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Tarcísio usa “matemática criativa” para esconder desmonte do SUS e redução de leitos

Foto: Pablo Jacob /Governo de SP

O palanque do governador Tarcísio de Freitas reserva sempre um espaço especial para os números da saúde. “Bom gestor”, diz o marketing. “Investimento recorde”, repetem os assessores. Mas o Dossiê Tarcísio, produzido pela liderança do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo, conta uma história diferente — e documentada.

O ponto de partida é a promessa de criação de 8 mil novos leitos. Parece robusto, até que os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) entram em cena: entre 2022 e 2025, o estado registrou uma redução real de 440 leitos sob gestão estadual. O número não some por acidente — ele desaparece por dentro de um artifício estatístico.

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Em vez de abrir novas alas hospitalares, a Secretaria da Saúde divide o número de internações por quatro e apresenta o resultado como “leitos equivalentes”. O cálculo ignora um detalhe fundamental: mais de 4 mil leitos existentes estão fechados ou bloqueados por falta de profissionais e má gestão. No Hospital Geral de Guaianases, 64% das vagas estão simplesmente inoperantes.

O sistema que transforma dor em dado

Dentro dessa estrutura de escassez administrada, o Sistema Cross cumpre um papel central — e revelador. Operado pela entidade privada SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), ao custo previsto de R$ 122,28 milhões em 2025, o sistema funciona como gestor digital da carência: distribui as poucas vagas disponíveis, registra as filas, processa as urgências. Em teoria, é eficiência. Na prática, é o que a deputada estadual Ana Perugini (PT), coordenadora da Frente Parlamentar do Sistema Cross, chama de outra coisa: “o sistema acabou por criar uma outra fila, uma fila virtual, invisível e distante demais para se ouvir.”

O relato de Dona Idalina, de Hortolândia, que espera há dois anos por uma cirurgia, dá carne a essa abstração: “Na farmácia me dão uma senha… e eu sei esperar, mas esperar sem senha não dá.” A espera sem senha — sem lugar, sem visibilidade, sem prazo — é o retrato de quem ficou do lado de fora do sistema que foi criado para incluir. Para Perugini, a questão é de ordem política antes de ser técnica: “O oposto da saúde não é a doença, é a indiferença.” É esse diagnóstico que fundamenta o PL 414/2025, de sua autoria, que busca garantir prioridade absoluta para quem corre risco de morte — “independentemente do ‘lugar’ na fila.”

O redesenho silencioso do SUS paulista

Há um movimento mais profundo em curso, e ele raramente aparece nos boletins do Palácio dos Bandeirantes. A chamada Tabela SUS Paulista oferece complementações que chegam a 400% em relação à tabela federal — e canaliza esse dinheiro prioritariamente para entidades filantrópicas e para o setor privado complementar. O efeito é duplo: induz a oferta de procedimentos nesses prestadores e, ao mesmo tempo, esvazia o argumento de fortalecer a rede pública de gestão direta.

Os números do financiamento revelam a proporção do que está em jogo. Entre 2024 e 2025, enquanto o Ministério da Saúde destinou R$ 13,3 bilhões ao estado, o governo paulista aportou R$ 8,6 bilhões — cerca de 40% do total. Esses recursos, em vez de consolidar estruturas públicas, alimentam um modelo crescentemente dependente de terceiros. A isso se soma um dado que o Dossiê classifica como politicamente decisivo: o Estado deixa de arrecadar cerca de R$ 55 bilhões por ano em renúncia fiscal concedida ao setor privado de saúde — benefício que, na prática, favorece apenas os 20% da população de maior renda e aprofunda a desigualdade no sistema.

O resultado, segundo o Dossiê, é um “redesenho silencioso do SUS paulista”: mais dependente de prestadores privados, menos comprometido com o fortalecimento estrutural do que é público.

Quem paga a conta

Enquanto o Estado paga bilhões para garantir a engrenagem desse modelo, os servidores que fazem a saúde funcionar no dia a dia recebem um vale-alimentação de R$ 12,00. O SindSaúde-SP tem protagonizado mobilizações urgentes contra esse cenário, e ironiza as gratificações oferecidas pelo governo, como a GDAMS, batizando-as de “síndrome da nota de R$ 3”: promessas sem valor real para quem trabalha.

O desmonte, portanto, tem dois endereços. Um é a rede hospitalar, onde leitos fechados e filas invisíveis acumulam o sofrimento de quem depende do SUS. O outro é o funcionalismo, mantido à míngua enquanto contratos milionários sustentam uma estrutura privada de gestão. O que o marketing vende como eficiência é, no fundo, um projeto: transformar saúde em mercado.

Esta é a quinta reportagem da série investigativa sobre o Dossiê Tarcísio.

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