Enquanto famílias de bairros populares do interior de São Paulo esperavam por aulas de artes marciais, capacitação digital e material didático para seus filhos, milhões de reais em emendas parlamentares tomavam outro destino. Uma engrenagem de empresas de fachada, cotações fraudadas e apadrinhamento político teria transformado verbas federais e municipais destinadas à inclusão social em um mecanismo de irrigação de aliados eleitorais — e, no fim da linha, de financiamento da produção cinematográfica bolsonarista Dark Horse.
O esquema veio à tona com a Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) nesta quinta-feira, dia 10, sob autorização do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino.
No centro da trama estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que, segundo as investigações, teriam convertido cidades do interior paulista em um laboratório de desvios.
Pirassununga: tatame que não chegou, MEI relâmpago e cabide de empregos
Pirassununga concentrou dois termos de fomento federais somando R$ 2 milhões, viabilizados por emendas de Mário Frias.
No projeto esportivo “Lutando Pela Vida” (Termo de Fomento nº 964068, Ministério do Esporte), voltado a 500 jovens da cidade, o maior contrato — R$ 457.818,78 — foi fechado com a Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas Ltda., para fornecimento de quimonos, faixas e 120 placas de tatame. Só que, em fiscalização presencial, a própria empresa admitiu à CGU que nada havia sido entregue: os materiais ainda estavam “em fabricação”, mesmo com o pagamento integral já quitado em maio de 2026. Para escapar da autuação, o ICB tentou apresentar um recibo de 120 tatames comprados de outro fornecedor.
A folha de pagamento do projeto, por sua vez, funcionou como cabide de empregos para aliados e doadores de campanha do deputado:
– Rudyge Alex Scatolini Boldrini — doador de R$ 4 mil à campanha de Frias em 2022 e prestador de serviços eleitorais do parlamentar — foi eleito conselheiro fiscal do ICB e abriu um MEI em 27 de fevereiro de 2026 para faturar R$ 105 mil como coordenador de jiu-jitsu. O contrato foi assinado retroativamente: a primeira nota fiscal saiu antes mesmo de o MEI existir.
– Clayton Fernandes, via sua empresa Alliance Pirassununga Ltda., recebeu R$ 71,4 mil como “profissional de educação física” — e foi candidato a vereador pelo PL em 2020 e 2024.
– Mariani Cristina Alves Piccoli faturou R$ 37,8 mil como monitora do projeto enquanto ocupava, simultaneamente, cargo celetista de recepcionista na Prefeitura de Pirassununga.
Já o projeto “Jovem Empreendedor” (Termo de Fomento nº 971232, MCTI), que prometia capacitar 2.500 estudantes da rede pública, simplesmente não existiu. O responsável técnico indicado, Kayo Henrique Azevedo — ex-secretário municipal de Administração e irmão de Raphael Augusto Azevedo, ex-assessor de Frias — confirmou aos auditores que nenhuma capacitação foi realizada.
Completa o quadro a Agência Loop, aberta por Paula de Oliveira Lima apenas dois dias após ela deixar o cargo de secretária parlamentar de Frias em Brasília — tempo suficiente para apresentar ao ICB cotações de R$ 311,3 mil.
Rio Claro, Guarulhos e Piracicaba: fábricas de cotações fictícias
A fraude no material pedagógico revelou uma rede de empresas de fachada espalhada por outros municípios paulistas.
Em Rio Claro, Dayvid Moreira Medeiros controlava a Dinâmica Editora e Distribuidora de Livros e a Editora e Distribuidora de Livros HD Cultural. A Dinâmica recebeu R$ 400 mil do ICB para kits pedagógicos impressos — mas a fiscalização in loco, no endereço fiscal compartilhado pelas duas editoras, não encontrou uma única máquina de impressão gráfica; os serviços eram todos terceirizados. Pior: a perícia técnica constatou que as cotações “concorrentes” apresentadas para simular disputa de preços foram geradas no mesmo computador, com apenas 13 minutos de intervalo entre elas, por uma usuária identificada como “lindinalva oliveira“.
Para além dos R$ 400 mil do ICB, a HD Cultural faturou R$ 1.368.528,20 repassados pelo Fundo Municipal de Saúde de Piracicaba em 24 de março de 2026 — fruto de outra emenda individual de Mário Frias.
Já o kit digital, orçado em R$ 300 mil, ficou com o Instituto Super Poder Educacional (Super Leitores), de Guarulhos, administrado por Pamella Cristiane Dias — cunhada do ex-sócio da HD Cultural. No endereço cadastrado da empresa, os fiscais encontraram apenas uma loja de roupas femininas. As videoaulas contratadas só foram ao ar meses depois de encerrado o convênio, somando ao todo sete visualizações.
Do material didático fantasma ao cinema bolsonarista
Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do COAF, cruzados com as auditorias da CGU, permitiram à Polícia Federal traçar um “circuito fechado”: o dinheiro desviado das emendas sociais do interior retornava ao grupo de Karina Ferreira da Gama pela produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse” — cinebiografia de Jair Bolsonaro que tem Mário Frias como roteirista e produtor-executivo.
Entre as movimentações suspeitas de R$ 19 milhões identificadas na Go Up durante as filmagens em São Paulo, destacam-se:
– R$ 750 mil transferidos pela NTT Brasil Ltda. (de Heric Fabiano Dias, ligado às editoras de Rio Claro e Guarulhos) — valor próximo aos R$ 700 mil pagos pelo ICB pelos kits pedagógicos.
– R$ 645,4 mil saídos diretamente da conta pessoal de Mário Frias para a Go Up — quantia que a Polícia Federal classificou como incompatível com os rendimentos do parlamentar.
Diante da gravidade do esquema, o ministro Flávio Dino, do STF, autorizou a Operação Make Up, proibiu Mário Frias de deixar o país e determinou a avocação de todos os inquéritos estaduais paulistas para a Corte.
