Educação

Sob bombas e cortes: o desmonte das universidades paulistas no governo Tarcísio

Enquanto estudantes e servidores clamam por permanência e recomposição salarial, o Palácio dos Bandeirantes responde com repressão policial e sufocamento financeiro, ameaçando o futuro da pesquisa e do ensino superior em São Paulo

A madrugada do último domingo (10) marcou mais um capítulo sombrio na história da educação pública paulista. Sob ordens diretas da gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Polícia Militar invadiu a reitoria da Universidade de São Paulo (USP) utilizando bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes para retirar estudantes que protestavam por melhorias básicas. A cena, que remete a períodos autoritários, é o sintoma mais visível de um governo que escolheu o confronto em vez do diálogo e o sucateamento em vez do investimento.

ICMS

Embora o orçamento da USP para 2026 tenha sido aprovado em R$ 9,41 bilhões, o valor mascara uma crise estrutural profunda. A dependência exclusiva da quota-parte do ICMS (5,02% para a USP) torna as instituições vulneráveis às flutuações econômicas e à falta de repasses suplementares por parte do Estado.

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O Fórum das Seis, que coordena as reivindicações de USP, Unicamp e Unesp, aponta que as perdas salariais acumuladas e o déficit de funcionários atingiram níveis insustentáveis. A pauta de 2026 exige a recuperação do poder de compra de maio de 2012, utilizando o IPCA como base oficial, mas o governo tem se mostrado inflexível.

Reivindicações

A greve, iniciada em abril e fortalecida em maio, não é apenas por salários. Os pontos centrais incluem permanência estudantil. O aumento de 3,94% nos recursos para permanência em 2026 é considerado insuficiente frente à inflação dos alimentos e aluguéis em São Paulo.

A contratação de servidores é tida como urgente. Unesp e Unicamp enfrentam sobrecarga crônica de trabalho e falta de técnicos administrativos. E a violência policial no campus da USP tornou-se o principal combustível para a continuidade das paralisações em outras unidades.

De costas para a ciência

A crítica central ao governador reside na sua priorização orçamentária. Enquanto o estado prevê investimentos bilionários em parcerias público-privadas e programas de infraestrutura, a educação superior — motor do desenvolvimento tecnológico de São Paulo — é tratada como um custo a ser cortado.

A morte recente da professora Sandra Regina Campos durante uma aula na Unesp, citada por movimentos sindicais como exemplo da precarização e do estresse nas instituições, tornou-se o símbolo da crise do abandono.

Ao responder a ocupações legítimas com “corredores poloneses” e prisões de estudantes, Tarcísio de Freitas sinaliza que sua gestão não tem espaço para a crítica acadêmica. Se o diálogo não for restabelecido e as verbas não forem garantidas fora do engessamento do ICMS, o maior patrimônio intelectual do Brasil corre o risco de entrar em um colapso irreversível.

Reitores cancelam reunião

O Cruesp cancelou a reunião de negociação que estava prevista para esta segunda-feira, 11 de maio, com o Fórum das Seis. A informação foi comunicada na manhã de hoje pelo gabinete da reitoria da Unesp, atual presidência do Conselho de Reitores.

Segundo o Fórum das Seis, a justificativa apresentada foi a adoção de uma “medida preventiva”, alegando a necessidade de preservar a integridade dos participantes e garantir condições adequadas para futuras negociações da pauta unificada de reivindicações de 2026.

Mário Camargo
Mário Camargo
Jornalista há mais de 30 anos, com especializações em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais e em Comunicação Popular e Comunitária. Foi diretor de comunicação nas prefeituras de Campinas (SP) e Maringá (PR). Trabalhou ainda na comunicação da Petrobras.

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