São Paulo, a locomotiva econômica do Brasil, enfrenta um paradoxo de baixo crescimento e precarização do trabalho, diretamente atrelado a décadas de políticas neoliberais e privatizações. Essa é a análise de Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho), em entrevista ao Radar Democrático, onde ele enfatiza que a privatização não resolve os problemas do estado e que as estatais foram retiradas de seu papel como alavancadoras de crescimento.
São Paulo figura como o penúltimo estado em crescimento econômico no Brasil, com um índice de 0,5% enquanto a média nacional é de 2%. Ao mesmo tempo, o estado é o segundo maior usuário do programa Bolsa Família, evidenciando, segundo o professor, uma riqueza concentrada e uma estrutura produtiva que se desindustrializou progressivamente desde os anos 1990.
Veja a entrevista de Marcelo Manzano, professor Unicamp/Cesit na íntegr
O custo da privatização: as alavancas perdidas
Para Manzano, as privatizações são um fator crucial para entender a deterioração do setor produtivo paulista e a queda na qualidade dos empregos. Ele desmistifica o argumento de que a privatização melhora os serviços, citando exemplos recentes em São Paulo.
“Um argumento tanto quanto fajuto de que a privatização era necessária para melhorar os serviços, o atendimento ao público e tal, quando a gente pode ver que, tanto na nossa própria experiência, quanto na experiência de outros países que anteciparam, que nos antecederam em termos de privatização, muitas vezes os serviços pioram.”
Manzano exemplifica com casos como a Enel, que deixou uma quadra inteira sem energia por sete dias na capital, e a privatização da CPFL, que resultou em serviços piores e contas de luz mais altas. O mesmo padrão, segundo ele, é observado na Sabesp, onde a busca por valorização no mercado financeiro leva à redução de pessoal, comprometendo a manutenção e a qualidade do serviço, e revertendo o prejuízo para o consumidor.
Além do impacto direto ao consumidor, a privatização tem um efeito devastador na capacidade de desenvolvimento do estado. Manzano compara as estatais a um “navio quebra-gelo” que desbrava o futuro, criando oportunidades para o setor privado. “Sem a estatal, fica todo mundo no seu naviozinho se protegendo e ninguém quer arriscar nada”, explica. Ele lamenta a perda de laboratórios de pesquisa e tecnologia de antigas estatais, como CPFL e Telebrás, que antes atuavam no entorno da Unicamp, em Campinas, e hoje resultam na incapacidade de gerar e repassar conhecimento técnico para a região e o país.
Crescimento para quem? desonerações sem transparência
O professor critica a gestão atual de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo, que adota a prática de oferecer desonerações fiscais a grandes grupos econômicos sem a devida transparência. Essa estratégia, segundo ele, reduz a arrecadação do estado e prejudica a capacidade de investimento em serviços públicos essenciais, como saúde e educação.
“O Estado de São Paulo vem perdendo a arrecadação em favor de benefícios a grupos econômicos poderosos, que certamente têm lobbies poderosos […] Esses grupos se enriquecem em prejuízo do Estado. O Estado está com pouca capacidade de investimento, de gasto.”
Essa defasagem afeta diretamente os trabalhadores, que precisam arcar com custos de serviços privados em meio a salários apertados. Manzano cita a situação dos professores da universidades estaduais paulistas, com salários defasados em 16% desde 2012, como um exemplo da priorização equivocada dos gastos públicos.
Propostas enviadas a Haddad
Questionado sobre o que um governo progressista poderia fazer no estado, Manzano apresentou sugestões que ele já enviou para o programa de governo de Fernando Haddad (PT), focando na reindustrialização e no desenvolvimento sustentável com geração de empregos de qualidade:
Uma primeira ação seria uma descentralização regional do estado. Manzano defende que, em vez de esvaziar as regiões economicamente fortes, o foco deve ser em priorizar investimentos nas regiões mais pobres, como o Vale do Ribeira, gerando atividades econômicas e sociais que exijam maior qualificação e tecnologia. Essa política visaria criar um mercado de trabalho mais favorável e com efeitos multiplicadores.
Como carro-chefe setorial, o professor aponta o complexo econômico industrial da saúde. Este setor, que envolve desde o SUS até fornecedores de fármacos e equipamentos, é descrito como um “ganha-ganha por excelência”, por oferecer melhor qualidade de vida e, comparativamente, os melhores empregos, com salários mais altos e menor rotatividade. Além disso, é uma atividade de baixo impacto ambiental. São Paulo já possui know-how e expertise hospitalar em diversos polos, o que facilitaria a dinamização desse complexo, com políticas de saúde e crédito direcionado pela agência Desenvolve SP.
Outros setores estratégicos mencionados incluem o polo aeroespacial, com destaque para São José dos Campos e Gavião Peixoto, aproveitando a competência da Embraer, ITA e CTA. Manzano também ressalta o potencial da produção de biometano, utilizando subprodutos da vasta atividade agrícola do estado, e a reciclagem de materiais, que emprega muitas pessoas e se alinha à transição ecológica. “O problema é que precisa de um governo que queira fazer, e não um governo que queira privatizar, porque a privatização não resolve. Não é por aí, não resolver em lugar nenhum do mundo não será aqui”, conclui Manzano.
