O debate sobre a privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) é um dos temas mais sensíveis da política paulista, e a ocorrência de acidentes operacionais invariavelmente coloca lenha nessa fogueira. A privatização pode ser inclusive o elo entre Tarcísio, seu financiamento de campanha e o escândalo do Banco Master, como mostrou ontem o Radar Democrático.
O saneamento básico é, por definição, o setor mais vital da infraestrutura urbana. Quando um acidente ocorre — seja um rompimento de adutora que inunda comunidades ou o colapso de coletores que poluem mananciais — a discussão deixa de ser técnica e passa a ser humanitária. No centro do furacão está o modelo de gestão da Sabesp, agora em fase de transição para o capital privado.
Tragédias operacionais raramente são eventos isolados; elas costumam ser o clímax de um processo de sucateamento ou de falhas na manutenção preventiva. Defensores da privatização argumentam que o Estado, engessado por burocracias e falta de agilidade em licitações, não consegue manter o ritmo de investimento necessário para evitar acidentes em uma rede cada vez mais antiga. Por outro lado, críticos apontam que a busca pelo lucro imediato e a redução de custos com pessoal especializado podem precarizar a operação, elevando o risco de falhas catastróficas.
A articulação entre acidentes e a venda da companhia gira em torno de três pilares fundamentais: universalização x manutenção; redução de quadros técnicos e fiscalização e responsabilidade.
O governo Tarcísio sustenta que a privatização antecipará a universalização dos serviços (água e esgoto para todos) até 2029. No entanto, o medo é que o foco em expansão ignore a manutenção de áreas já atendidas, mas vulneráveis. E há históricos mostrando que a universalização não sai do papel. As populações mais vulneráveis continuam sem abastecimento. O lucro tem mais força.
Um dos maiores temores em processos de privatização é a demissão de técnicos experientes (o “corpo técnico histórico”) para a contratação de mão de obra terceirizada e mais barata, o que pode comprometer a resposta rápida a emergências. E isso tem sido regra.
Exemplo é o rompimento de um reservatório de água da Sabesp em Mairiporã, na Grande São Paulo, que deixou um morto e ao menos sete feridos na manhã de quarta-feira, 11. Obras executada por empresa terceirizada, da privatizada Sabesp. A conta não fecha.
O colapso da estrutura, que estava em construção, provocou uma violenta enxurrada que atingiu várias casas e veículos no Parque Náutico da Cantareira. Vídeos produzidos pelos moradores mostram o tamanho da destruição, com carros arrastados e casas invadidas pela força da água.
Além disso, em uma empresa pública, a pressão política e o controle social são diretos. Em uma empresa privada, a regulação depende de agências (como a Arsesp), que precisam ter força para punir severamente a empresa em caso de acidentes que afetem a população.
A segurança hídrica e a integridade física das populações vizinhas às instalações da Sabesp devem ser a prioridade máxima, independentemente de quem detém a maioria das ações na Bolsa de Valores.
A tragédia não escolhe CNPJ, mas a forma como a empresa se organiza para evitá-la é o que define o sucesso de qualquer modelo de gestão. Se a Sabesp privatizada falhar na manutenção básica em nome do pagamento de dividendos, o custo político e social será incomensurável.


