sexta-feira, 16/01/2026
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A espera pelo primeiro atendimento médico no Hospital Mário Gatti e na UPA Carlos Lourenço ultrapassa cinco horas

Entre cadeiras duras, dores persistentes e a passagem lenta do tempo, pacientes relatam horas de espera pelo primeiro atendimento médico no Hospital Mário Gatti e na UPA Carlos Lourenço, dois serviços estratégicos da rede de urgência do SUS em Campinas.

Por Radar Democrático

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O relógio avança devagar quando o corpo dói. No Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, o tempo parece se mover em outro ritmo — um ritmo que não acompanha a urgência de quem chega curvado, segurando o próprio abdômen, tentando encontrar uma posição menos dolorosa na cadeira de plástico da sala de espera. A espera pelo primeiro atendimento médico no Hospital Mário Gatti e na UPA Carlos Lourenço ultrapassa cinco horas, e essa marca não se mede apenas em minutos, mas em respirações contidas, olhares cansados e pensamentos que insistem em ir e voltar.

Era final de semana quando ele deu entrada no Mário Gatti. Dor abdominal forte, contínua, daquelas que não permitem distração. O hospital estava cheio, como costuma estar. O som era um misto de televisão ligada, conversas baixas e gemidos que escapavam sem pedir licença.

Depois de cerca de uma hora, veio a triagem. Perguntas rápidas, pressão aferida, algumas anotações. Um alívio breve — a sensação de que, agora, o atendimento médico não demoraria. Mas demorou. Quase quatro horas a mais. O corpo já não sabia se doía mais por dentro ou pelo cansaço de ficar sentado, levantando, andando poucos passos, voltando ao mesmo lugar.

Enquanto esperava, ele começou a perceber o entorno com mais atenção. Um senhor cochilava com a cabeça caída sobre o peito. Uma mulher segurava uma sacola com muitos pertences, como se fosse um amuleto. Havia quem já estivesse ali há 12 horas. Outros falavam em 18. O tempo, naquele espaço, deixava de ser uma linha reta e virava um peso compartilhado.

O Hospital Mário Gatti não é apenas um hospital de Campinas. É uma das principais portas de entrada da urgência e emergência do SUS em toda a região. Casos mais complexos, situações que extrapolam a capacidade de unidades menores. Quando o Mário Gatti demora, a demora reverbera para além de seus corredores — ela se espalha pela rede, impactando fluxos, deslocamentos e expectativas de atendimento.

Na UPA Carlos Lourenço, a cena se repete com outras cores, mas o mesmo sentimento. A paciente chegou também no final de semana. Em cerca de 20 minutos, passou pela triagem. Sentiu, por um instante, que tudo caminharia rápido. Sentou-se. Esperou. Uma hora. Duas. Quatro horas até ser chamada para o atendimento médico.

O corpo avisava que algo não estava bem. A cabeça tentava se manter calma. O ambiente era iluminado demais para quem queria fechar os olhos. O banco endurecia as costas. O tempo escorria.

Após a consulta, veio a solicitação de um exame simples de urina. Outro tipo de espera começou. O resultado ficou pronto apenas por volta das 22h. Até lá, a sensação era de suspensão — como se a vida estivesse em pausa, aguardando um papel, um número, uma palavra.

A UPA Carlos Lourenço também ocupa lugar estratégico na rede de urgência e emergência. Atende não só moradores de seu entorno, mas funciona como ponto de desafogo do sistema, absorvendo demandas que, se não fossem ali atendidas, pressionariam ainda mais hospitais de maior complexidade. O que acontece em suas salas de espera também diz respeito a toda a região.

Os pacientes falam do corpo cansado, da dor que não passa, da angústia silenciosa de quem espera sem saber quanto tempo ainda falta. Falam do medo discreto — medo de piorar, de não ser chamado, de que a dor signifique algo mais grave.

A espera pelo primeiro atendimento médico no Hospital Mário Gatti e na UPA Carlos Lourenço ultrapassa cinco horas. Essa frase, repetida, não é estatística fria. Ela ganha carne, rosto e voz nas salas de espera. Ganha forma no modo como as pessoas observam o painel de chamadas, no jeito como se levantam a cada nome anunciado — mesmo quando sabem que não é o seu.

Ao final, quando o atendimento acontece, não há alívio completo. Há cansaço. Há uma sensação estranha de ter atravessado algo longo demais. Como quem sai de um túnel sem saber exatamente quanto tempo passou lá dentro.

Em Campinas, e para além dela, essas esperas silenciosas seguem acontecendo. E enquanto o relógio continua andando, quem está sentado na cadeira dura aprende, à força, que as unidades de pronto atendimento de Campinas também podem ser um exercício de resistência.


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Rogério Bezerra
Rogério Bezerrahttps://gravatar.com/creatorloudly177c571905
Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

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