O ex-deputado federal e ex-presidente nacional do PT, José Genoíno, concedeu uma entrevista exclusiva ao Radar Democrático e tratou de tudo. Falou de sua disposição em atuar na militância sem cargos públicos e sem estar na direção partidária, defendeu uma aliança mais forte do PT com os movimentos sociais, diz que o partido deve estar à esquerda de Lula. E para o estado de São Paulo ele é categórico: o nome para fortalecer o palanque da esquerda no estado e fazer a disputa com Tarcísio é o de Fernando Haddad.
Leia abaixo os principias pontos da entrevista:
O cenário eleitoral em São Paulo e a ameaça bolsonarista
Ao abordar a disputa em São Paulo, o líder petista observou a incerteza quanto aos planos de Tarcísio de Freitas, que oscila entre a reeleição e uma possível candidatura à presidência da República, apesar de declarações em apoio a Flávio Bolsonaro.
“A tendência principal é o Tarcísio ser candidato a governador de São Paulo à reeleição, até pela idade dele, ele pode se preservar para disputar 2030”,
No entanto, Genoíno alertou que em um quadro de crise, “tudo é possível”, citando as “aventuras trampistas no mundo” e as “aventuras bolsonaristas aqui, como esse episódio do Nicolas, com raio, com chuva e tudo mais”. Ele criticou o surgimento de uma “extrema-direita tão fascista como a extrema-direita do caos, do fundamentalismo, do negacionismo, que é representada por Bolsonaro”, reforçando a importância estratégica da eleição paulista diante desses desafios.
Para Genoíno, São Paulo é um palco fundamental para as eleições gerais, pois os palanques estaduais são cruciais para eleger deputados e senadores, dada a circunscrição estadual. “A eleição de São Paulo é uma eleição estratégica”, frisou. Diante disso, ele defende que a esquerda deve construir um palanque forte no estado.
“E o nome da esquerda para viabilizar um palanque aqui em São Paulo é o companheiro Fernando Haddad”.
O ex-deputado rememorou sua própria experiência em 2002, quando foi candidato a governador de São Paulo, começando com 3% das intenções de voto e indo para o segundo turno, o que foi considerado chave para a eleição de Lula à presidência. Segundo Genoíno, na época, “o Lula tinha dito que, se ele ganhasse no primeiro turno, ele ia fazer o governador de São Paulo”, ilustrando a interdependência entre as esferas federal e estadual na estratégia política do campo progressista.
A hegemonia conservadora em São Paulo
Genoíno ressaltou o caráter conservador da política paulista, que, segundo ele, se diferencia de outros estados brasileiros que já experimentaram governos de esquerda.
“São Paulo é praticamente o único estado da federação que não tem rotatividade do poder estadual com a esquerda”,
Ele citou exemplos como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas e Bahia, onde a alternância ocorreu, contrastando com a sequência de governantes em São Paulo, que incluiu figuras como Maluf, Ademar de Barros, Jânio Quadros, Montoro, Covas, Quércia e Alckmin.
Essa hegemonia é explicada por uma “concepção reacionária da modernização conservadora”, conforme Genoíno, mencionando a ausência de uma Avenida Getúlio Vargas no estado como um reflexo do “reacionarismo contra Getúlio Vargas no famoso movimento de 1932”. O ex-deputado descreveu São Paulo como um local onde “o capitalismo se viabilizou muito fortemente”, e que, na prática, contém “vários estados dentro de São Paulo”, com as “redes aqui são o estado dentro do estado de São Paulo”.
O Passado de Vitórias e o “Cinturão Vermelho”
Recordando um período de forte presença do PT, Genoíno lembrou do que era conhecido como o “Cinturão Vermelho de São Paulo”, que abrangia a capital, a Grande São Paulo e cidades como Santos, Campinas e Ribeirão Preto, onde o partido governava. O ex-deputado narrou sua própria experiência como candidato a governador, um momento em que o PT vivia uma ascensão e ele, como deputado federal mais votado em 1998, visava o segundo turno.
Naquele período, o PT possuía “uma estrutura orgânica no estado” e uma organização robusta de diretórios por “macro-regiões”, como Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Araçatuba, Marília, Bauru, ABC e Santos, evidenciando a capilaridade da sigla em São Paulo.
Recuperação e o Desafio das Próximas Eleições
Contrastando com o passado, Genoíno abordou a recente trajetória do PT, que “vem de uma crise”, especialmente nos anos de 2016, 2018 e 2020. O partido iniciou sua recuperação “em 2022 com a eleição do Lula”, após enfrentar períodos turbulentos como o Mensalão, a Lava Jato e a prisão do ex-presidente. “O PT está se levantando de um período de descenso”, pontuou o ex-deputado, enfatizando que é fundamental “encarar a eleição de São Paulo como parte desse processo”.
Crítica à ‘acomodação’ interna e foco em programa de rupturas.
Genoíno fez uma análise crítica do cenário político atual do Partido dos Trabalhadores, apontando uma “acomodação” interna e defendendo uma guinada estratégica à esquerda. O ex-deputado enfatiza a necessidade de o PT priorizar alianças com partidos e movimentos sociais progressistas, visando um programa de ruptura e mudança profunda para enfrentar a extrema-direita e as graves crises institucionais que o país atravessa.
Em sua avaliação, o PT, com 46 anos de história, deveria ser um partido mais “elaborador, com mais autonomia, com maior vinculação com os movimentos sociais”. O ex-presidente do PT expressou preocupação com a atual direção do partido, afirmando que está aquém do que deveria ser um partido socialista em debates fundamentais como a luta anti-imperialista e a questão democrática.
“Eu acho que o PT podia ficar na esquerda do Lula, mas está à direita do Lula.”
Genoíno defende um processo de renovação da linha política e da estrutura orgânica do partido, propondo um investimento em alianças à esquerda. Para ele, embora as frentes amplas para derrotar a extrema-direita sejam importantes, é crucial que o PT priorize a construção de um bloco com base em um programa de rupturas e transformações mais profundas.
A Força das Alianças à Esquerda
José Genoíno detalhou sua visão para as alianças estratégicas. Para ele, o PT deve se alinhar a partidos de esquerda como PSOL, PCdoB, PSB, setores do PDT, a Rede e o PV. Além disso, ele enfatiza a importância de se conectar a movimentos sociais organizados, incluindo o movimento sindical, a Frente Brasil Popular, o Povo Sem Medo, movimentos de mulheres, a Marcha Mundial das Mulheres, a comunidade LGBTQIA+, movimentos antirracistas e os povos originários. O objetivo é fortalecer a representação de esquerda no Congresso e no Senado, apoiando a presidência de Lula.
Apesar de reconhecer a estratégia do presidente Lula de buscar alianças com setores de centro e de direita para combater o fascismo e o trumpismo, Genoíno adverte sobre os riscos de alianças que não se baseiam em um programa sólido. Ele propõe um programa com três pilares estratégicos: a luta nacional pela soberania, a radicalização da luta pela democracia e a defesa dos direitos do povo – abrangendo moradia, emprego, segurança pública, meio ambiente saudável e direitos LGBTQIA+.
Frente ampla e crise institucional
Analisando experiências passadas, Genoíno criticou o desdobramento da frente ampla de 2002, que, segundo ele:
“acabou desembocando numa aliança com o Centrão e o centrão aprisionou, através do Congresso Nacional, com emendas impositivas, secretas e pix. Um constrangimento muito grande para o governo Lula”.
Ele aponta que houve rupturas com essa dinâmica em momentos de crise, como as relacionadas ao IOF, ao tarifaço de Trump e às emendas secretas. Mas alerta para a “crise institucional ampla” que o país enfrenta, mencionando a “crise do Bando do Máster” e a das emendas secretas no Congresso Nacional. Ele também criticou a tentativa de “passar pano” no julgamento de golpistas, seja por meio de dosimetria branda ou prisão domiciliar, e defendeu uma postura de “enfrentamento, uma postura de ruptura” diante dessas questões.
Futuro político
Genoíno disse que está decidido a não disputar eleições, não exercer cargos públicos e não conceder entrevistas à grande mídia. Genoíno reiterou seu compromisso com a militância de base, focando na formação política e na mobilização social para impulsionar um projeto de esquerda e abrir espaço para novas gerações.
José Genoíno detalhou que sua escolha é fruto de uma profunda reflexão sobre sua trajetória política e pessoal. Após uma rica experiência parlamentar, que incluiu ser membro da primeira bancada do PT em 1982, constituinte e líder do partido na Câmara dos Deputados em duas ocasiões, ele optou por uma abordagem diferente da política.
Genoíno já teve diferentes atuações em posturas na política. Em 1970 aderiu à Guerrilha do Araguaia, no Pará, contra a ditadura civil-militar. Foi preso em 1972, passando cinco anos na prisão. Foi deputado federal por seis vezes pelo PT. Em 2013 renunciou ao cargo após ser condenado no caso do mensalão por sua atuação enquanto presidente do PT.
Ele explicou a transição de seu entendimento sobre a ação política no Brasil.
“Eu acreditava… que a mudança no Brasil passaria essencialmente pela via institucional. Mas eu vivi uma experiência dramática… de que era necessário a gente misturar a disputa institucional com a disputa das ruas, com a mobilização, com a formação e com a organização.”
Essa nova perspectiva o levou a priorizar o trabalho direto com a sociedade e as bases partidárias.
O ex-deputado destacou que sua energia agora está direcionada para a militância política e social, com atividades focadas nas ruas e na base do Partido dos Trabalhadores. Seu objetivo principal é “disputar corações e mentes para um projeto de esquerda, um projeto socialista, um projeto que rompa com os limites do neoliberalismo”.
Genoíno também expressou sua intenção de fomentar a renovação política no país.
“Eu quero abrir as portas para uma nova geração. Eu quero arrombar as portas para uma geração nova que está emergindo na política.”
Ele se dedica a contribuir com sua experiência, formação e leituras para o debate político, auxiliando no desenvolvimento dessa nova leva de lideranças.
Ao reafirmar sua decisão, Genoíno distinguiu sua escolha daquela de outros companheiros, que consideram uma recandidatura. Para ele, o caminho mais útil e prazeroso é o engajamento direto e contínuo. Ele se dedica “a esse trabalho de corpo a corpo, nas ruas dos movimentos sociais e na base do PT”, buscando impactar a vida política e social de forma mais orgânica e fundamental.
Veja a entrevista de José Genoíno, ex-deputado federal, ex-presidente nacional do PT na íntegra


