O filme “O Agente Secreto” nos faz lembrar o Brasil que ainda está aqui.
Por Paulo Salvador
Talvez você não descubra por que o filme tem o nome de O Agente Secreto e se surpreenda com a trama principal, que trata da pesquisa científica e do trabalho em universidade. Você vai mergulhar no Brasil da ditadura: de gente inescrupulosa, da polícia sanguinária, dos justiceiros, dos esquadrões da morte — a gênese das milícias de hoje.
O Agente Secreto é um filme duro, rude, tal qual a conjuntura de 1977. Ambientado em Pernambuco, apresenta uma história bem contada e uma reconstituição cenográfica primorosa. Não há um pingo da poesia que transborda em filmes como Malês e Ainda Estamos Aqui, que também narram histórias duras. Faça uma boa viagem ao mundo periférico de um Brasil atrasado. Wagner Moura é competente no personagem. Assim, as premiações do Globo de Ouro são merecidas e devem ser comemoradas como um novo marco do cinema brasileiro.
É um filme para telona e pipoca. Com Kleber Mendonça Filho, haverá sempre sexo (amoroso, curioso e improvável), muito sangue esparramado e, apesar disso, o espectador conhece a vida de uma comunidade de apoio a refugiados, financiada pela filha de um empreiteiro de obras públicas — “um corrupto como tantos no Brasil”, numa citação do filme.
Falar em tubarão no Recife é redundância. A história da perna humana encontrada em um tubarão perdeu o drama quando Kleber revelou que se inspirou em uma notícia de jornal sobre um acontecimento na África do Sul. Já a homenagem ao filme Tubarão é encantadora, carregando alguma dose de Cinema Paradiso ao abraçar o Cine São Luiz, agora revitalizado, tendo ao fundo o filme A Profecia. Jornais sensacionalistas, do tipo “espreme que sai sangue”, ajudam a narrativa.
Para quem gosta de entrar nos bastidores da produção, o roteiro foi lançado em livro.

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Paulo Salvador é jornalista e articulista do Radar Democrático.
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