A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) foi palco, na segunda-feira, 23, de um ato em defesa da pesquisa científica pública. O evento, convocado pela deputada Mônica Seixas (Movimento Pretas/PSOL), reuniu cientistas, especialistas e representantes do funcionalismo para debater os efeitos do Decreto nº 70.410, assinado em 27 de fevereiro de 2026 pelo governador Tarcísio de Freitas. O decreto prevê a extinção de cerca de 67 mil cargos na administração estadual — mais de 5 mil deles diretamente ligados à pesquisa científica e às classes de apoio técnico.
Para os participantes do debate, o decreto não é um episódio isolado, mas o ponto mais recente de um longo processo de sucateamento. A presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos (APqC), Helena Dutra Lutgens, chamou a medida de “última chibatada” em uma trajetória marcada por falta de concursos públicos e desinvestimento crônico. Segundo a entidade, a carreira de Assistente Técnico de Pesquisa Científica e Tecnológica — principal alvo das extinções de cargos vagos — é a “espinha dorsal operacional” dos laboratórios paulistas, responsável pela manutenção de experimentos biológicos e análises de alta complexidade. “Se você terceirizar os serviços de apoio, você vai ter a cada ano um novo auxiliar… o que inviabiliza as pesquisas”, alertou Helena Dutra.
A deputada Mônica Seixas ampliou o argumento para além dos laboratórios: sem estrutura técnica, o Estado perde sua capacidade de resposta diante de crises climáticas e emergências sanitárias. O debate citou como exemplo concreto a tentativa de leilão do prédio da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) — órgão central no combate a doenças como a dengue —, barrada temporariamente por uma liminar judicial fundamentada na inalienabilidade do patrimônio científico. Priscila Rodrigues Melo Leal, diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Ciência e Tecnologia, sintetizou o diagnóstico coletivo: o estado caminha para um “apagão técnico-científico” guiado por uma lógica que coloca o capital acima do serviço essencial.
No setor agrícola, Dora Colariccio, do Instituto Biológico, alertou para o esvaziamento de instituições centenárias como o IAC e o Instituto de Pesca, pilares da economia do estado. Ela descreveu a carreira científica atual como uma “pirâmide invertida”: sem novos ingressantes há mais de 20 anos, pela ausência de concursos, o conhecimento acumulado não tem para quem ser transmitido. Do lado econômico, a representante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Mariana Moura, trouxe dados que contrastam com a retórica de austeridade: cada real investido em ciência retorna entre R$ 4 e R$ 8 em arrecadação e renda para o estado — valor que pode chegar a R$ 16 na área agrícola.
O ato encerrou com a leitura de um Manifesto em Defesa da Ciência, que classifica as ações do governo como “negacionistas e entreguistas”. O documento afirma que destruir a capacidade científica estatal significa abandonar a prevenção e subordinar o interesse público ao mercado financeiro. Os participantes convocaram mobilização ampla da classe trabalhadora e deixaram uma síntese como mote: “defender a ciência pública é defender a vida”.



