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Análise: fatores que levam eleitores à direita

Norian Segatto analisa o voto na direita. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados Fonte: Agência Câmara de Notícias

Por Norian Segatto

Na segunda-feira, após o tsunami eleitoral, passei boa parte do dia vendo entrevistas que circulavam nas redes sociais com pessoas que votaram em Bolsonaro ou, mais genericamente, na direita. Como, em geral, minhas bolhas não chegam a esse público, queria entender quais fatores motivaram essa escolha, tão distante de nossa racionalidade de esquerda ou progressista.

Das dezenas de entrevistas que vi — e que continuam circulando pelas redes sociais —, consegui identificar um conjunto de fatores que me chamou a atenção e pode ajudar a explicar o fenômeno, além de orientar um diálogo com esses grupos e pessoas. Destaco aqui algumas impressões que pude perceber dessas respostas.

Desinformação

Basicamente, nenhuma pessoa entrevistada que disse ter votado na direita soube destacar algum projeto ou proposta concreta de Flávio Bolsonaro ou de algum outro candidato. Muitos disseram ter lido ou visto “notícias” de que Lula estaria perseguindo evangélicos e fechando templos, de que os gastos públicos tinham se multiplicado (sem saber explicar, exatamente, como isso afeta a economia), de que a inflação é a mais alta de todos os tempos, de que Lula é ladrão, de que o STF e o governo são a mesma coisa, e por aí vai.

Muita desinformação aliada a uma rede de fake news com forte financiamento empresarial e interesses internacionais. Conforme já foi denunciado em diversas reportagens, empresários que não querem aparecer financiam influencers para disseminar mentiras. É muito dinheiro rolando.

Essas mentiras são disseminadas para além das redes sociais, alcançando emissoras de rádio (concessões públicas amplamente dominadas por políticos ou apoiadores em diversos níveis) e outros meios.

Tive a infeliz experiência de passar um dia pulando de emissora em emissora, de várias regiões do país, e constatei o que não deve ser novidade para ninguém: muita música litúrgica e programas “jornalísticos” que, na verdade, são propagandas antiprogressistas disfarçadas (às vezes nem tanto) de análises políticas.

Mesmo aspectos considerados positivos, como políticas sociais a exemplo do Bolsa Família, muitas vezes são associados a Jair Bolsonaro, como se o governo dele tivesse protagonizado o benefício. Os males da pandemia foram praticamente ignorados nessas respostas.

Recorte ideológico

Um segundo grupo que detectei foi o das pessoas que identificam o governo Lula como sendo comunista (sem, novamente, saber exatamente o que isso significa). São críticas genéricas aos “vermelhos”, que vão desde acusações de falta de liberdade de expressão, passando por ideologia nas escolas e suposta ideologia de gênero (o governo estaria incentivando os jovens a se tornarem homossexuais), até a destruição dos valores da família, corrupção, e a ideia de que os EUA devem invadir o Brasil para libertar a população do comunismo, etc.

Aqui entra um fator mais profundo: o conservadorismo da sociedade brasileira, aliado, novamente, à desinformação, mas, principalmente, a preconceitos de classe e ao racismo estrutural arraigado na sociedade.

Não sou pobre

Outra parcela das respostas identificava o governo Lula como sendo um governo para “pobres”, para “os desdentados do Nordeste”. A caixa de supermercado, o entregador de delivery, o trabalhador que faz bico aqui e ali sem vínculo fixo, no entanto, não se veem como esse sujeito. “Pobres eram meus pais, eu não, eu tenho moto e iPhone”; “pobre é o diabo” — foram frases que ouvi entre as respostas.

Ou seja, uma parcela dessas pessoas está na base da pirâmide social, mas não se identifica com ela e não consegue perceber que sua ascensão social (ainda que pouca) teve como um dos fatores as políticas de governo e o melhor ambiente econômico do país (apesar da maior precarização das relações de trabalho promovida pela reforma trabalhista de 2017), etc.

Para esse grupo, Lula governa apenas para pobres. Esse grupo não se identifica como “pobre”; ele é MEI e não CLT.

A ideologia da prosperidade individual tem muito a ver com essa visão.

Etarismo

Um último componente importante que identifiquei foi o etarismo. Muitos jovens, principalmente, não se identificam com Lula por ele ser octogenário, velho — o que seria, nessa perspectiva, sinônimo de ultrapassado. Assim, em contraposição, a figura de Flávio Bolsonaro representaria o “novo”, o jovem, a modernidade. Tive a oportunidade de ouvir isso até na fila da votação.

Sei que se trata de uma visão extremamente simplista, mas é uma característica marcante dessa geração, que vê com desprezo o mais antigo, seja na cultura (livros, filmes em preto e branco, músicas antigas e por aí vai), seja nos valores cotidianos (“o velho fura fila”, “demora para subir no ônibus”, “não sabe usar celular”, “é ruim no volante”, “só atrapalha”, etc.). E, nesse recorte, “velho” é qualquer um que respire e tenha mais de 35 anos de idade.

Enfim, acho que esse é um conjunto de percepções que ajuda a entender o voto na direita e pode nos dar elementos para conversar com esse segmento. Para muito além da disputa eleitoral, precisamos compreender esses fenômenos para poder implementar políticas de contraposição à rede de mentiras, ao domínio da territorialidade virtual e à presença física em locais onde o Estado e a esquerda deixaram de chegar (se é que um dia chegaram de fato), combatendo o racismo, o preconceito e todos os seus desdobramentos.

A esquerda precisa repensar o método, a abordagem e a radicalidade que os tempos exigem, tendo coragem para enfrentar esses desafios, que não são poucos.

 

 

Norian Segatto é jornalista e dirigente da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas.

 

 


* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

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