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Reindustrialização do Brasil: a urgência de romper com o neoextrativismo

Foto: Pete Linforth /Pixabay

Por Luiz Azevedo

O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. Durante as últimas décadas, assistimos a um processo precoce e agressivo de desindustrialização que reduziu a participação do setor manufatureiro no Produto Interno Bruto (PIB) e empurrou a força de trabalho nacional para a informalidade e para serviços de baixa produtividade. Reverter esse cenário não é apenas um desejo econômico, mas uma condição indispensável para a soberania nacional, a transição ecológica justa e a garantia de empregos dignos para a classe trabalhadora.

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O governo Lula colocou corretamente no centro de suas prioridades a reconstrução do Brasil. Entre os desafios está a reindustrialização. Mas, o Brasil no século XXI exige enfrentar um nó cego histórico da nossa formação econômica: o modelo reprimarizado e dependente que condena o país a exportar “natureza” a preço de banana e a importar produtos industrializados de alto valor agregado. Continuamos a sangrar nossas riquezas ao exportar massivamente matérias-primas brutas, como o minério de ferro, o aço bruto, a soja e o petróleo cru. Vendemos o insumo básico e compramos de volta o produto acabado, pagando a conta da tecnologia e dos empregos qualificados criados fora do nosso território.

A corrida por minerais críticos

Essa contradição torna-se ainda mais crítica e urgente diante da corrida tecnológica global por terras raras, nióbio, lítio e minerais críticos. Esses elementos são o “petróleo do século XXI”, indispensáveis para a fabricação de semicondutores, baterias elétricas, turbinas eólicas e tecnologias de defesa. O quarto mandato de Lula deve ter como missão crucial mudar nossa postura de forma radical e imediata, para não cometermos com as terras raras e o nióbio o mesmo erro histórico cometido com o aço e os grãos: seremos meros fornecedores na divisão internacional do trabalho, assistindo potências como China, Estados Unidos e União Europeia transformarem nossos minerais estratégicos em alta tecnologia e superávits bilionários.

Em um cenário de competição internacional implacável, cadeias globais de valor estruturadas e avanço acelerado da inteligência artificial, o “mercado autorregulador” não resolverá essa equação. Somente o Estado brasileiro pode induzir e exigir a agregação de valor nacional.

Para que a reindustrialização saia do papel e sirva ao povo brasileiro, o país precisa encarar os seguintes desafios centrais:

1. Industrialização das riquezas naturais e processamento local

É preciso romper com a lógica de enclave exportador de commodities. O Estado brasileiro deve reunir recursos, fazer parcerias estratégicas e investir pesado na industrialização das terras raras, do nióbio, do ferro e aço e do petróleo. E adotar políticas de incentivo e regulação, condicionando exploração e exportação de recursos naturais ao processamento progressivo dentro do país. No caso das terras raras e do nióbio, o Brasil não pode se limitar a ser um grande extrativista: precisamos dominar a cadeia completa de purificação, ligas especiais, ligas magnéticas e componentes para a transição energética e digital. O mesmo vale para o agro e a siderurgia: o incentivo deve ir para quem transforma a soja e o minério em produtos de maior complexidade industrial no território nacional.

2. Condicionalidades sociais e ambientais nos incentivos públicos

A reindustrialização não pode ser um balcão de entrega de subsídios sem contrapartida para o patronato. Cada benefício fiscal, crédito do BNDES ou financiamento público oferecido à indústria ou às mineradoras deve vir acompanhado de condicionalidades rigorosas: agregação de valor e retenção da cadeia produtiva no país, geração de empregos formais com salários dignos, respeito à negociação coletiva e metas ambientais sérias de descarbonização e menor impacto socioambiental nas regiões extrativas.

3. Soberania tecnológica e formação profissional

Não há agregação de valor sem ciência e tecnologia próprias. O Estado deve constituir empresas, construir parcerias e financiar a pesquisa aplicada nas universidades públicas e centros de inovação nacional para dominar as tecnologias de refino e aplicação de minerais críticos e produtos manufaturados. Paralelamente, esse movimento exige investimento pesado na requalificação da classe trabalhadora, preparando os trabalhadores para operar a indústria 4.0, a química fina e a manufatura avançada, com garantias de que os ganhos de produtividade se traduzam em melhores salários e na redução da jornada de trabalho.

4. O Estado como indutor e comprador estratégico

O poder de compra do Estado e os grandes projetos de infraestrutura, como o Novo PAC, devem ser utilizados para criar demanda por essa indústria de alta complexidade. Compras públicas sustentáveis, exigência de conteúdo local de qualidade e o direcionamento de investimentos de estatais estratégicas, como a Petrobras, são as alavancas capazes de estruturar novos polos industriais e tecnológicos em torno das nossas riquezas naturais.

A reindustrialização do Brasil não é um projeto meramente técnico, mas um projeto político e social de soberania e emancipação. Para a Central Única dos Trabalhadores, transformar os minerais e a produção agrícola do nosso solo em soberania tecnológica, empregos de qualidade e desenvolvimento social é a única forma de retirar o país da periferia do capitalismo global. O Brasil não pode continuar sendo o celeiro e a mina do mundo; precisa ser o dono de seu próprio futuro industrial.

Luiz Azevedo é sócio consultor da Veredas Inteligência Estratégica S/C Ltda, que presta assessoria à Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outras entidades sindicais.


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