O sistema Smart Sampa, uma das principais vitrines da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), apresentou uma grave falha de segurança. Um repositório público na internet permitiu o acesso indevido a informações de mais de 58 mil câmeras de monitoramento da Prefeitura de São Paulo por aproximadamente um ano. As informações são de reportagem de Artur Rodrigues no UOL.
As informações expostas incluíam 181 logins e senhas de usuários autorizados, dados de mais de 6.000 agentes de segurança e instruções para replicar o sistema. Após o alerta da reportagem, os dados foram retirados do ar. A prefeitura afirmou que houve um “vazamento ilegal de dados por parte de um servidor” que já foi identificado e afastado, e que sua conduta está sob investigação, garantindo que não há fragilidades na plataforma.
A brecha de segurança permitiu o acesso a dados sensíveis, como rostos de pessoas e veículos captados pelas câmeras, além de identificar veículos roubados e placas clonadas. Especialistas em segurança pública e tecnologia alertam para a gravidade da exposição. O professor da FGV Rafael Alcadipani classificou o incidente como um problema de segurança nacional, pois permite o monitoramento de autoridades e equipamentos de defesa.
Um especialista em tecnologia ouvido pelo UOL detectou uma brecha que poderia permitir a inserção de dados no sistema, pois algumas interfaces não verificavam adequadamente a identidade de quem enviava as informações.
A plataforma, que espelha as informações do programa de câmeras, foi construída com um prompt de inteligência artificial que utilizou dados do repositório aberto, permitindo que a reportagem acessasse e gravasse imagens de câmeras conveniadas ao Smart Sampa, incluindo aquelas localizadas em locais sensíveis como creches, hospitais e centros para dependentes químicos.
Preocupações com o Uso de Dados e Algoritmos
Pedro Saliba, pesquisador da Data Privacy Brasil, destacou a falha como “gravíssima em termos de privacidade e vigilância”, alertando que a concentração de informações em sistemas de vigilância sem controles adequados aumenta o risco de abuso aos direitos fundamentais. Ele ressaltou a importância de observar os princípios da LGPD, como finalidade, necessidade, segurança e transparência, mesmo na área de segurança pública.
A integração de tantos equipamentos em uma rede extensa demanda cuidados redobrados, levantando questões sobre a exposição de crianças, adolescentes e pessoas em tratamento de saúde mental. A Prefeitura de São Paulo não tem acesso ao código-fonte, modelos de inteligência artificial ou bases de dados usadas para treinar os algoritmos do sistema de reconhecimento facial, que ficam sob controle da Sentinelx.
Abordagens Equivocadas e Histórico do Sistema
Apesar de a prefeitura ter elevado o índice mínimo de similaridade facial para disparar um alerta de 90% para 92% em fevereiro de 2025, dados sobre a taxa de erro do sistema não estão disponíveis. Relatórios de transparência da prefeitura indicam abordagens equivocadas: entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram conduzidas a delegacias após alertas do reconhecimento facial, sendo liberadas posteriormente. Desses casos, 75 apresentaram inconsistências na identificação facial, 181 tiveram mandados de prisão desatualizados e 12 decorreram de problemas cadastrais.
Um entregador foi abordado indevidamente por duas vezes enquanto acompanhava a companheira grávida em uma Unidade Básica de Saúde, sendo confundido com um foragido por tráfico de drogas. Outro caso notório foi a detenção da irmã do prefeito Ricardo Nunes, Janaína Reis Miron, que possuía mandados de prisão em aberto.
Empresa por trás do Smart Sampa
A tecnologia do Smart Sampa é operada pela Sentinelx, empresa criada um mês após a Prefeitura de São Paulo iniciar a licitação para o sistema em 2023. A Sentinelx integra o consórcio Smart City, que venceu a licitação com uma proposta de R$ 9,8 milhões mensais. A empresa passou a integrar formalmente o consórcio em dezembro do ano passado. A CLD, uma das empresas originais do consórcio, tem um histórico ligado a investigações sobre contratos públicos. A coordenadora do Smart Sampa na prefeitura, Pamella Cecarelli Candido, prestou serviços de comunicação na campanha de 2020 de Orlando Morando (MDB). A Sentinelx busca expandir a venda de sua plataforma para outras cidades, promovendo o sistema como “a tecnologia por trás da maior operação de videomonitoramento com IA da América Latina”.
Posição da Prefeitura de São Paulo
Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo declarou que não há fragilidades nos mecanismos de segurança da plataforma do Smart Sampa e que o incidente se tratou de um ato criminoso de vazamento ilegal de dados por um servidor. A prefeitura assegura que o servidor foi identificado, afastado e está sob investigação, e que o repositório de dados ilegal foi retirado do ar. Reforçou a segurança da plataforma com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores.
O programa conta com a fiscalização do Tribunal de Contas do Município e consultoria especializada. A prefeitura também informou que o reconhecimento facial compara imagens com bases oficiais de pessoas procuradas, foragidas e desaparecidas, e que câmeras em equipamentos públicos são instaladas em áreas de circulação comum, sem abranger consultórios ou ambientes assistenciais.
