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Promotor alerta: ‘Bets’ são a nova fronteira do crime organizado e da lavagem de dinheiro

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O cenário da segurança pública em São Paulo e no Brasil enfrenta um novo e alarmante horizonte. Em entrevista à rádio CBN, o promotor de justiça Lincoln Gakiya, que há mais de duas décadas investiga o Primeiro Comando da Capital (PCC), disparou um alerta urgente sobre a próxima fronteira da lavagem de dinheiro no país: o mercado de apostas online. Em um contexto onde o Estado, sob diretrizes que privilegiam a desregulamentação e a omissão de controle, abre brechas para a criminalidade, Gakiya é categórico: “A bola da vez provavelmente serão as bets”.

Para o promotor, o setor de jogos de apostas reúne os elementos ideais para a expansão mafiosa: opacidade, deficiência de fiscalização e alta lucratividade. O crime organizado, que já deixou de ser uma simples facção prisional para se tornar uma máfia transnacional, busca agora setores onde a regulamentação é frágil para injetar capital ilícito e obter lucros legítimos.

Da omissão à máfia transnacional

A análise de Gakiya revela como a negligência histórica das autoridades paulistas permitiu que o PCC saltasse de uma arrecadação de R$ 10 milhões em 2006 para um faturamento anual estimado em 2 bilhões de dólares (cerca de R$ 10 bilhões). O promotor recorda que, após os ataques de 2006 que paralisaram o estado, houve uma “catarse” ou paralisação das autoridades.

Por medo de novos ataques na capital e no interior, o Estado deixou de isolar lideranças críticas, permitindo que a cúpula gerisse o crime de dentro de unidades como a P2 de Presidente Venceslau, no interior paulista, até 2019. Essa omissão fortaleceu o que Gakiya hoje define como “a primeira organização mafiosa do Brasil e aqui da América do Sul”, com presença em 28 países e controle sobre o tráfico de cocaína para a Europa.

Infiltração nos serviços públicos

Seguindo a lógica neoliberal de infiltração na economia real, o crime organizado tem ocupado espaços onde o serviço público é terceirizado ou precariamente fiscalizado. Gakiya detalha a operação “Fim de Linha”, que expôs como o PCC capturou empresas de ônibus que prestavam serviços à Prefeitura de São Paulo por 14 anos.

O avanço não para no transporte. A organização utiliza postos de combustíveis para lavar dinheiro do tráfico internacional através de sonegação e adulteração, misturando capital sujo à economia formal. O mercado financeiro também foi atingido, com recursos ilícitos aportando em fundos e bancos que desprezaram protocolos de integridade.

O risco do “narcostado” e as instituições fracas

A crítica do promotor estende-se à fragilidade das instituições atuais e à falta de integração política. Ele questiona a eficácia de planos federais que podem ter viés eleitoreiro e aponta que a rivalidade política entre governos estaduais e federal impede uma coordenação real contra o crime.

O diagnóstico é sombrio: a corrupção de agentes públicos — de policiais a membros do Judiciário e Legislativo — é o oxigênio que mantém a estrutura mafiosa. O financiamento de campanhas eleitorais para prefeitos e vereadores visa garantir fatias de contratos públicos e fraudes em licitações.

Ao concluir, Gakiya deixa um aviso sobre o futuro do pacto democrático:

“Se o Estado não consiga mais coexistir sem a presença do crime organizado ou a economia não consegue mais coexistir sem a presença dessas organizações criminosas, aí a gente vai estar diante do narcostado”

. Para ele, ao contrário do que prega o discurso oficial de “ordem”, o Brasil vive um momento crítico: “Eu acho que nós nunca tivemos instituições tão fracas como a gente tem hoje”.

Enquanto o crime se sofistica e aposta na desregulação das “bets”, a população, especialmente no interior e nas periferias, segue refém de um Estado que falha em proteger o cidadão e em fiscalizar o capital que corrói as instituições por dentro.

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