O aumento da letalidade policial no estado de São Paulo tem se tornado um dos temas mais sensíveis e urgentes no debate sobre segurança pública no Brasil. Se, em anos anteriores, o estado foi apontado como um exemplo de redução de mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) — especialmente com a implementação das câmeras corporais — o cenário atual em 2026 revela um retrocesso estatístico e humanitário preocupante.
A segurança pública em São Paulo atravessa um momento paradoxal. Enquanto o governo estadual celebra a redução de índices criminais como o latrocínio, que em 2025 atingiu o menor patamar desde 2001, a letalidade policial atingiu recordes históricos, indicando que a “pacificação” de certos territórios tem ocorrido sob um custo humano inaceitável e desproporcional.
Os dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) e de institutos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública desenham uma curva de violência ascendente. Em 2022 foram registrados 421 óbitos por intervenção policial. Já em 2025, o número saltou para 834 mortes, um aumento de quase 100% em relação a 2022.
Tendência em 2026: No primeiro trimestre de 2026, a média já aponta para 3 mortes por dia, o maior patamar da série histórica desde 1996. Essa explosão sugere uma mudança deliberada na doutrina de policiamento, que parece ter abandonado a lógica da contenção e inteligência em favor do confronto direto.
As chamadas “Operação Escudo” ou “Operação Verão”, na Baixada Santista, tornaram-se o símbolo dessa nova fase. Somente em uma dessas ações em 2024, foram registradas 56 mortes em um curto período. Essas operações muitas vezes ocorrem sob uma lógica de retaliação pela morte de agentes públicos, o que fere o princípio constitucional da impessoalidade e do devido processo legal.
Câmeras Corporais
O uso das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) foi, historicamente, o fator de maior impacto na redução da violência policial em SP, chegando a reduzir as mortes em mais de 60% entre 2019 e 2022.
Atualmente, a crítica recai sobre o desinvestimento e a flexibilização do uso desses equipamentos. Ao questionar a eficácia das câmeras ou priorizar modelos que não gravam de forma ininterrupta, a gestão estadual envia uma mensagem ambígua à ponta da linha de que o controle externo e a transparência são obstáculos, e não garantias de segurança tanto para o cidadão quanto para o bom policial.
Perfil das Vítimas
A letalidade não atinge a população de forma uniforme. Segundo estudos da FGV e dados oficiais. A maioria das vítimas (cerca de 60% a 70% dependendo do ano) é composta por homens negros e pardos.
Além disso, as mortes concentram-se em periferias e favelas, onde o “confronto” é aceito com menos questionamento pela opinião pública do que em bairros nobres.
Estudo do Centro de Pesquisa Aplicada da FGV Direito SP, divulgado em maio de 2025, revelou que, em um período de seis anos, em amostra de 859 procedimentos criminais, nenhum policial foi responsabilizado por mortes em abordagens, com inquéritos frequentemente arquivados sob a justificativa de “legítima defesa”, mesmo em casos com evidências de execução ou alteração de cena de crime.
O argumento de que “a polícia mata porque o crime é violento” ignora que o papel do Estado é justamente diferenciar-se do crime. A alta letalidade não produz, necessariamente, cidades mais seguras. Ela corrói a confiança da população nas instituições, dificulta o trabalho de inteligência que depende de denúncias e gera um ciclo de ódio que vitima também os próprios policiais em seus momentos de folga.
A segurança pública eficiente em São Paulo não deveria ser medida pelo número de corpos no chão, mas pela capacidade de prender sem disparar e de pacificar sem exterminar.
