O dossiê define a gestão como uma “fraude”, a conclusão a que chegam os autores após cruzar série por série, indicador por indicador.
Gestão de fachada
O argumento central do documento é o de que o governo Tarcísio opera com o que os autores chamam de “manipulação e inflação de dados”: apresenta valores nominais sem corrigi-los pela inflação, anuncia criações sem descontar extinções, e divulga metas sem revelar o ponto de partida. A estratégia, argumenta o relatório, não é episódica — é o modelo de comunicação da gestão.
O timing do lançamento é deliberado. Com Tarcísio já posicionado como pré-candidato à reeleição, a oposição quer entrar em campo e colocar seu pré-candidato na disputa: o ex-ministro da fazenda, Fernando Haddad.
O dossiê é simultaneamente um documento técnico e uma peça de disputa eleitoral — e seus autores não escondem isso.
“O governo Tarcísio é uma gestão de fachada — os dados levantados mostram que a imagem de bom gestor não resiste a uma análise minimamente rigorosa da realidade.”
O paradoxo fiscal: “maior investimento da história” e R$ 12 bilhões no vermelho
O governo anunciou repetidamente que realizou o “maior investimento da história de São Paulo”. O dossiê questiona essa afirmação diretamente: atualizados pelo IPCA, os R$ 23,8 bilhões liquidados em 2025 ficariam abaixo dos investimentos realizados em 2013, 2014 e 2022. O recorde, segundo a oposição, existe apenas em valores nominais — no mundo real do poder de compra, é uma ilusão.
Mais revelador ainda é o quadro fiscal geral. As contas do estado fecharam no vermelho em dois dos três anos da gestão, com um déficit expressivo em 2025:
| Ano | Receitas | Despesas | Resultado |
|---|---|---|---|
| 2023 | R$ 326,7 bi | R$ 328,3 bi | − R$ 1,57 bilhão |
| 2024 | R$ 371,8 bi | R$ 363,5 bi | + R$ 8,28 bilhões |
| 2025 | R$ 372,8 bi | R$ 385,0 bi | − R$ 12,2 bilhões |
O déficit de R$ 12,2 bilhões em 2025 é especialmente revelador porque ocorre no mesmo exercício em que o governo celebrava recordes de arrecadação. Para a oposição, o número desfaz a narrativa de equilíbrio fiscal que sustenta o discurso de Tarcísio.
O relatório aponta ainda um aumento de quase 64% na alíquota de ICMS sobre a gasolina — imposto que recai diretamente sobre o bolso do trabalhador — e projeta R$ 85,6 bilhões em renúncias fiscais para grandes empresas em 2026. Os deputados do PT batizaram o mecanismo de “Bolsa Empresário”: enquanto o estado sangra no déficit, o governo livra do ICMS quem menos precisa.
Saúde e educação: anúncios não batem com a realidade
O governo prometeu criar 8 mil novos leitos hospitalares. O dossiê cruzou a promessa com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde — a base federal que registra a capacidade instalada real. O resultado encontrado pela oposição: uma redução líquida de 440 leitos no período, não ampliação.
Na educação, o relatório contesta os números do IDEB e aponta que o ensino profissional técnico de nível médio — uma das bandeiras da gestão — não apresenta o crescimento de matrículas alardeado. Os dados históricos disponíveis na plataforma da própria Secretaria da Fazenda estadual mostram oscilações que contradizem a narrativa de expansão acelerada.
Segurança pública: 120% a mais de jovens mortos pela polícia
Entre as denúncias de maior impacto do dossiê está a que trata da segurança pública. O documento aponta um aumento de 120% na letalidade policial envolvendo jovens e crianças durante a gestão Tarcísio. O dado coloca São Paulo no centro do debate sobre o modelo de policiamento adotado pelo governo — que, ao mesmo tempo em que eleva indicadores de combate ao crime organizado, teria elevado também o risco de morte para os mais jovens nas periferias.
Privatizações sob suspeita: Emae, Sabesp e o rastro do crime organizado
A seção de maior gravidade jurídica do documento trata das privatizações. O dossiê levanta questionamentos sobre os processos de leilão da Emae — Empresa Metropolitana de Águas e Energia — e da Sabesp, a companhia de saneamento do estado.
No caso da Emae, o relatório vai além de irregularidades administrativas: há menção a indícios de conluio no processo licitatório e a possíveis conexões com o crime organizado em uma operação com características de lavagem de dinheiro. É neste campo que Tarcísio se aproxima de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Os autores não apresentam provas conclusivas, mas afirmam que os elementos disponíveis são suficientes para justificar investigações formais pelos órgãos de controle.
Para um governador que se vende como o antídoto ao PT, as suspeitas em torno das privatizações são especialmente incômodas.
Operação Ícaro: corrupção dentro da Secretaria da Fazenda
O dossiê insere a Operação Ícaro como mais um elemento de seu argumento estrutural. A operação revelou um esquema de corrupção na Secretaria da Fazenda do Estado para liberação irregular de créditos de ICMS — um esquema bilionário que funciona nas entranhas da máquina que Tarcísio diz ter saneado.
Para a oposição, o caso mostra que os problemas fiscais de São Paulo não são apenas conjunturais. São estruturais. E envolvem agentes do próprio governo.
2026 começa agora
O dossiê é, declaradamente, um instrumento de disputa eleitoral. Seu lançamento em março de 2026 — com as eleições presidenciais e estaduais no horizonte — sinaliza o ritmo que a oposição pretende impor ao debate público nos próximos meses. Baixe a publicação aqui.
Isso o tempo — e a série que começa aqui — dirá.



