Investigação Financeira

Entenda a relação de Tarcísio com Edir Macedo e o banco Digimais

Crise no Banco Digimais expõe teia de interesses com gestão estadual paulista

A deflagração da Operação Miragem pela Polícia Federal, nesta quarta-feira, dia 23, revelou uma teia de interesses que conecta o Palácio dos Bandeirantes em São Paulo ao império financeiro e religioso do bispo Edir Macedo. No centro das investigações está o Banco Digimais, que, mesmo mergulhado em uma crise profunda, recebeu o aval da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para explorar o contracheque dos servidores públicos paulistas.

O governo estadual, por meio da Diretoria de Folha de Pagamento, publicou o credenciamento do Digimais em julho de 2025, firmando o contrato definitivo em agosto/setembro do mesmo ano. O acordo, válido até 2030, abriu as portas para que a instituição oferecesse crédito consignado aos cerca de 80 mil policiais militares da ativa.

Receba nossas notícias

O fato que desperta suspeitas é o “tempo” dessa parceria: o banco foi habilitado quando já acumulava prejuízos de R$ 250 milhões, cifra que saltou para quase R$ 500 milhões em fevereiro de 2026. Para evitar o colapso técnico da instituição, Macedo precisou injetar R$ 250 milhões do próprio bolso no final de 2025, além de outros R$ 741 milhões em uma manobra envolvendo o fundo de investimento Hermon.

Uma estratégia de ocupação institucional

A relação não é meramente comercial, mas fruto de uma simbiose política e institucional. Tarcísio de Freitas é filiado ao Republicanos, partido que nasceu nas fileiras da Igreja Universal e é presidido pelo bispo licenciado Marcos Pereira. Sob a atual gestão, a presença da Universal no Estado expandiu-se para áreas sensíveis:

  • Segurança Pública: A igreja mantém capelães em contato diário com as guarnições e realizou palestras de 12 horas para 2,5 mil novos PMs na Catedral do Brás. Em dois anos, a corporação concedeu ao menos 20 medalhas e honrarias à denominação de Macedo.
  • Sistema Prisional: Pelo programa “Universal nos Presídios”, a igreja assumiu a qualificação profissional de 8 mil detentos, transferindo para a esfera religiosa uma responsabilidade que deveria ser pública.
  • Dependência Financeira: O Digimais encontrou no poder público paulista sua principal boia de salvação: o Estado de São Paulo e a Prefeitura da capital (gestão Ricardo Nunes) respondem, juntos, por 85% de toda a carteira de crédito consignado do banco.

Repercussão: críticas e sombras sobre o governo

A operação da PF gerou uma onda de cobranças políticas sobre a falta de critérios da gestão estadual. A oposição na Assembleia Legislativa (Alesp) afirma que já havia alertado para a insolvência da instituição. Deputados estaduais como Maurici (PT) questionam quem autorizou e protegeu o banco, revelando que o Ministério Público chegou a ser acionado no passado, mas o caso foi arquivado. Já a deputada Monica Seixas (PSOL) classificou a relação como “suspeita”, apontando favorecimento por proximidade política.

Enquanto o governo Tarcísio se defende alegando que o credenciamento seguiu requisitos técnicos e que o banco representa apenas uma pequena fatia (1,57%) das operações estaduais, as investigações avançam. Com R$ 670 milhões bloqueados pela Justiça e sigilos quebrados, a grande dúvida que permanece é por que o Estado entregou o acesso à margem financeira de seus servidores a um banco que, segundo as autoridades, operava milagres apenas para ocultar o próprio abismo.

O “Método Master” e as fraudes contábeis

A Polícia Federal aponta que o Digimais operava como uma “instituição zumbi”, utilizando mecanismos para forjar uma saúde financeira inexistente. O esquema, comparado ao escândalo do Banco Master, incluía:

  • Geração artificial de receitas: Alteração de informações contábeis para apresentar ativos ilusórios ao Banco Central.
  • Reciclagem de “crédito podre”: O banco pegava dívidas de difícil recuperação (como financiamentos de veículos inadimplentes) e as transferia para fundos controlados pela própria instituição, fingindo lucro onde havia perda.
  • Contratos fantasmas: Uma auditoria identificou que cerca de 22 mil contratos, somando R$ 500 milhões, eram falsos e não possuíam lastro real.
Radar Democrático
Radar Democráticohttp://radardemocratico.com.br
Radar Democrático é um portal de notícias focado no estado de São Paulo. Valorizamos a democracia, a pluralidade de ideia, a diversidade étnica e cultural, e os direitos humanos. Acreditamos na mobilização e organização da população como fundamentais para as transformações sociais urgentes não só em nosso estado, mas no país.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor, escreva seu comentário!
Por favor, escreva seu nome

Últimas notícias

Quando a poesia desacelera o mundo: “Café com Leni”

Por Rogério Bezerra da SilvaHá encontros que acontecem entre...

TST julga dissídio da Caixa e greve de empregados nesta terça

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) julga nesta terça-feira...

Pesquisa Quaest: por que a nacionalização da campanha é a esperança de Haddad em SP

A pesquisa Quaest para o Estado de São Paulo...

TST determina manutenção de 60% dos bancários da Caixa trabalhando durante greve

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou, em decisão...

Governo Tarcísio nega documentos e esconde processo sobre banco de Edir Macedo

O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) decidiu esconder...

Topics

Quando a poesia desacelera o mundo: “Café com Leni”

Por Rogério Bezerra da SilvaHá encontros que acontecem entre...

TST julga dissídio da Caixa e greve de empregados nesta terça

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) julga nesta terça-feira...

TST determina manutenção de 60% dos bancários da Caixa trabalhando durante greve

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou, em decisão...

Governo Tarcísio nega documentos e esconde processo sobre banco de Edir Macedo

O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) decidiu esconder...

Haddad no Flow: críticas a Tarcísio e propostas inovadoras para SP

Em entrevista concedida ao programa Flow News, o ex-ministro...

Fenae comemora 55 anos em defesa dos trabalhadores da Caixa com festa alemã

A Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa...
Fenae 55 anosFenae 55 anosFenae 55 anosFenae 55 anos

Related Articles