As eleições de 2026 desenham um dos cenários mais complexos da história democrática recente do Brasil. No entanto, enquanto a direita e a centro-direita paulista consolidam seus blocos, o campo progressista demonstra uma hesitação tática preocupante em relação às duas vagas que estarão abertas para o Senado pelo Estado de São Paulo — atualmente ocupadas por Mara Gabrilli (PSD) e Giordano (MDB), que não disputarão a reeleição.
A falta de consenso e a ausência de um nome de peso unificado ameaçam custar caro à base de apoio do governo federal no maior colégio eleitoral do país.
O grande sintoma da indefinição progressista é a profusão de nomes testados sem que nenhuma liderança consiga consolidar-se como o “candidato de consenso”. Levantamentos recentes mostram que figuras do primeiro escalão do governo federal são testadas em múltiplos arranjos.
Em dados da pesquisa do instituto Paraná Pesquisas de junho de 2026, nomes associados à base aliada e ao centro progressista, como as ministras Marina Silva e Simone Tebet, pontuam bem nos cenários estimulados (Tebet aparece com 25% e Marina com 21% ou 18%, dependendo do cenário). Contudo, a viabilidade real dessas candidaturas esbarra em arranjos de partidos que não pertencem ao núcleo histórico da esquerda (PT e PSOL).
Quando olhamos para a centro-esquerda tradicional no estado, os números são pulverizados. Márcio França (PSB), estabilizado na casa dos 20%; Guilherme Boulos (PSOL), que não será candidato, oscila entre 14% e 15%.
Falta de estratégia comum e vantagem da direita
O problema central não é a falta de opções, mas a falta de uma estratégia comum. Enquanto a esquerda pulveriza suas intenções de voto entre quatro ou cinco frentes, nomes competitivos da direita — como Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) — mantêm um eleitorado cativo que se beneficia diretamente da dispersão do campo progressista.
A letargia progressista em São Paulo não prejudica apenas o estado; ela gera um impacto direto no equilíbrio de forças em Brasília. Conforme levantamento do portal Congresso em Foco, a direita e a oposição ao Palácio do Planalto já largam com forte vantagem para conquistar a maioria absoluta no Senado a partir de 2027. Dos 27 senadores remanescentes (cujos mandatos vão até 2031), a grande maioria é de oposição explícita, incluindo dez parlamentares do PL.
Para o campo governista e progressista ter governabilidade a partir do ano que vem, seria necessário conquistar pelo menos 32 das 54 vagas em disputa em todo o país.
Deixar o estado de São Paulo, que elegerá dois senadores de uma só vez, sem uma chapa competitiva e unificada, é abrir mão voluntariamente de equilibrar a balança na Câmara Alta — que decide sobre indicações ao STF, PGR e processos de impeachment.
Com o prazo final das convenções partidárias fixado pela Justiça Eleitoral para o período de 20 de julho a 5 de agosto, o tempo de especulação acabou. A insistência em tratar a vaga ao Senado em São Paulo como moeda de troca de última hora, ou como “prêmio de consolação” para quem desistir de disputas majoritárias ao governo do Estado, enfraquece o discurso ideológico e programático da esquerda. Se o campo progressista deseja evitar uma derrota acachapante no principal motor econômico e eleitoral do Brasil, precisa superar as vaidades partidárias e definir, de forma imediata, quem serão suas duas vozes na disputa pelas cadeiras paulistas no Senado.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



