Por Rogério Bezerra da Silva
Na tarde do dia 7 de maio, enquanto o país ainda não imaginava as imagens que viriam da USP (Universidade de São Paulo) dias depois, ADunicamp, APqC e Radar Democrático reuniram-se na Câmara Municipal de Campinas, a convite do mandato da vereadora Guida Calixto, para discutir algo que, segundo essas instituições, já estava se tornando impossível ignorar: o avanço dos ataques às universidades e aos institutos públicos de pesquisa do estado de São Paulo.
O encontro tinha como foco principal o desmonte das instituições públicas de pesquisa (institutos públicos e universidades). Mas, depois da madrugada de 10 de maio — marcada pela violência da Polícia Militar contra estudantes da USP durante uma mobilização por permanência estudantil — as falas feitas naquele plenário passaram a soar quase como um aviso antecipado sobre o clima político que se instala no estado de São Paulo.
Ao longo do debate, o sentimento mais presente entre os participantes — Helena Lutgens e Joaquim Azevedo, pela APqC, Silvia Gatti, pela Adunicamp, e Rogério Bezerra, pelo Radar Democrático — era o de preocupação. Não apenas com cortes de orçamento ou com a falta de concursos públicos, mas com algo mais profundo: a sensação de que as instituições públicas de produção científica estão sendo coagidas pelas ações do governo paulista.
“Não é só sobre orçamento”
Os representantes das instituições convidadas relataram um cenário de esvaziamento gradual das pesquisas paulistas: laboratórios sem reposição de trabalhadores, carreiras fragilizadas, áreas históricas ameaçadas por interesses imobiliários e redução contínua da capacidade do estado de produzir ciência pública.
Em diferentes momentos, os participantes insistiram em uma mesma ideia: o que está acontecendo não pode ser visto apenas como um problema administrativo. Para eles, existe uma disputa mais ampla sobre qual universidade o governo do estado de São Paulo deseja construir e, principalmente, sobre quem pode permanecer nela.
Quando as imagens da repressão na USP vieram a público três dias depois, essa percepção ganhou ainda mais força.
A nova universidade pública
Um dos pontos mais sensíveis do debate foi justamente a mudança do perfil social das universidades públicas nos últimos anos. Muitos dos estudantes que hoje lutam por moradia, alimentação e bolsas de permanência são jovens negros, vindos da periferia e filhos da classe trabalhadora — historicamente afastados do ensino superior público brasileiro.
A leitura compartilhada no encontro foi a de que, quando reivindicações da comunidade de pesquisa passam a ser tratadas como caso de polícia, o que está em jogo vai além de um conflito momentâneo: trata-se da própria capacidade democrática das universidades e institutos de pesquisa de conviver com o dissenso, com a mobilização política e com a ampliação do acesso social. Por isso, a violência policial na USP não pode ser separada desse contexto social.
Entre o diálogo e o sensacionalismo
Após os acontecimentos da USP, o episódio passou a ocupar espaço central nas redes sociais e no debate político paulista. Parlamentares alinhados à direita exploraram as ocupações estudantis em tom de confronto, frequentemente reduzindo o debate a narrativas sobre “desordem” e “radicalismo”.
Foi justamente contra esse ambiente de simplificação e polarização que o encontro realizado na Câmara de Campinas acabou ganhando outro significado. Em vez do confronto performático que domina parte da política atual, o debate foi marcado por escuta, reflexão e tentativa de construção coletiva de respostas.
Houve preocupações e críticas duras ao governo estadual, mas com uma insistência constante na defesa do diálogo público, da ciência e das universidades e institutos de pesquisa como espaços democráticos.
“A ciência faz parte da vida das pessoas”
Ao longo do debate, os participantes destacaram que, muitas vezes, a população não percebe o quanto a ciência pública está presente no cotidiano: no alimento produzido no campo, nas vacinas, no combate às epidemias, nas políticas ambientais e até nas discussões sobre trabalho e qualidade de vida.
A intenção era clara: mostrar que discutir ciência pública não é falar de algo distante ou restrito às instituições de pesquisa. É falar de saúde, comida, meio ambiente, futuro e democracia.
O que o debate deixou como mensagem
No fim da debate, ficou evidente que aquele encontro havia se transformado em algo maior do que uma discussão sobre orçamento ou gestão universitária. O que apareceu ali foi uma preocupação coletiva com o rumo das instituições públicas e do debate público em São Paulo.
De um lado, pesquisadores e estudantes relatando precarização, insegurança e perda de espaços democráticos. Do outro, o crescimento de respostas cada vez mais repressivas diante de mobilizações sociais legítimas.
Talvez por isso, depois das cenas de violência na USP, o debate realizado na Câmara de Campinas tenha passado a ser visto por muitos participantes como um exemplo raro de algo que parece cada vez mais difícil no Brasil contemporâneo: parar para ouvir, refletir e discutir o futuro da universidade pública antes que o conflito substitua completamente o diálogo.
Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.
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