Por Rai de Almeida
O bullying é um dos desafios mais persistentes e complexos do ambiente escolar e social brasileiro. Longe de ser apenas uma “brincadeira de criança” ou uma fase de amadurecimento, essa prática deixa marcas profundas na saúde mental e no desenvolvimento acadêmico dos jovens.
Para entender a gravidade do cenário atual, os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE em 2024, oferecem um diagnóstico detalhado e preocupante.
Sua última edição revelou que o bullying é uma realidade crescente nas escolas brasileiras. Os dados mostram que a agressão entre pares não é apenas física, mas predominantemente psicológica. Cerca de 23% dos estudantes (quase 1 em cada 4) afirmaram ter sido vítimas de bullying nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Meninas e estudantes de escolas públicas costumam relatar uma frequência ligeiramente maior de episódios de humilhação. A aparência física é a causa número um. Os jovens relatam sofrer agressões devido ao corpo (peso/altura), rosto e cor ou raça.
Mais de 10% dos jovens afirmaram que já se sentiram humilhados por provocações feitas por colegas, o que impacta diretamente a autoestima. Por isso, hoje, a presença de um profissional de saúde mental no quadro de funcionários de uma escola ganha tanta importância.
O bullying tradicional geralmente ocorre no pátio ou nos corredores da escola, envolvendo exclusão social, apelidos pejorativos e agressões físicas. No entanto, a era digital expandiu esse campo de batalha.
O Cyberbullying é particularmente perigoso porque não termina quando o aluno chega em casa. Ele é ininterrupto, tem um alcance viral e permite o anonimato do agressor. Dados do IBGE indicam que a exposição às redes sociais sem mediação tem aumentado o número de jovens que se sentem ameaçados ou ofendidos no ambiente virtual.
O impacto do bullying não se limita ao momento da agressão. Ele gera um efeito cascata. Relata-se queda no desempenho escolar, pois o medo torna o ambiente de aprendizado hostil. A vítima passa a evitar grupos para se proteger. Há aumento nos casos de ansiedade, depressão e, em casos extremos, ideação suicida.
Para inibir e ou minimizar o ato do bullying e suas consequências a escola e a família precisam atuar em conjunto. O silêncio é o maior aliado do bullying. A escola deve implementar canais de denúncia anônimos e promover uma cultura de empatia, tratando o bullying não com punições vazias, mas com educação socioemocional. É essencial a família observar mudanças bruscas de comportamento, como falta de vontade de ir à escola, distúrbios de sono ou irritabilidade excessiva.
Vale lembrar que o Brasil sancionou a Lei 14.811/2024, que incluiu o bullying e o cyberbullying no Código Penal, reforçando que essas práticas são crimes com penalidades previstas.
O combate ao bullying não é uma tarefa simples, mas os dados do IBGE servem como um alerta de que a intervenção precisa ser imediata e estrutural. Educar para o respeito às diferenças é o único caminho para garantir que jovens não sofram e carreguem consigo traumas para a vida toda.

Rai de Almeida, advogada, é vereadora (PT) em Piracicaba.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



