A operação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela não foi um gesto improvisado, mas o desfecho de um cálculo político que revelou a irrelevância interna da oposição liberal e a centralidade do controle territorial na governabilidade venezuelana.
Por José García
A invasão da Venezuela não começou naquela madrugada de 3 de janeiro. Tampouco começou com os ataques às lanchas no Caribe ou com a súbita movimentação aérea sobre o litoral. O movimento decisivo foi outro: a retirada de María Corina Machado do espaço onde a política venezuelana efetivamente acontece. O Prêmio Nobel funcionou como pretexto — uma escusa elegante — para tirá-la do jogo.
Às 2h da manhã do terceiro dia do ano, as forças armadas dos Estados Unidos neutralizaram simultaneamente as defesas aéreas, os sistemas de comunicação e instalações estratégicas em Caracas e cidades adjacentes. Mais de 150 aeronaves — bombardeiros, caças, plataformas de inteligência, vigilância e reconhecimento, além de helicópteros — estavam no ar naquela noite, numa operação de saturação total do espaço aéreo venezuelano. Helicópteros ingressaram no complexo presidencial e extraíram Nicolás Maduro e sua esposa do país. Horas depois, ambos se encontravam sob custódia da DEA, em Nova Iorque.
O comentário feito posteriormente na conferência de imprensa foi, paradoxalmente, mais elucidativo do que a própria operação militar. Ao observar que a líder opositora María Corina Machado era “agradável”, mas não dispunha de respeito suficiente dentro do país, Donald Trump revelou um critério elementar de decisão. Não se tratava de afinidade ideológica, tampouco de supostos valores democráticos. O fundamental é utilidade política. A simpatia dos meios internacionais pouco pesa quando a questão central é a governabilidade. Governos não se sustentam no Instagram nem no X; sustentam-se no território, nas ruas, nos mecanismos reais de mediação social.
O cálculo parte de um dado frequentemente negligenciado por analistas externos: a Venezuela está entrelaçada por densas redes de poder popular construídas ao longo do chavismo. Embora corroídas pela crise econômica e social, essas estruturas continuam a mediar território, escassez e conflito. O progressivo distanciamento de Maduro em relação às bases — refletido tanto nos contestados resultados da eleição de julho de 2024, em que foi reeleito sem apresentar atas oficiais, quanto na diáspora de milhões de venezuelanos — não gerou, em nenhum momento, uma transição orgânica da população em direção à direita. Assim, na Venezuela, ninguém tomou as ruas com bandeiras dos Estados Unidos para celebrar a captura do presidente, nem mesmo aqueles que aplaudiram o desfecho.
Maduro não preservou, sob muitos aspectos, o legado do comandante Hugo Chávez e esteve longe de exercer um governo democrático voltado ao fortalecimento do povo venezuelano. Ainda assim, suas atitudes não converteram automaticamente a antiga oligarquia em alternativa histórica, haja vista a consciência histórica da população.
Diante do cenário que se desenha, vale relembrar o 14 de janeiro de 2012, quando, na Assembleia Nacional, o comandante Chávez, dirigindo-se a María Corina Machado, encerrou o debate com uma frase lapidar: “¡Águila no caza mosca, diputada!”. Ao que tudo indica, as águias-calvas do Norte chegaram à mesma conclusão.
José García é venezuelano. Foi gerente de projetos no Fundo Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, pesquisador-líder no CENDITEL e diretor no Ministério do Planejamento da Venezuela. É doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp.




Parabéns pela elucidativa análise. Ela nos ajuda a compreender a dificuldade que encontrarão os venezuelanos para recompor a nação. Abraço solidário