Por Rogério Bezerra da Silva
Há encontros que acontecem entre pessoas. Outros, entre livros. E há aqueles em que uma palavra parece encontrar exatamente o tempo em que precisava ser dita. Foi assim que Marco Antonio Baleeiro participou da 28ª Bienal do Livro de São Paulo, um dos grandes encontros da literatura brasileira. Entre autores e autoras de diferentes lugares, Marco foi convidado a receber o Diploma de Mérito Acadêmico Ciccillo Matarazzo, concedido pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia, com o apoio do Espaço Leia Mais, organizado pela escritora e professora Leni Zilioto.
A homenagem, por si só, já carregava o significado de um encontro entre literatura, conhecimento e reconhecimento. Mas havia ainda outro motivo para celebrar: na mesma ocasião, Marco participou do lançamento de mais uma de suas obras, “Café com Leni – 5”, uma coletânea de poesias, reunindo autores e autoras de diferentes países.
Na obra, Marco começa olhando para um mundo que parece novo, mas que carrega consigo velhas marcas:
“No despertar da aurora
desse mundo novo
O velho insiste.
A morte insiste
entre ruínas
e pulsos de luz.”
A tecnologia trasnforma, os espaços se iluminam, as máquinas aprendem, os algoritmos dominam. Tudo isso para perpetuar as já conhecidas formas de sofrimento e exploração humanas.
E, nesse contexto, o trabalho aparece não apenas como aquilo que fazemos para viver, mas como aquilo que domina a própria vida.
“E o trabalho,
como nunca,
pesa sobre os ombros
não mais apenas sobre o corpo,
mas sobre a mente
que não consegue desligar.”
A mensagem que chega quando deveríamos descansar. A tela que permanece acesa. A sensação de que o corpo parou, mas as metas não. O trabalho que continua depois do expediente.
O poema vai, então, deslocando nosso olhar: da cidade para a tela; da tela para dentro da fábrica; para o trabalho que fabrica sofrimento e adoecimento.
“Há multidões
sem encontro.
Megalópoles acesas
onde milhões caminham
com a solidão
acesa por dentro.
Vivemos conectados
ao infinito
e separados
de nós mesmos.”
O poema de Marco nos leva a indagar: o que acontece quando a velocidade do trabalho passa a organizar nossa relação com o tempo? O que acontece quando já não conseguimos imaginar uma vida que não esteja submetida à aceleração permanente?
Na própria trama do poema, desdobram-se breves resposta:
“O fascismo chega
sem botas,
sem tanques,
sem anunciar seu nome:
Entra pela velocidade,
pela tela,
pelo medo,
pelo cansaço
de quem já não consegue imaginar
outro mundo.”
Na 28ª Bienal do Livro, entre livros, autores, autoras e leitores de diferentes lugares, sua homenagem e o lançamento da nova coletânea celebraram a literatura como encontro. Mas o poema sugere algo ainda maior: talvez escrever e ler sejam, em tempos de aceleração, formas de recuperar aquilo que o trabalho tenta nos roubar — o tempo de pensar, de sentir, de encontrar o outro e, sobretudo, de imaginar.
Talvez seja esse o convite que Marco nos deixa: não apenas ler seus versos, mas conversar com eles. É por essas reflexões que vale a pena procurar o livro, conhecer a coletânea e encontrar a poesia de Marco Antonio Baleeiro em sua inteireza.
Porque, às vezes, um poema não quer apenas ser lido. O poema quer conversar com quem o lê.
Rogério Bezerra da Silva é autor de “O melhor banquete” (Caravana, 2021), “Dois tempos – a epidemia de febre amarela e a pandemia de Covid-19 na cidade de Campinas” (Ícone, 2022). Junto a Paulo San Martin, é editor da Coleção Caminhos e Rumos. Articulista do Radar Democrático.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.




