Em entrevista concedida ao programa Flow News, o ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, apresentou um diagnóstico detalhado sobre a situação socioeconômica do Estado de São Paulo e defendeu uma plataforma progressista voltada ao combate à desigualdade social. Durante a conversa com o apresentador Igor Coelho, Haddad destacou os impactos negativos das recentes privatizações, denunciou o sucateamento dos serviços públicos paulistas, detalhou propostas tecnológicas e administrativas para a gestão do estado e revelou bastidores do cenário político e econômico nacional.
1. Radiografia do sucateamento em SP
O grande eixo da entrevista girou em torno dos reveses acumulados pelo Estado de São Paulo sob o modelo de gestão do governo Tarcísio de Freitas. Haddad apresentou dados alarmantes sobre a deterioração de serviços essenciais e das finanças públicas estaduais:
Especulação e Prejuízo na Sabesp: Haddad classificou como equivocada a privatização de uma empresa estatal lucrativa como a Sabesp — realizada com concorrente único no leilão. O ministro denunciou que a companhia se tornou campeã de queixas no Procon, com aumentos na conta de água de até 40% em determinados casos, enquanto 40% dos seus investimentos foram direcionados para a troca de hidrômetros com foco na cobrança excessiva. Haddad garantiu que revisará os contratos e judicializará as irregularidades se assumir o governo estadual.
CPTM e Transporte de Massa: A concessão das linhas de trem resultou em um aumento de 27% nas falhas do sistema da CPTM, penalizando diretamente os trabalhadores da Região Metropolitana e do Interior no deslocamento diário.
Pedágios e a Armadilha do Free Flow: A implementação do sistema Free Flow sem a devida substituição e retirada das praças convencionais gerou sobreposição de cobranças e custos abusivos. Como exemplo do impacto social, Haddad citou o relato de um estudante do interior que precisa pagar R$ 12 por dia (R$ 200 mensais) apenas em tarifas de rodovia para conseguir assistir às aulas em um Instituto Federal.
Queda Histórica na Educação Pública: A rede estadual de ensino médio de São Paulo despencou do 3º para o 10º lugar no ranking nacional do IDEB, perdendo posição para estados com orçamentos substancialmente menores.
Sangria no Caixa Estadual: O governo atual consumiu o caixa livre herdado — que caiu de R$ 22 bilhões (corrigidos) para apenas R$ 5 bilhões (o equivalente a uma semana de pagamentos do Estado) —, transformando o superávit orçamentário em déficit. Além disso, o volume de investimentos diretos caiu de R$ 76 bilhões na gestão anterior para R$ 74 bilhões na atual.
Bastidores do Caso Banco Master / Vorcaro: Haddad expôs que a liquidação do Banco Master e a prisão do executivo Daniel Vorcaro ocorreram após a atual gestão do Banco Central e a Fazenda apurarem rigorosamente uma fraude bilionária contra o BRB. O ministro destacou que a gestão anterior do BC (indicada por Jair Bolsonaro) se omitiu frente às irregularidades da instituição.
2. Propostas inovadoras:
Focado em eficiência pública com sentido de justiça social, Haddad apresentou alternativas concretas para reestruturar as áreas fundamentais do estado:
Economia de R$ 2 Bilhões no SUS com Compras em Pool: Inspirado na experiência com os Hospitais Universitários Federais, Haddad propõe criar um pool centralizado de compras governamentais para prefeituras, rede estadual do SUS e Santas Casas. A medida prevê economizar R$ 2 bilhões ao ano em suprimentos e exames, liberando recursos para reestruturar a gestão das filas de atendimento.
Segurança Inteligente com B.O. por WhatsApp e IA: Para combater o crime organizado e a receptação de celulares e veículos, o projeto prevê a emissão de Boletim de Ocorrência em tempo real por WhatsApp operado por Inteligência Artificial. O cruzamento instantâneo de dados permitirá acionar o patrulhamento em tempo real e rastrear os receptadores finais.
Revolução Pedagógica e Fim da Precarização: A proposta para a educação pública busca transpor a metodologia dos Institutos Federais (IFs) — cujo desempenho supera a média europeia no PISA em leitura e ciências — para a rede estadual. O plano prevê também o fim da “plataformização” excessiva e do uso de planilhas burocráticas, além de combater a contratação precária de docentes, que atualmente atinge 47% da rede estadual.
Bilhete Único Metropolitano e Política Habitacional: Criação de uma tarifa integrada para trabalhadores informais que transitam entre cidades dormitórios e grandes centros, combinada com a expansão do modelo de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) do Plano Diretor de SP para os municípios do interior.
3. Momentos inusitados e bastidores
A sabatina no Flow News também foi marcada por momentos descontraídos, diálogos francos e passagens curiosas de bastidores:
Mimo de Abertura: A transmissão começou com o apresentador Igor presenteando o ministro com uma camiseta tecnológica (“tech t-shirt”) enviada por um dos patrocinadores do canal.
O “Otário” da Avenida Paulista: Em um momento cômico sobre a sensação de insegurança urbana, o apresentador Igor 3K relatou ter sido advertido de forma ríspida por andar de celular na mão na Avenida Paulista (“Também foi maior otário tu hein…”), arrancando risadas de Haddad e servindo de gancho para a discussão sobre inteligência policial.
“Sou chato com corrupção”: Ao ser questionado se o banqueiro Daniel Vorcaro tentou abordá-lo em Brasília, Haddad respondeu em tom bem-humorado: “Ele sabe quem ele pode convidar… ele me acha muito chato. E eu espero que sim, porque sou chato com corrupção mesmo, sempre fui”.
Bastidores do Meme “Taxad” e a Taxa das Blusinhas: Em um debate aberto sobre a tributação de compras internacionais, Haddad desmistificou a narrativa das redes ao revelar que a cobrança do ICMS foi exigida inicialmente por unanimidade pelos 27 governadores estaduais (incluindo Tarcísio de Freitas) e aprovada por todos os partidos no Congresso.
O “Biscoito Fino do PT”: No encerramento da conversa, Igor 3K relembrou uma frase célebre do músico e apresentador Rogério Skylab, que definiu Haddad como “o biscoito fino do PT”, selando o encontro em tom de descontração e em defesa da importância do debate democrático transparente.



