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Como R$ 1,38 milhão da saúde de Piracicaba pode ter financiado o filme Dark Horse e o bolsonarismo

Rai de Almeida denuncia inconsistências na contratação sem licitação. Foto: Rubens Cardia/Câmara de Piracicaba, divulgação

Uma contratação sem licitação realizada pelo Fundo Municipal de Saúde de Piracicaba, no interior de São Paulo, tornou-se um das pontas mais reveladoras da teia de desvios de recursos públicos investigada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) na Operação Make Up, sob relatoria do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal (STF). O dinheiro público chegou via deputado bolsonarista Mário Frias (PL-SP) e pode ter voltado, já privado, via filme produzido por ele mesmo.

Sob o pretexto de combater a epidemia de dengue, a Prefeitura de Piracicaba pagou R$ 1.385.150,00 para a aquisição de 21.310 livros infantis. A operação foi viabilizada por meio de uma emenda parlamentar individual do deputado Mário Frias e executada na modalidade de Inexigibilidade de Licitação (Processo PMP 176.080/2025). O contrato beneficiou diretamente a Editora e Distribuidora de Livros HD Cultural Ltda., empresa da vizinha Rio Claro que integra a rede sob investigação federal.

O caso traz contradições temporais gritantes, preços inflacionados e conexões diretas com empresas de fachada em Rio Claro e Guarulhos. A rota dos recursos desemboca no financiamento da cinebiografia bolsonarista “Dark Horse”.

A “mágica do tempo” e os alertas da oposição

A confirmação do repasse milionário veio à tona após cobrança da vereadora Rai de Almeida (PT) na Câmara Municipal de Piracicaba. Em resposta oficial ao Requerimento nº 836/2026, a Secretaria Municipal de Saúde defendeu a compra dos livretos “As aventuras dos super agentes mirins contra a dengue” — ao custo unitário de R$ 65,00 — alegando que a distribuição das obras às crianças foi determinante para reduzir os casos confirmados de dengue no município de 29.334 (em 2024) para 5.799 (em 2025) e 84 (em 2026).

Contudo, os próprios documentos anexados pelo Poder Executivo — como a Nota Fiscal nº 48 e o atestado de recebimento do Setor de Mobiliário e Equipamentos da Secretaria de Educação — comprovam que os exemplares só deram entrada e foram entregues nas escolas em março de 2026.

A vereadora denunciou a flagrante inconsistência temporal e o atalho adotado para dispensar a concorrência pública:

“A prefeitura gastou R$ 1,38 milhão com a confecção de livros sobre a dengue. Foram 21.000 livros a R$ 65 cada um, sem licitação. Como um livro que chegou só em março de 2026 foi responsável pela redução dos casos de dengue em 2025? Esquisito, né?”

A parlamentar também questionou a necessidade de gastar verbas da saúde pública com material impresso exclusivo quando órgãos oficiais disponibilizam campanhas educativas de graça:

“Existem cartilhas, revistas em quadrinhos, outros tantos materiais já produzidos pela Fiocruz, pelo Ministério da Saúde, por secretarias estaduais e outras instituições. Muitos, se não todos, gratuitamente. Dinheiro público tem que ter fiscalização. Dinheiro público não é capim. Por isso, vou continuar fiscalizando.”

A conexão Rio Claro

Para fugir do processo licitatório tradicional, a Prefeitura de Piracicaba utilizou um e-mail enviado pelo empresário Dayvid Moreira Medeiros, no qual ele anexou uma Carta de Exclusividade da Câmara Brasileira do Livro (CBL) para declarar a HD Cultural como única fornecedora autorizada das obras.

A HD Cultural tem sede registrada em Rio Claro e pertence a Dayvid Medeiros e sua esposa, Thays Torres Frota Medeiros. A empresa funciona no mesmo endereço fiscal, utiliza o mesmo telefone e compartilha o mesmo contador de outra firma do grupo, a Dinâmica Editora.

Inspeções in loco realizadas pela Controladoria-Geral da União (CGU) na sede compartilhada das editoras em Rio Claro revelaram um cenário perturbador: o imóvel não possuía qualquer equipamento ou máquina para impressão gráfica, sendo toda a produção terceirizada. Nos contratos firmados com o Governo Federal via Instituto Conhecer Brasil (ICB), a CGU e a PF identificaram que as pesquisas de preço apresentadas pelo grupo para simular concorrência foram criadas em lote no mesmo computador, em um intervalo de apenas 13 minutos, por uma usuária identificada como “lindinalva oliveira”.

A conexão Guarulhos e o filme Dark Horse

A resposta oficial enviada pela Prefeitura de Piracicaba traz outro elemento que conecta a cidade diretamente ao núcleo central do esquema investigado pelo STF: a listagem dos autores dos livretos da dengue inclui Pamella Cristiane Dias.

Pamella Dias é cunhada de Dayvid Medeiros e irmã de Heric Fabiano Dias. Ela figura como sócia-administradora do Instituto Super Poder Educacional (Super Leitores), sediado em Guarulhos, contratado pelo ICB por R$ 300 mil para fornecer kits digitais. Quando auditores federais foram checar o endereço cadastrado da empresa em Guarulhos, encontraram apenas uma loja de roupas femininas funcionando no local.

A engrenagem financeira mapeada pelo COAF e pela Polícia Federal mostra como os recursos circulavam no “circuito fechado”:

  • A HD Cultural e a Dinâmica Editora (de Rio Claro) repassaram milhões de reais para a empresa NTT Brasil Ltda., administrada por Heric Fabiano Dias (irmão de Pamella e ex-sócio de Dayvid).
  • A NTT Brasil, por sua vez, realizou uma transferência de R$ 750.000,00 para a produtora Go Up Entertainment Ltda., responsável pelo filme “Dark Horse”.
  • A Go Up Entertainment tem como sócia Karina Ferreira da Gama e como roteirista e produtor-executivo o próprio deputado Mário Frias, autor da emenda que destinou recursos para Piracicaba.

Decisão do ministro do STF Flávio Dino determinou a suspensão do direito de licitar das empresas envolvidas e a retenção do passaporte de Mário Frias. Na esfera municipal, a oposição em Piracicaba promete acionar os órgãos de controle estadual para exigir a devolução dos R$ 1,38 milhão aos cofres da saúde local.

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