Universidade Pública

Professor Tato: governo Tarcísio tem projeto de extermínio da universidade pública paulista

Presidente da Adunesp denuncia asfixia financeira, repressão e o risco à autonomia universitária no estado de São Paulo

A crise que incendeia as universidades estaduais paulistas não é fruto do acaso ou de mera incapacidade administrativa, mas sim o resultado de um projeto deliberado de asfixia financeira e repressão política. Em entrevista exclusiva ao Radar Democrático, o professor Antônio Luís de Andrade, o Tato, integrante do Fórum das Seis e presidente da Adunesp (Associação de Docentes da Unesp), detalhou como a política de “ajuste fiscal” do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) ameaça a autonomia conquistada em 1989 e tenta transformar a ciência pública em extensão de interesses privados.

A falácia do ajuste e o custo da permanência

Para Tato, o cenário de prédios deteriorados e falta de contratações na USP, Unesp e Unicamp é reflexo de gestões que abandonaram o zelo pelas instituições em nome de uma lógica neoliberal. O ataque atinge especialmente a permanência estudantil, vital em um momento de mudança no perfil discente. Com a implementação de cotas, as universidades passaram a receber os filhos da classe trabalhadora, mas o Estado falha em garantir moradia, alimentação e bolsas dignas, tratando esses alunos como “cidadãos de segunda categoria”.

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“Você garante o acesso, mas não garante a permanência. E você vai tornando a universidade um espaço restrito para aqueles que têm condições de ficar: a classe média alta e a pequena burguesia”, denunciou o professor. Essa precarização foi antecipada em debates na Câmara de Campinas, onde já se alertava para a criminalização do diálogo e o avanço do desmonte da ciência pública.

Autonomia sob risco e a farra das isenções

Um dos pontos mais críticos abordados foi o impacto da Reforma Tributária. Historicamente, as universidades dependem do repasse de 9,57% do ICMS, um modelo que garantiu o desenvolvimento científico mesmo sob subfinanciamento. Com a futura extinção do imposto, a autonomia financeira está em xeque. Cálculos das entidades sindicais e reitorias apontam que seria necessário um repasse de 8,64% da Receita Tributária Líquida para garantir a sobrevivência das instituições.

Enquanto as universidades mendigam recursos para laboratórios e bolsas, o governo estadual mantém uma política de isenções fiscais que chegam a R$ 80 bilhões por ano, além de conviver com uma sonegação de ICMS estimada em outros R$ 180 bilhões. “Isso para enfiar dinheiro no bolso de empresário que sonega, que gosta de ter a ‘bolsa empresário’ para mamar nas tetas do estado e defende uma política liberal”, fustigou Tato.

A escalada da violência e o fascismo nos campi

A entrevista ocorreu sob a sombra da recente invasão da PM à reitoria da USP, classificada por docentes como uma “barbárie” que quebra a autonomia universitária. Tato também relatou a presença de provocadores armados de extrema-direita em manifestações, evidenciando uma coordenação entre a repressão institucional e grupos fascistas que buscam intimidar o movimento estudantil.

Essa violência não é isolada. O governo Tarcísio utiliza métodos que remetem à ditadura, como o uso de gás lacrimogêneo contra estudantes pobres, enquanto parlamentares aliados tentam criminalizar a greve através de projetos de lei punitivos.

Projeto de nação ou colônia?

Ao traçar um paralelo com o governo de Javier Milei na Argentina, Tato alertou que o objetivo final do desmonte é impedir um projeto de soberania e autonomia tecnológica nacional. Segundo ele, setores das elites preferem importar tecnologia e atuar como “administradores de colônia” do que investir na ciência que desenvolve curas, novos materiais e combustíveis.

“O ataque busca acabar com qualquer possibilidade de um projeto de desenvolvimento científico e tecnológico próprio, porque isso pressupõe um país autônomo e independente”, concluiu.

Mobilização Unificada

A campanha salarial de 2026 reivindica a reposição de perdas inflacionárias acumuladas em 15% desde 2012, contra uma oferta de apenas 3,47% do Cruesp. Com a greve em expansão, as categorias preparam um grande ato público em São Paulo para o dia 20 de maio, unindo professores, servidores e alunos em defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade.

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