A audiência pública realizada na terça-feira (31/03) para debater a instalação de um incinerador de lixo na região de Perus, em São Paulo terminou em escândalo, repressão e denúncias de manipulação grosseira. Moradores e parlamentares afirmam que a gestão de Ricardo Nunes e a concessionária Loga — que teve seu contrato renovado recentemente sem licitação — utilizaram “figurantes” pagos para lotar o auditório do CEU Perus. O objetivo seria simular apoio popular e silenciar a comunidade local, que é historicamente contrária ao projeto, chamado oficialmente de Unidade de Recuperação Energética (URE) Bandeirantes.
Enquanto ônibus fretados traziam pessoas de regiões distantes, cerca de 500 moradores de Perus foram barrados na porta, sob chuva, devido à lotação planejada do auditório. Lideranças do povo Guarani Mbya e técnicos que pretendiam apresentar estudos sobre os riscos ambientais também foram impedidos de entrar ou de se manifestar.
A vereadora Sílvia Ferraro (Bancada Feminista – PSOL) denunciou que ela própria e outros colegas parlamentares foram impedidos de falar, configurando um cerceamento democrático sem precedentes. Segundo os relatos, apenas a empresa Loga teve espaço garantido para defesa do projeto.
Imagens colhidas em grupos de WhatsApp revelam que os figurantes receberam R$ 170 em espécie, além de R$ 20 para lanche, com orientações para aplaudir a empresa e vaiar a comunidade. Participantes confirmaram em áudio que foram contratados para atuar como “claque” a favor de Nunes e Tarcísio de Freitas.
Ativistas criticam o nome “Ecoparque”, classificando-o como um disfarce para uma tecnologia ultrapassada que emitirá fumaça tóxica. Sílvia destacou ainda que a prefeitura ignora a reciclagem — que hoje atinge apenas 3% do lixo na capital — para priorizar a queima de resíduos, que gera lucro para as concessionárias, mas adoece a população.
Do lado de fora, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) atuou com truculência, utilizando escudos e gás de pimenta para conter os moradores excluídos. Em resposta ao que chamou de “audiência privada”, o vereador Nabil Bonduki, em conjunto com outros parlamentares, informou que acionaria o Ministério Público exigindo a anulação imediata da audiência e uma investigação criminal por fraude.
Em nota, a SP Regula e a Loga negaram os pagamentos, alegando que a presença do público foi espontânea. A Cetesb afirmou que o licenciamento segue em análise técnica.



