O governo de Tarcísio de Freitas está consolidando um retrocesso histórico na mobilidade de São Paulo ao transferir a inteligência estratégica do Estado para as mãos de concessionárias privadas. Durante seminário na Assembleia Legislativa (Alesp), especialistas e parlamentares denunciaram que o planejamento das futuras linhas de metrô — como a Rosa e a Violeta — deixou de ser uma política pública voltada à necessidade social para se tornar um projeto de “lucro”, desenhado para atender aos bairros mais ricos da capital enquanto a periferia permanece no isolamento.
Historicamente reconhecido por sua excelência técnica, o Metrô de São Paulo está sendo esvaziado de sua função planejadora. Segundo Rafael Calábria, pesquisador de mobilidade urbana do BR Cidades, o governo estadual está permitindo que as próprias empresas que lucrarão com a operação decidam por onde os trilhos devem passar:
“A gente tá vendo hoje o metrô conceder o planejamento das linhas… as linha Violeta e a linha Rosa sendo planejadas hoje querendo atender Pinheiros e não a periferia da cidade. Quem tá definindo o debate é a secretaria de parcerias e as concessionárias… empresas privadas definindo planejamento da rede metrô, o que é um absurdo completo”.
A segregação social no mapa
A denúncia de Calábria foi corroborada pela Professora Silvana Zioni, da UFABC. Ela explicou que o desmonte de órgãos como a Emplasa criou um “vácuo institucional” que permite a prevalência de uma visão puramente mercadológica, resultando na concentração de investimentos em áreas nobres.
“O que eu percebo é a predominância dessa visão privatista corporativa onde os interesses dos operadores tá via de regra sendo garantido… uma estratégia territorialista como, por exemplo, a concentração das linhas de metrô e de ferrovia que estão concedidas no quadrante sudoeste da região metropolitana”.
Essa exclusão geográfica é descrita no material base como uma escolha política por um “Metrô dos Ricos”, redesenhando o mapa de São Paulo para excluir quem mais precisa de transporte rápido e barato.
Distorções históricas e projetos interrompidos
O isolamento da região metropolitana também foi pautado. O deputado Maurici, promotor do evento, lembrou que o metrô paulista sofre de uma “distorção histórica” ao se limitar quase exclusivamente aos limites da capital, ignorando a dinâmica da metrópole. Já o vereador Mateus Oliveira, de Osasco, exemplificou como a mudança de gestão para agências como a Artesp tem paralisado projetos vitais para a integração:
“A gente tem lá na cidade o corredor oeste… que se propõe ligar Itapevi ao Butantã para integrar ali com a linha amarela do metrô. Agora com a vinda da Artesp esse projeto ele deu uma parada, mas ele seria um pontapé inicial de se pensar um sistema único de transporte”.
Para Oliveira, a interrupção desses projetos prova que o governo sabe da necessidade de conexão, mas falha ao não democratizar o acesso.
