabesp rompeu unilateralmente contratos de fidelidade com grandes consumidores — shopping centers, indústrias, hospitais, entre eles a Ceagesp. A perda gerada por esses rompimentos, estimada em R$ 300 milhões, está sendo discutida na Arsesp para ser incorporada à tarifa dos 31 milhões de usuários. Como explicou Polaque:

“Esses 300 milhões vão ser incorporados na tarifa dos 31 milhões de paulistas. É isso que está sendo arquitetado.”

Também foram introduzidas cobranças que não existiam antes: juro de cartão de crédito para renegociação de dívidas com a concessionária e a chamada “tarifa de disponibilidade de esgoto” — cobrada mesmo de domicílios que não têm ligação executável, como casas abaixo do nível da rua. O foco, como resumiu o coordenador do Ondas, “saiu totalmente do social e é absolutamente claro que é financeiro”.

Emae: patrimônio estratégico, preço de liquidação

Se a privatização da Sabesp já levanta dúvidas sobre quem saiu ganhando, o leilão da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) mergulha em território ainda mais sombrio.
A Emae foi arrematada pelo Fundo Phoenix, controlado pelo investidor Nelson Tanure, por R$ 1,04 bilhão. O problema: a empresa tinha à época R$ 570 milhões em caixa e geração de caixa garantida — responsável pelo sistema de bombeamento que eleva a água do rio Tietê para o reservatório Guarapiranga, essencial ao abastecimento da Grande São Paulo.

Vender uma empresa estratégica dessa com tamanho desconto já seria questionável. Mas o “Dossiê Tarcísio” da bancada do PT aponta algo mais grave: as operações Carbono Oculto e Compliance investigam suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC por meio de fundos ligados à gestão da Reag, com indícios de manipulação fraudulenta do valor das ações para viabilizar a aquisição.

O resultado: um ativo estratégico do estado de São Paulo — cuja operação afeta diretamente a segurança hídrica e energética da maior metrópole do país — passou a ser controlado por um grupo com saúde financeira e idoneidade questionadas, sob silêncio do governo Tarcísio.

A porta giratória e o abandono do interior

A face mais visível dessa trama é Carlos Augusto Leone Piani. Figura conhecida no mercado financeiro, Piani transitou entre a presidência da Equatorial — o grupo que adquiriu o controle da Sabesp — e a própria presidência da Sabesp privatizada, participando ativamente da estruturação financeira que beneficiou os novos acionistas. O “Dossiê Tarcísio” aponta esse trânsito como um caso clássico de conflito de interesses e “porta giratória”.

Pela convocação aprovada na Comissão de Assuntos Metropolitanos, Piani terá que responder na Alesp sobre casos concretos de abandono: obras de esgoto paradas nos bairros Serrinha e Serra Velha, em Paranapanema, onde a empresa “promete e não cumpre”, segundo o deputado Madalena. É a prova material de que a promessa de universalização — argumento central usado para vender a privatização ao legislativo — falha exatamente onde o lucro imediato não existe: no interior do estado, nos bairros sem retorno financeiro calculado em planilha de fundo de investimento.

A expectativa, registrada na reunião, é de que a oitiva atraia quase 90 deputados — o que levou a sugestão de transferência para um auditório maior. Raramente uma convocação parlamentar causa tanto interesse. Isso, por si só, diz muito sobre o tamanho do problema.

A crise é de governança — e de escolha política

“Não são crises hídricas. São crises de governança”, definiu o pesquisador Samuel Barreto no seminário da Alesp. A afirmação sintetiza o que os dados mostram: São Paulo tem água. O que falta é prioridade política para gerir esse recurso como bem público.

O deputado federal Nilto Tatto, presidente da Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso Nacional, foi ainda mais direto ao deixar o seminário:

“Quando o interesse de acionista está num serviço público, ninguém que coloca o seu dinheiro comprando ações vai estar preocupado em levar saneamento e água saudável para alguém.”

O argumento de que o mercado traria eficiência ao saneamento, disse ele, “não vai resolver o problema da universalização porque não vai levar água a quem precisa”.

No estado de São Paulo, a legislação foi adaptada para blindar essa lógica. O antigo regime de revisão tarifária — que previa consultas públicas e condicionalidades para proteção de mananciais — foi substituído por revisões anuais baseadas em investimento realizado, sem controle social efetivo. Como Polaque resumiu: “Não existe controle social da prestação do serviço de saneamento ao que está descrito de forma absolutamente clara na lei federal.” Em São Paulo, essa lei não se cumpre.

Os dividendos jorram, a torneira seca

O desmonte das empresas públicas paulistas de água e energia segue uma lógica única: garantir o lucro sobre o serviço essencial. Para os acionistas, o contrato blindado assegura que, mesmo na seca, os dividendos continuem. Para o povo — especialmente para as mulheres das periferias e para os moradores do interior esquecidos nas planilhas de rentabilidade —, restaram as tarifas crescentes, o racionamento noturno e a insegurança hídrica que se aprofunda a cada verão abaixo da média.

A torneira continua seca. E o problema não é a chuva.

Esta é a terceira reportagem da série investigativa Dossiê Tarcísio. Na próxima edição: o Cerco dos Pedágios — como o sistema free-flow e as novas concessões rodoviárias estão asfixiando os trabalhadores e a economia do interior paulista.

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