Por Cidinha Santos
Ouve-se com frequência em programas de rádio e conversas de café um tom de alívio quando se fala sobre a perda de força de mobilização da categoria bancária. A narrativa recorrente é simples: no passado, greves paralisavam o país e deixavam a população “refém”; hoje, com o Pix e os aplicativos na palma da mão, as paralisações perderam o impacto. Comemora-se a automatização como a redenção do consumidor. O que essa visão simplista ignora, contudo, são as entrelinhas da classe trabalhadora e a profunda exclusão digital que ainda divide o Brasil.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar o óbvio esquecido: bancários são pessoas trabalhadoras. A imagem do bancário como uma figura privilegiada não condiz com a rotina de metas abusivas, adoecimento mental por estresse e o constante fantasma das demissões em massa que acompanharam o fechamento de milhares de agências físicas nos últimos anos. Quando a categoria se mobiliza, não luta contra o usuário do banco, mas em defesa de condições dignas de trabalho diante de lucros bilionários e recordes do setor financeiro.
Além disso, a ideia de que “todo mundo faz tudo pela internet” é um mito construído pela bolha da conectividade. A automação bancária atende perfeitamente a quem tem acesso a smartphones modernos, franquia de dados instável e letramento digital. Mas o que acontece com a parcela substancial da população que não se encaixa nesse perfil?
- A barreira da idade e do letramento: Idosos e pessoas com menor escolaridade enfrentam aplicativos com interfaces complexas, atualizações constantes e termos incompreensíveis. Para esse público, o atendimento presencial não é um luxo, é uma necessidade básica de cidadania.
- A vulnerabilidade a golpes: Sem o auxílio do profissional no guichê ou no autoatendimento, a população mais vulnerável torna-se alvo fácil de estelionatários digitais.
- A exclusão estrutural: A desmobilização das agências e a redução do quadro de funcionários transferem o custo e o trabalho da operação para o próprio cliente, vendendo isso sob o rótulo de “praticidade”.
Celebrar o enfraquecimento de uma categoria trabalhadora sob o argumento da conveniência tecnológica é um tiro no pé social. A digitalização do sistema financeiro trouxe inovações inegáveis, mas não pode servir de pretexto para precarizar laços trabalhistas nem para descartar o atendimento humano de quem mais precisa. A eficiência de um aplicativo nunca substituirá a responsabilidade social do atendimento presencial.
A alienação do andar de baixo: quando o trabalhador defende o lucro do banco
Existe um fenômeno perverso na sociedade brasileira: a facilidade com que o trabalhador da periferia ou da classe média precarizada aponta o dedo para o colega de classe. Diante de uma paralisação, de uma reivindicação de direitos ou da luta contra o fechamento de postos de trabalho, a reação imediata de parcela da população não é a solidariedade, mas a indignação contra o trabalhador que luta. Critica-se o bancário, o metroviário, o professor. No entanto, o lucro recorde das instituições financeiras — que cresce ano a ano, imune a crises e pandemias — raramente entra no debate público como a verdadeira raiz do problema.
A redução vertiginosa da categoria bancária nas últimas décadas é vendida sob o rótulo sedutor da “modernização”. Fecha-se a agência do bairro, demitem-se milhares de pais e mães de família, sobrecarregam-se os funcionários remanescentes com metas abusivas e empurra-se o cliente para o atendimento robotizado. O resultado imediato dessa equação é a transferência de trabalho para o próprio usuário e o inchaço dos balanços do setor financeiro. O banco economiza em folha de pagamento, precariza o serviço prestado à população e entrega dividendos bilionários aos seus acionistas.
O mais estarrecedor é a assimetria com que o livre mercado é aplicado na prática:
- Trabalho sem rede de proteção: Para o trabalhador, vale a lógica implacável da eficiência, da perda de direitos e do fantasma do desemprego. Se a tecnologia avança, o trabalhador que se adapte ou seja descartado.
- Socialização das perdas bancárias: Para o sistema financeiro, o risco do negócio é um mito. Quando a gestão é temerária, quando operações arriscadas falham ou quando crises sistêmicas ameaçam os balanços, o Estado — custeado pelos impostos da própria população — prontamente articula socorros bilionários para garantir a estabilidade do setor. É o capitalismo para a classe trabalhadora e o socialismo de resultados para os banqueiros.
Quando um cidadão vibra com a perda de força de uma categoria organizada, ele celebra, sem perceber, o seu próprio enfraquecimento. O desmonte dos bancários não é um caso isolado; é o laboratório do que se aplica a toda a classe trabalhadora. A automação desenfreada e a precarização não geram riqueza distribuída — apenas concentram a renda no topo da pirâmide e deixam a base dividida, brigando entre si por migalhas enquanto o lucro bancário bate novos recordes históricos.
Questionar a ganância do setor financeiro e exigir a preservação de empregos e do atendimento humano não é resistir ao futuro. É recusar uma lógica social em que a tecnologia serve para acumular capital nas mãos de poucos, sacrificando a dignidade de quem trabalha.
C
idinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Antirracista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular (PLP) e cantante do Grupo Vozes.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



