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Violência contra alunos da USP expõe crise já antecipada em debate na Câmara de Campinas

Em debate realizado na Câmara Municipal de Campinas, três dias antes da ação policial na USP, ADunicamp, APqC e Radar Democrático defenderam o diálogo democrático e denunciaram o avanço do desmonte da ciência pública.

Três dias antes da violência policial contra estudantes da USP, ADunicamp, APqC e Radar Democrático já alertavam, na Câmara de Campinas, para o avanço do desmonte da ciência pública e a criminalização do diálogo. Foto- Álvaro Jr/Câmara Campinas

Por Rogério Bezerra da Silva

 

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Na tarde do dia 7 de maio, enquanto o país ainda não imaginava as imagens que viriam da USP (Universidade de São Paulo) dias depois, ADunicamp, APqC e Radar Democrático reuniram-se na Câmara Municipal de Campinas, a convite do mandato da vereadora Guida Calixto, para discutir algo que, segundo essas instituições, já estava se tornando impossível ignorar: o avanço dos ataques às universidades e aos institutos públicos de pesquisa do estado de São Paulo.

O encontro tinha como foco principal o desmonte das instituições públicas de pesquisa (institutos públicos e universidades). Mas, depois da madrugada de 10 de maio — marcada pela violência da Polícia Militar contra estudantes da USP durante uma mobilização por permanência estudantil — as falas feitas naquele plenário passaram a soar quase como um aviso antecipado sobre o clima político que se instala no estado de São Paulo.

Ao longo do debate, o sentimento mais presente entre os participantes — Helena Lutgens e Joaquim Azevedo, pela APqC, Silvia Gatti, pela Adunicamp, e Rogério Bezerra, pelo Radar Democrático — era o de preocupação. Não apenas com cortes de orçamento ou com a falta de concursos públicos, mas com algo mais profundo: a sensação de que as instituições públicas de produção científica estão sendo coagidas pelas ações do governo paulista.

“Não é só sobre orçamento”

Os representantes das instituições convidadas relataram um cenário de esvaziamento gradual das pesquisas paulistas: laboratórios sem reposição de trabalhadores, carreiras fragilizadas, áreas históricas ameaçadas por interesses imobiliários e redução contínua da capacidade do estado de produzir ciência pública.

Em diferentes momentos, os participantes insistiram em uma mesma ideia: o que está acontecendo não pode ser visto apenas como um problema administrativo. Para eles, existe uma disputa mais ampla sobre qual universidade o governo do estado de São Paulo deseja construir e, principalmente, sobre quem pode permanecer nela.

Quando as imagens da repressão na USP vieram a público três dias depois, essa percepção ganhou ainda mais força.

A nova universidade pública

Um dos pontos mais sensíveis do debate foi justamente a mudança do perfil social das universidades públicas nos últimos anos. Muitos dos estudantes que hoje lutam por moradia, alimentação e bolsas de permanência são jovens negros, vindos da periferia e filhos da classe trabalhadora — historicamente afastados do ensino superior público brasileiro.

A leitura compartilhada no encontro foi a de que, quando reivindicações da comunidade de pesquisa passam a ser tratadas como caso de polícia, o que está em jogo vai além de um conflito momentâneo: trata-se da própria capacidade democrática das universidades e institutos de pesquisa de conviver com o dissenso, com a mobilização política e com a ampliação do acesso social. Por isso, a violência policial na USP não pode ser separada desse contexto social.

Entre o diálogo e o sensacionalismo

Após os acontecimentos da USP, o episódio passou a ocupar espaço central nas redes sociais e no debate político paulista. Parlamentares alinhados à direita exploraram as ocupações estudantis em tom de confronto, frequentemente reduzindo o debate a narrativas sobre “desordem” e “radicalismo”.

Foi justamente contra esse ambiente de simplificação e polarização que o encontro realizado na Câmara de Campinas acabou ganhando outro significado. Em vez do confronto performático que domina parte da política atual, o debate foi marcado por escuta, reflexão e tentativa de construção coletiva de respostas.

Houve preocupações e críticas duras ao governo estadual, mas com uma insistência constante na defesa do diálogo público, da ciência e das universidades e institutos de pesquisa como espaços democráticos.

“A ciência faz parte da vida das pessoas”

Ao longo do debate, os participantes destacaram que, muitas vezes, a população não percebe o quanto a ciência pública está presente no cotidiano: no alimento produzido no campo, nas vacinas, no combate às epidemias, nas políticas ambientais e até nas discussões sobre trabalho e qualidade de vida.

A intenção era clara: mostrar que discutir ciência pública não é falar de algo distante ou restrito às instituições de pesquisa. É falar de saúde, comida, meio ambiente, futuro e democracia.

O que o debate deixou como mensagem

No fim da debate, ficou evidente que aquele encontro havia se transformado em algo maior do que uma discussão sobre orçamento ou gestão universitária. O que apareceu ali foi uma preocupação coletiva com o rumo das instituições públicas e do debate público em São Paulo.

De um lado, pesquisadores e estudantes relatando precarização, insegurança e perda de espaços democráticos. Do outro, o crescimento de respostas cada vez mais repressivas diante de mobilizações sociais legítimas.

Talvez por isso, depois das cenas de violência na USP, o debate realizado na Câmara de Campinas tenha passado a ser visto por muitos participantes como um exemplo raro de algo que parece cada vez mais difícil no Brasil contemporâneo: parar para ouvir, refletir e discutir o futuro da universidade pública antes que o conflito substitua completamente o diálogo.

 

 

 

Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.

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